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segunda-feira, 5 de junho de 2017

coisas produzidas pelos sonhos

Quando se é uma criança com uma imaginação fértil em uma época onde a tecnologia afetava timidamente o que poderia ser produzido depois, tive sorte de ter sido criade numa casa onde tinha quintal enorme.
Dreams, inconsistent angel things...

Já comentei das peripécias de viver na Tiago da Fonseca durante os anos 90, como isso me afetou na escrita e na produção de sentidos para as realidades em que estive inseride. Sonhos estão comigo tão vívidos desde pequene, felizmente muitos me dando inspiração para escrever e narrar histórias - nem que seja só para mim mesme, todo mundo precisa de um pouco de ficção pra não ficar insano - outros, os pesadelos, tem estado comigo também desde que mudei de estado ali na metade de 1994.

Coincidentemente meu contato com bibliotecas foram nessa mesma época. Perceber o mundo de um jeito mais crítico também. Mas os pesadelos estavam ali por algum motivo que não se dá para tocar quando criança, às vezes nem é bom, pois para digerir isso quando novinhe se faz um esforço tão grande que acaba ferrando com a cabeça depois.

Pra quem tem muitos pesadelos desde criança, até que tou bem quanto a eles. Não afetam mais como antes. Comecei a escrever o que lembrava deles após acordar em uma antiga sessão do primeiro Blog que tive (DelusionalWounded, geocities disse bye-bye, weblogger do Terra também, depois domínio próprio e aqui no Blogger pra virar esse que você lê agora), a tal da "Sonhos estranhos com detalhes"


My beautiful grief
Your dreams are my torture

Your dreams my relief



Depois de descobrir como se faz para manipular sonhos - o que chamam de sonho lúcido - durante meus 20 e poucos anos e entender que sonhos, sejam eles bons ou ruins, fazem parte da nossa criatividade querendo dar as caras para algo a ser produzido, transformei muitos sonhos/pesadelos em contos. Das melhores experiências no mundo onírico, consegui tirar um projeto de cenário para fadas - Projeto Feéricos tá devagar, mas tá indo - e mesclando com cultura popular, cinema, música e performance. Dos pesadelos intricados, dolorosos e traumatizantes, consegui compreender como a vida no mundo real, sólido e tátil pode ser uma dádiva a ser aproveitada a cada segundo. Deles também tirei inspirações para muitas histórias, questionamentos, pesquisas, realizações. Sonhar com a própria morte dezenas de vezes numa mesma noite não é saudável para ninguém, mas acabei percebendo que cada batida de cartão ao patrão Morfeu, uma lição era aprendida: nunca subestime o poder do ID, do subconsciente.

No Projeto Feéricos comecei a delinear algumas histórias que tomassem a narrativa desses sonhos, afinal tudo começou com uma menininha mendiga com um mochilão maior que ela, no meio de uma chuva torrencial, debaixo de um prédio cheio de escombros, me ajudando a lutar contra um monstro feito de vigas de ferro retorcido e pedaços de reboco e concreto. A Angie nasceu ali, de um sonho escabroso em uma noite de verão após chegada ao Rio de Janeiro, perto de um local onde uma tragédia aconteceu décadas atrás e que só vim saber depois quando contei o sonho pra uma pessoa da família que mora na cidade.
(Links para as notícias [x] [x] [x])

Com esse template de narrativa feita, e devorando o Manual Básico de Changeling the Dreaming, veio a confecção de um mundinho muito aproximado do nosso, com muita mistureba da nossa cultura com os diversos lugares que já estive/passei/morei. A Metrópole que é citada nos contos é uma mescla entre centro do Rio de Janeiro, centro histórico de Florianópolis e um pouco de Belo Horizonte. Cada pedaço ali descrito é meio que revisitar esses lugares que passei tanto tempo admirando ou correndo. O Posto 2 do Zé Ferreira, Dona Alcidez e Angie criança é total Avenida Rio Branco, desde a frente da Rodoviária com os hangares portuários, até lá o final chegando na praça dos Bombeiros, passando pelo antigo Hospital Psiquiátrico Pinel.

Mas pra quê isso tudo? porque acabei trombando com esse cara.

Zdzisław Beksiński era um pintor polonês que passou a vida toda pintando sobre seus sonhos. e o que ele via lá eram coisas beeeeeem estranhas por assim dizer. Muito da arte dele é grotesca, vívida e surrealista, então para ter um pouco mais de atenção nas pinturas tem que ter um estômago mais ajeitadinho, uma cabeça mais acertada com certas temáticas. o surrealismo dele, onírico por assim dizer ultrapassa muito das nuances que a gente, meros mortais, consegue produzir com a imaginação.
Nem nos meus piores pesadelos eu tenho lembranças de material como esse.

Duas pinturas que me impressionaram pelo detalhismo e a semelhança tão f*** com o que eu imaginava para o cenário de Projeto Feéricos são essas aí abaixo:

'Dolina Śmierci do artista polonês Zdzisław Beksiński -  (Fonte: Carajaggio)

Essa pintura já havia colocado no conto que escrevi semana passada "Como pesadelos são construídos" ilustrando o feeling das andanças da Angie. Em termos de jogo - Changeling the Dreaming - a Angie tem as skills de passear entre Trods, é como se fossem passagens secretas entre tempo-espaço, poucas fadas conseguem fazer isso com segurança, e como a Angie tá enquadrada como Eshu no RPG, ganha uns pontinhos a mais... Tem todo um background de como ela consegue passear entre mundos, isso vai sendo explicado depois. Há esse rascunho mal processado que escrevi na época em que o cenário tava tomando forma, problemas de bloqueio vieram depois, aí não produzi tanto quanto queria.




A imagem do ônibus abandonado é perfeita para a quimera-ônibus que surgiu depois de um sonho esquisito com caçadores de pokémon que eram fadas (?!) e eu participava do grupo com o sarcasmo e o lolz. Até hoje esse sonho norteia qualquer mudança que eu vá face no cenário de Feéricos, por conta de ser como visualizei primeiro como seria a dinâmica entre os personagens. Tudo bem que Angie não tava lá, mas a forma dos personagens estavam, a motivação também.

O ônibus-quimera é uma daquelas alegorias de pesadelos estáticos que volta e meia visitamos de tempos em tempos, arruinado, enferrujado, pichado e trazendo ferro frio em sua constituição traz todo o pavor possível para qualquer feérico que seja obrigado a estar perto dele. A quimera se manifesta silenciosa, na forma do ônibus e levando seus passageiros para um lugar onde os sonhos estão paralisados.

Vi um ensaio de fotografias de exploração urbana na cidade de Pripyat, onde fica a usina nuclear desativada de Chernobyl, Ucrânia e não sei se vocês sabem, mas lá é inabitável pelos altos níveis de radioatividade no solo, na água, e até no ar respirável em alguns pontos. Tem uns malucos que fazem turismo por lá com todas as precauções feitas pelo governo para não haver contaminação radioativa, aí nas fotos, uma me chamou atenção: o parque de diversões da cidade.

O parque foi para Engel, o ginásio foi a ponte para introduzir a Angie no grupo, já que a menina é ligada ao caos e ao vazio. A desolação de Pripyat mais essa peça do polonês dão um tom para a trama da Angie que me fez questionar algumas coisas na personalidade da personagem eternamente adolescente:
- Como ela chegou ali? 
- Por que ela está ali? 
- Paradas de tempo são possíveis em sonhos? 

O ônibus-quimera respondeu a tudo isso, além de dar um adicional pra Angie, ela sabe o que é ficar entre o Sonhar e o Limbo, ela compreende o que é perder o Glamour para algo tão banal quanto ao tempo.

Ou a minha primeira reação ao ver um quadro dele: "That's the real stuff made by nightmares." e saiu em inglês mesmo dentro da minha cabeça, porque não consegui traduzir isso direito pro português: "Coisas bisonhas produzidas por pesadelos" e aí bati o olho no Manual de Changeling e pimba! Tá lá os Pesadelares como descrição disso mesmo que tive a primeira impressão.

Escrever com algo que está posto na realidade é gostoso, gosto de moldar mundos como se brincasse novamente de Lego - só que com as palavras né? - o que é mais intricado em fazer é adicionar os elementos dos sonhos nisso tudo. E é aí que comecei a escrever esse texto: encontrei o artista perfeito para ilustrar algumas passagens das minhas escrivinhações.

domingo, 11 de dezembro de 2016

[conto com angie] hora do chá


Título: Hora do chá (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.010 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby

Algumas coisas na vida mudavam. 
E outras coisas continuavam as mesmas. 

Angie observava a cena com um leve sorriso no rosto ainda marcado de tinta guache, canetinha hidrocor, a maquiagem meio borrada pelo turno vespertino na creche comunitária onde fazia voluntariado apenas pela merenda e nada mais.

Seus olhos cansados passeavam minuciosamente pela cozinha do hotel, aquele gigante animado de forma grotesca em seu entender, como um construto despedaçado e rebocado em cada pedaço e andar do prédio. Já havia se desentendido com o tal hotel (Ou seja lá o que o mantinha "vivo") e agora, exatamente naquele instante percebeu que tinha um cúmplice de intrigas.

Nesse caso, de sacanear a chefia o máximo possível.

O fogão que nunca pegava na primeira acendida de fósforo estava perfeitamente funcional. Aceitando o fundo da chaleira sem balançar e espalhar a água quente e apagar a chama ou queimar quem estivesse por perto. O segundo bocal enorme para panela grande nem cismara em se acender e causar um pequeno incêndio. O forno é que mais surpreendia, não jorrou nenhum objeto chamuscado, deixou um fedor empesteante de gás e muito menos fazia um barulho horrendo após alguns minutos aquecido.

A cozinha do hotel estava colaborando com a Rainha dos Feéricos, mesmo ela odiando esse título e o evitando como dava.

A observadora não tão distraída na porta da famigerada cozinha mortífera coçou o queixo com uma casquinha de guache seca, o sorriso cresceu ao ver o gesto pequeno de carinho trocado entre as duas ocupantes do pequeno espaço, o simples mover harmonioso de se dividir as tarefas, uma mão que complementava a outra, uma ação ainda não feita, mas pensada já sendo executada, a sincronia entre movimentos, e os fios prateados. Urrum, lá estava os dois, tão entrelaçados um ao outro que mal conseguia distinguir onde um começava e outro terminava.

As duas pessoas não percebiam nessa ótica, estavam entretidas em fazer o ritual do chá da tarde e terem o momento silencioso de desfrutar a companhia uma da outra sem precisar tratar de negócios do Mercado Proibido ou de Quimeras rebeldes. 
- Abro esse pacote aqui ou...? 
- Abre dois que a menina chega esfomeada, como sempre... - riu Raine para a dificuldade em que Kittie tinha em abrir a embalagem de biscoitos. Angie quis intervir como sempre, dar sua opinião ferina era algo automático de sua índole, mas ali, naquele lugar, ela não iria interromper o que estava acontecendo. 

Os fios prateados sempre diziam o caminho.

A música na vitrola na sala da sinuca mudara para uma balada dos anos 80, algo bem melancólico de letra ambígua, mas que fizera muito sucesso na época (Angie lembrava disso muito bem, viveu intensamente os anos 80 como uma adolescente eshu que se orgulhava). Para Angie, a música era um código universal de alcance ilimitado aos corações, não importava como. O fato da vitrola pertencer a Raine e estar tocando sucessos dos anos 80 era algo a se relevar: a chefia não deixava ninguém tocar em seus pertences, muito menos mudar aquele disco pegajoso de música barroca, de concerto, sem letra alguma e tediosa depois do terceiro minuto. 
- As torradas estão prontas, chá também, faltam as sementes e o querido voltar com a geleia e manteiga... - organizou Kittie em seu modo metódico de viver a vida, sempre se disciplinando para não esquecer nada. Raine riu novamente, se aproximando da pessoa mais alta e tirou uma xícara de seus dedos sempre trêmulas. 
- Relaxa... É só um chá da tarde, estão todos acostumados com a bagunça. - O rosto de Kittie se contorceu em preocupação, mirando bem a xícara retirada de sua mão, os óculos de armação tartaruga escorregaram um pouco do gancho do nariz para serem ajeitados por Raine inconscientemente. As duas trocaram olhares novamente e riram. 
- É só um chá... - repetiu Kittie com certeza, a mão de Raine tocou seu rosto e a preocupação se desfez rapidamente. A troca de olhares foi confusa, Raine para a cicatriz ainda se curando no lábio de Kittie, esta focando sua atenção e miopia no topo da cabeça de Raine. 

Foi quando Angie percebeu no que Kittie também via, soltou um soluço de surpresa pela descoberta e atrapalhou o fluxo de energias que a cena doméstica produzia no ambiente (E pro hotel ter ficado a favor disso era porque as energias eram realmente poderosas). 
- Oh Angie, já chegou? Não pegou até às 18h? - disse Tobby chegando com sacolas de compras no seu andar desequilibrado. O momento ali se dissipou, Kittie foi supervisionar o forno, Raine pegou um pano de prato e o amassou nas mãos com certa violência. A interrupção não era nada perto do incômodo da dona do hotel ser vista em posição tão vulnerável. 
- Gurizada foi pro flúor e escovação de dentes, então... - Angie deu de ombros e refez seu jogo para amenizar a tensão. - Tá fazendo biscoito, é? 
- É bolacha. - provocou Tobby, ela abanou a orelha demonstrando o quanto se importava. 
- É semente de abóbora caramelizada... Receita básica de Dia dos Santos... - explicou Kittie abrindo o forno e tomando cuidado para tirar a travessa com o doce marrom e de aroma característico entre amendoim torrado e açúcar queimado. 
- Dia dos Santos é semana que vem, não? - Angie ajudou Tobby a tirar as compras e separar na bancada de mármore da pequena cozinha, Raine continuava em silêncio, observando bem a tarefa de Kittie com a travessa quente e uma espátula de teflon. - Pode pegar um teco? 
- Espera esfriar que vira torrão, calma. - Kittie avisou mantendo a travessa longe da menina eshu.
- Obrigada Tobby pelas compras... - Raine agradeceu polidamente e pegando com cuidado as bandejas com chá, biscoitos e utensílios.

Saiu graciosamente pela porta da cozinha e encaminhou-se para a sala da sinuca. Kittie brigava com a espátula, Tobby ajeitava as compras nos armários e Angie percebia que o fio prateado de Kittie e Raine lentamente se afinava para finalmente se separarem, cada um de seu lado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[Conto com Angie] O metrô do Arges

[O metrô do Arges] por: @_brmorgan.
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: 16 anos (morte, distorção de convenções morais, violência)
Resumo: Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
Disclaimer: Não terminei esse, mas já postando, porque gostei da levada do enredo.

Aquele lugar continuava insuportável.
Não me leva a mal, mas tem pouca ventilação aqui, goteira pra tudo quanto é canto e o cheiro é desagradável. Parece um cemitério... Bem... é um cemitério... de locomotivas.

Quando eu tava meio fora do ar, evitava de ficar rondando essas quebrada, metal faz mal pra saúde das fadinhas aqui, valeu? Não quero me meter em enrascada, ser obrigada a sair vazada e tropeçar numa coisa dessas e me cortar. Metal frio dá problema, tipo gangrena, arranca pedaço maior, te mata. Eu não tou pronta pra morrer. Não hoje! Hahahahahahahah, okay, certo, parar de rir tão alto, esse lugar dá eco... Eeeeecooooo... 

 - Ai! Não precisa me beliscar! - digo pro lazarento do meu lado, óbvio que ter guia aqui embaixo é tipo, pedir pra ser coisa ruim. Desde que encontramos aquela quimera-busão, as coisas aqui embaixo andam, bem... ahn... como dizer? Peculiares.

E pra completar bruxas. Oh ótimo! Como se não fosse o bastante!
 - Eu posso te ouvir pensando.
 - Grandes coisa, e eu consigo teleportar. Quem ganha nessa? Você? - digo de volta pro guia. Não dá pra saber quem é, nem me importo o que seja, o importante é que firmou os esquemas, desço sem ser ludibriada, na volta damos um jeito. Certo? Belezura.
 - Estamos perto.
 - Cê falou isso há uns 15 minutos atrás.
 - Você pensa demais. Distrai.
 - Uai Zé Povinho, trata de manter a telepatia guardada, oras! Que intrometido.
 - Sua insolência será registrada no... - sério que isso é uma gravação de voz? Onde raios estamos indo?
 - Véi, era alguém nos auto-falantes?
 - O que é auto-falante?
 - Cê é véi, né véi?
 - Hein?
 - Esquece. guia aê que o tempo tá acabando. Preciso chegar antes das 6 pra jantar direito. Muita coisa rolando pra amanhã... - dando desculpinha pra fingir uma vidinha normal, essa sou eu. Essa é a minha vidinha. Sozinha, na escuridão, no meio de um túnel cercada de lodo e goteiras, sendo guiada por uma criatura invisível e lamurienta para o meio do nada. O cheiro de metal é forte. Muito.
 - Lembre-se que quando chegar até lá, não há volta a não ser pelo viajante de aço.
 - Ah tá, arram, senta lá Cláudia.
 - Meu nome não é Claudia, é Liriam.
 - É um bonito nome! - me surpreendo com a interação. - Whoa Liriam! Cê é tipo aquele povo dos espremidos e talz?
 - Nós temos um nome, menina, não precisa ofender. - a voz de gravação de áudio aparece de novo.
 - Okay, da onde vem essa voz?!
 - É um dos nossos.
 - Não é aqueles dentuços não né? - minhas mãos tremem ao lembrar do último encontro com um "deles". Urrum, eles existem, estão no meio de nós. Não deveriam estar, mas hey! Se o Drácula aparecer na minha frente e buzinar três vezes, é óbvio que irei acreditar em vampiros! Nota para a posteridade: vampiros são mortos-vivos e eles machucam pra cacete. Eu e meu cano de ferro que o fale.
 - Somos antigos, raça antes nobre, hoje fadada a solidão.
 - É triste isso véi, ops Liriam... - eu entro na confissão de terapia de debaixo de metrô. Parece apropriado para o momento. - Cês não encontram mais de vocês pra trocar umas ideias, fazer uns debates, sei lá, jogar pingue-pongue?
 - O que é pingue-pongue?
 - É um esp... ah esquece... demora muito ainda?
 - Mais esse corredor.
 - Isso é um corredor? Parece um túnel!
 - Menina, não se esqueça que no escuro, você parece maior do que é. O seu verdadeiro eu.
 - Oh locutor de meia-tigela! Vai se catar! - odeio quando me vêm com essa de "ser maior", tenho só um e sessenta de altura, pô! Tá tirando com a minha... MINHA NOSSA CENOURA DO CACHORRO RUIVO!! Que p**** é essa?!
 - Por favor, não grite. Pode assustar o viajante de aço.
 - Como é que vou assustar um vagão de metrô, oh locutor pirado? - eu indago de volta para o nada, mas o nada toma forma.

[Créditos da Imagem]
É imenso. É confinado. É tudo ao mesmo tempo.
Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
 - Aqui é o local. Não posso mais que isso. - diz meu guia com nome bonito, viro-me para o túnel escuro e apenas vejo uma figura alta, esbelta, espremida em uma das paredes do túnel de acesso a essa estação. Não vejo seu rosto direito, há uma cortina grande de cabelos escorridos cobrindo o que parece ser uma face humanóide. Gente boa, Liriam.
 - E pra sair?
 - Apenas pelo viajante de aço. - disse apenas, sendo engolida pela escuridão.
 - Obrigadão Liriam! Cê é jóinha! Passa lá na Raine pra gente tomar um chá... - e vendo que a criatura não iria me ouvir mesmo, eu continuo disfarçando o meu pavor de estar ali. A missão não era nada feliz. - Comer uns biscoitinhos, fazer um tricô, talvez umas miçangas e vender a Arte na praia... Essas coisas... - enquanto caminho percebo nos detalhes dos ladrilhos, tão bem colocados em um imenso mosaico colorido nas paredes, teto e além. O vitral azul acima de minha cabeça mostra as estrelas pálidas. Ufa, pelo menos aqui estou sendo assistida, não dá para me perder.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

[conto com angie] os escorregadios - prelúdio


Créditos: http://www.openbooktoronto.com/events/diaspora_dialogues_presents_short_history_change

O pesado livro em uma mão, a caneca cheia de vinho na outra.

"Heresia!!" diriam seus ancestrais, por estar bebendo perto de conteúdo tão antigo e sagrado, mas do jeito que se encontrava na cadeira de madeira que aquela biblioteca reservava para pesquisadores, a admoestação dos antigos não surtiria tanto efeito. Melhor estar confortável com o gosto de vinho barato e o metálico de 2 balas dentro de seu sistema digestório que obedecer velhas regras.

O rosto com hematomas na linha do queixo e subindo pela bochecha, enfeitado por uma breve cor esverdeada da lenta circulação sanguínea comum de seu corpo semi-morto, a camiseta branca que usava como uma armadura empapada de manchas de sangue, sujeira e estilhaços. Remendos feitos à mão em um torso machucado pela pólvora e a tempestade. Os pulmões voltaram a funcionar lentamente após tossir parte do tecido queimado pelo tiro certeiro em uma cavidade vazia.

A mão do vinho virou uma página em pressa de ler a próxima frase, os hieróglifos indecifráveis para sua cultura (e quantas tinha!), mas que de alguma forma faziam sentido. Ali deveria conter algum sentido para o que passava, a angústia de viver sem respostas, a dor de estar entre os vivos, mas se sentir menos viva que aqueles que se diziam mortos.

Era uma linha tênue que constantemente não se aplicava ao seu estado atual.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

[feéricos - contos para sonhar] certas leis se repetem



A história se repete. 

Se repete. 
Repete. 


Vira boato, anedota, fábula, esquecida em algum canto, mas se repete e repete e repete.

O toque breve entre mãos, dedos trêmulos em outros rígidos pelos anos. Um sorriso trocado, automático como uma desculpa pela intrusão do gesto. Papelada espalhada pela mesa de sinuca, meia-luz, mais livros no chão e pastas de arquivos no sofá maior. O sorriso tímido de uma pessoa traz a certeza de uma teoria para a outra.

A história se repetindo.

- Descansa um pouco, vou preparar um chá pra gente. 
- Eu quero chá e bolinhos! - exclama alguém fora da cena, do outro lado da janela enorme da sala de estar do Hotel. A menina eshu brinca na chuva, dançando com um cão exageradamente grande para sua raça (um vira-latas com o dobro de tamanho), os dois ensopados pela torrencial da tarde, o cão caçando o próprio rabo e raspando suas garras no concreto sem produzir nenhum arranhão aparente. 
- Angie, você acabou de detonar com o pacote de biscoitos que o Smithers deixou na cozinha... - admoestou a líder do grupo, mas já sabendo a resposta. Seus olhos podem estar na menina animada perto da janela para o pátio dos fundos do hotel, mas seu corpo reagindo lentamente as pequenas mudanças na atmosfera ali dentro da sala de estar. O quanto a temperatura aumentou após o toque na mão da pesquisadora recém chegada ao grupo, como qualquer movimento é cuidadoso e silencioso, a respiração acelerada com alguns suspiros mais profundos para manter tudo em perfeito estado. 


A história se repetia novamente.

Para testar a superfície das águas, aproximou-se da pessoa e mansamente acariciou suas costas começando por um ombro, até a nuca exposta pelo corte desregulado de cabelo. A sensação foi imediata, um pulo de surpresa, a respiração cessada, o coração... Bem, o bater do coração era algo que intrigava Raine sobre Kristevá. 

- Volto já. 
- Beleza... - respondeu ela em um fio de voz. 
- Quer comer algo? Acho que tem alguma coisa ainda na despensa que a pestinha não tenha devorado. 
- Pestinha é o seu traseirinho real, oh Regina!! - gritou a menina lá fora correndo para lá e para cá, cabelos negros longos soltos ao sabor do vento e sendo perseguida pelo cão enorme em uma brincadeira confusa de pique-pega. 
- Regina? - perguntou a pessoa surpresa. Raine sorriu para o chão como se não fosse um assunto muito bom para se abordar a essa hora. A meia-luz não estava ajudando, os olhos escuros da pessoa a encaravam com aquele tão conhecido pecado que os feéricos eram suscetíveis quando deixavam as emoções aflorarem. 
- Um de meus nomes... 
- Oh sim... É um bonito nome... - a pessoa disfarçou seu interesse repentino com um suspiro baixo e foi até o sofá pegar uma das pastas de arquivo. Raine a observava quase clinicamente, ombros tensos, lábios ressequidos entreabertos como se alguma palavra fosse escapar dali (mas não iria, o autocontrole era algo que a pessoa prezava mais que tudo), as mãos trêmulas procurando o que fazer, tateando mais folhas antigas, despregando clipes de amontoados deles, recolocando outros clipes em pilhas novas feitas sistematicamente. 

terça-feira, 15 de março de 2016

[projeto feérico] o posto 2

Há 4 anos atrás eu tive um sonho com uma menina mendiga que debaixo de uma chuva tremenda ganhou uma batalha contra a carcaça de vigas e concreto de um edifício em ruínas ali no Laranjeiras (RJ). O edifício não existe mais - agora um super prédio luxuoso tapando a vista de quem tá do outro lado da rua - a menina ainda existe.

Essa era a Angie no começo dos rascunhos.

Depois desse dia do sonho, fui me aprofundar no bendito cenário e em 07 de julho de 2012 saiu um escrito à noite sobre uma velha numa delegacia de Polícia dando testemunho sobre um crime na frente de um aterro sanitário à céu aberto em que vivia. Ao seu lado um cão enorme chamado Fofão.

Com um diálogo mais pra monólogo, eu introduzi o que seria o começo de Feéricos, bem ali estampado na minha face ao terminar o texto, mas não levei adiante. A última instância no departamento que tive sobre esse assunto foi o de levar ultimato da própria Angie sobre estar morta, mas volta e meia tenho ideias para ganchos, só não sei se devo continuar, because... feelings are fucking too much.

Mas quero postar de novo essa coisinha aqui, foi onde tudo começou, possivelmente me dê vontade de voltar a imergir novamente nesse mundinho.
(Even though I was completely vanished by the Banality envolved lalala lalala lalala)

Cenário: Changeling - o Sonhar (RPG Mundo das Trevas).
Classificação: +18
Categorias: World of Darkness
Gêneros: Crossover, Drama, Fantasia, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria,Violência
Status: Incompleta
Publicada: 07/07/2012
Notas da História: Muito do cenário veio de duas fontes - essa reportagem aqui [x] e esse documentário "Estamira" [x] feito por Marcos Prado e que chegou às mãos da Dido, que pediu um curta para divulgar a música dela "Us two little gods".


Debaixo do link a velhota do Posto 2, o cachorro falante, o Zé Ferreira, a menina do viaduto e um aterro sanitário no centro de uma cidade qualquer.
Sonhos e ilusões colidem com a realidade cruel e fria de uma Metrópole. O Passado e o Futuro são os mesmos, a punição é viver o Presente sem saber quando Ele termina.

sábado, 28 de novembro de 2015

sonhos estranhos com detalhes - ultimato de personagens favoritos

[Esse post é para eu me lembrar que preciso levar mais a sério a escrita literária. O Projeto Feérico tá parado faz tempos e não continuo por pura distração, procrastinação, medo ou sei lá o quê]

Fazia tempos que não sonhava com a Ângela Maricotinha da Silva Sauro dando pitaco nos meus sonhos, acho que meu cérebro foi induzido pelo excesso de adrenalina de ontem com o cd novo do The Corrs.

A criaturinha vestida como um acidente de carro estava comendo na minha cozinha (óbvio) e fazendo alguma coisa no meu celular, mas acho que era o celular dela, mas parecia com o meu, sei que saí do quarto e perguntei pra ela se queria café e talz - coisa de anfitriã nada organizada como eu faço - e aí ela emendou que já tinha feito e tava esperando o ônibus para voltar pra casa.

Até aí tudo bem, dá para se relevar um sonho sendo comum com algo do cotidiano acontecendo - não que eu vá ter gente na minha casa todos os dias, muito difícil - mas aí ela mastigou o biscoito que tava na mão e terminou de escrever algo no celular e me olhou. O diálogo a seguir foi feito em um inglês confuso com sotaque redneck e com um certo tom histérico vindo de minha parte.

Bem, a Angie disse que tava morta (???) eu entrei em modo WTF NÃO A MINHA PERSONAGEM FAVORITA!!!, mas ela me acalmou dizendo que sempre foi assim, meu costume de matar os protagonistas tinha que se perpetuar. Aí barganhei dizendo que matava qualquer outra pessoa, todo mundo se necessário, não ela, mas ela falou que não havia happie ending para essa história (Da onde ela tirou isso, pelamor?! Vai ser um livro infanto-juvenil, por que não tem final feliz?!) e eu neguei de novo e ela disse que eu disse isso, repliquei que não, ela disse que sim, que eu tinha pensado nisso a semana inteira, mas ela podia voltar nos flashbacks. Mas aí eu disse que se ela morresse a história toda perdia o sentido, que não tinha como continuar, que Dr. Horrible não precisa ser levado ao pé da letra em certas narrativas e ela me abraçou do nada e bateu de leve na minha cabeça e respondeu apenas: "Cause I told ya so." 

E foi embora, me deixando no meio da sala pensando WTF a minha personagem de RPG e futuro talvez-bem-mais-lá-na-frente livro me dar um ultimato que ela morreria na história.
Why Angie, why fucking why?!
Se veio para me dar um empurrãozinho pra escrever, não precisava vir de sopetão, oras!

Ps: Sim, vou voltar a escrever, beeeesha drástica, mas só depois de terminar de ver Lost Girl.
Ps²: Se algum outro personagem meu aparecer em sonho pra dar o sermão que preciso voltar pro meu ofício primário, VAI GANHAR A VAGA DA ANGIE!! (a.k.a. mato sem dó).


[Edit] Pensando bem, com essa mudança de plot dá pra encaixar a desculpa do Devorador de Sonhos... Hmmmmmmmmmmmmmmm... Well done little redneck...

sábado, 21 de novembro de 2015

[contos] Feéricos - fios emaranhados

[FYI: estava um pouco alta ontem com cerveja de abóbora no sistema circulatório. Saiu isso. Agora relendo, vejo que há um futuro para o rascunho, mas vou arrumar as arestas fora de esquadro aqui, eita... Ps: a cerveja é até gostosa, tinha gosto de canela + cravo + abóbora + pimenta]

Arte: Parisian Cafe/Le Petite Rolleback por S. Sam Park

Título: Fios Emaranhados (por BRMorgado)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: 14 anos.
Tamanho: 4230 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Angie recebe um convite para um encontro com velhos amigos. O que ela não esperava eram as novidades serem além do que planejava originalmente.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]



Encontros formais me deixam com vontade de dormir. Escutar a Realeza sempre me deu sono. Os ricões não sabem contar boas histórias, aquelas que deixam a gente sem pregar os olhos por dias imaginando os desdobramentos dos acontecimentos. A magia do contar histórias tá meio mortinha entre eles. O contar dinheiro e posses, beleza, fábulas para a quiançada? Nope.

Bem, são poucos que me fazem sair da Metrópole às 7 da madrugada para aparecer em alguma viela sei lá aonde nesses trods da vida bem na frente de um café com arzinho parisiense. Tou sabendo da agitação esses dias aqui nas quebradas, não gosto de me meter com política feérica, muito menos dar pilha para hobgoblins só esperando uma oportunidade para mastigar os crânios da gente. Sinceramente, entre a brutalidade dos hobgoblins e acordar antes das 7 da manhã, fico com a primeira opção.

(Deuses sabem o quanto é um pecado fazer uma nômade como eu sair do quentinho de debaixo das cobertas em um dia particularmente frio e chuvoso na Metrópole, após dias de intensa investigação furada com os Caçadores de Quimeras. Heresia, eu diria. Mas quem sou eu para professar alguma coisa? Sou só a garotinha do Caminho Prateado, ninguém tem que prestar atenção em mim não.)

Aqui estou eu, me arrastando sem meus saltos 15, mas de chinelos. Não custa nada ser um pouquinho de casa aqui nesse canto do mundo, até porque essa cidade é o ícone do relaxamento fofo do romantismo barato. Eu que não acredito mais nesse tipo de coisa faz tempo, vou preparando as caraminholas da cachola para ouvir o que eles têm a dizer.

Seja lá o que for, deve ser muito urgente.

domingo, 7 de junho de 2015

[conto com Angie] as estrelas, o destino e o nascer

Maybe you were born from the stars...
With nothing in your past, nothing coming around your future.
Just be what you were destined to be.
Maybe you were born only to exist...
Nothing about happy endings, nice dresses, shoes and waltzing around the balls
Maybe there is no Love marked in your Destiny's list.
You just be what you were destined to be.
Just this. Nothing more.
No dancing, no fairy-tale, no magic, no power, nothing.
Just you, the Destiny and the stars...

Yeah, maybe you were born from the stars
All the signs are up there
The dim lights in the darkest night
The magic upon the magicians
The music for the dancers
The only powers for those never will achieve anything import in their lives
The obscure nothing of million questions for the scientists
The romantic meanings for the lovers
Maybe you were born from the stars...
With nothing in your past, nothing coming around your future.
Just be what you were destined to be.
Maybe you were born only to cease...
Just like that star, dead a long time ago and we are still blessed by its light

Maybe I was born to some idiotic mission to save someone else
Save them from themselves
Save them from myself
Maybe I was born from that damn destiny will predict
That kind of profecy that leaves a sour taste in our tongues
But we kissed so many times, so many times
It fades away after so many punches

Maybe I was born to be with you
Nothing more
I deserve anything better or worse
Just me, being what I was destined to be.
With you.
Not you with me.
Maybe someday I'll be a star too
That one you'll look and wish it was only yours
Maybe I was born only to watch you disappear...
Just like that star, dead a long time ago and still blessed by its light


===xxx===
A dificuldade de se colocar ideias no papel é quando você tem ciência que não sabe como fazer isso propriamente dito. Cá estou eu de madrugada, falando que nem gente grande e com um pedaço de papel debaixo do pulso e uma caneta azul em punho. Falar em voz alta dá problema (Sempre dá), pode alguém ouvir e achar que estou declamando coisa bonita para outro alguém.
Como se fosse.

Às vezes a gente precisa de um momento de pura solidão pra ter uma ideia do que a gente sente tanta falta.

Quando eu sento pra escrever, nada me parece estar a altura de qualquer coisa para se ter em um livro, deixado pro povo da frente, pra eles algum dia lá no futuro baterem os olhos nas páginas amareladas de algum tomo perdido e apontarem pro meu nome: "Hey olha, era aquela menina dos Ventos!" - a complicação começa aí. O nome que vai ficar.

Eu sei como eles me conhecem, escuto quando eles murmuram pelos cantos de onde eu venho, de quem eu sou, para onde eu possivelmente vá ir daqui a pouco, mas poucos sabem o que realmente sou. Tudo por causa de um nome. Uma simples alcunha que alguém que não mais está aqui para reaver o sentido do nome. O sentido se perdeu assim que perdi o fio prateado, que caí naquele ônibus, que fui obrigada quase matar meu semelhante para sobreviver. Tudo perde muito valor quando você é reduzido a um animal feroz para poder viver.

Eu olho pros versos rabiscados, suspiro com minha incompetência de não ser poeta como os outros como eu. Suspiro novamente por não ter alternativa a não ser jogar o papel na lareira, suspiro de alívio quando vejo aqueles versos chamuscando para o limbo de uma vez por todas sem a minha aprovação. Eu não aprendi a escrever direito por causa disso: a frustração.


domingo, 3 de maio de 2015

S01E01 - Ato I: Os Caça-Quimeras - Capítulo 2

Chapters: 2/?
Fandom: Original Work
Rating: Teen And Up Audiences
Warnings: Creator Chose Not To Use Archive Warnings
Characters: Angela, Raine, Toby, Emilio, smithens, Prince, madame fabulária
Additional Tags: fadas, feéricos, quimeras
Summary:
Uma metrópole comum em algum lugar do mundo.
O grupo de caçadores liderado por Raine é especializado em capturar criaturas criadas pelo imaginário dos Filhos-Mais-Novos (os humanos) e pelo seu próprio povo (os feéricos), manter tudo na devida ordem e paz nunca foi tão difícil até encontrarem um desafio a altura.

(História original, para mais informações visitem: http://tinyurl.com/feericos)

===xxx===

[cenário: alguma lojinha de penhores entranhada em algum prédio caindo aos pedaços na Metrópole. É dia, mas a chuva que cai traz um ar de melancolia na cidade.]


A vida é mais ou menos assim, sabe? A gente procura, procura, procura, acha e vai lá caçar. Bem facinho, sem surpresas. É até um bom ramo de trabalho se for pensar nos ganhos: a patroa não chia tanto, os colegas não são chatos (Tá, tirando o seu Smithens, ele é um porre!), a remuneração vai de boa, tenho sempre dimdim pra comer o que quiser. O grande problema é a barganha. Sempre mia.



Madame Fabulária é o ser vivo mais velho dessa cidade (Arrãm, podicrê maluco que a véia é antiga!), viu uma pancada de coisa, vendeu boa parte delas e não se surpreende com o que acaba caindo nas nossas mãos. Semana passada deu um preço mixaria pra uma parte da armadura de Leopoldo, o Bravo. A coisa ficou séria quando ela nos acusou de roubar propriedade alheia, dignamente a Chefia respondeu à altura e disse que continua sendo um direito dela de nascimento em fazer o que raios quiser fazer com qualquer um de nosso povo.

Macaquinhos amestrados com polenta frita: a coisa ficou REALMENTE séria.

Meus colegas de trabalho consentem com esse poder invejável, Raine da Floresta do Inverno Profundo é irresistível em fazer qualquer um obedecer suas ordens. Ela não faz por mal, a Chefia quer se manter na dela sempre, mas esse povo com complexo de procurar salvadores da pátria... Pffff...



- Oh Filha dos Ventos, não tinha uma roupinha melhor pra se vestir não? - e lá se foi minha raríssima paciência para tratar Prince com educação. Apontei o dedo do meio pro babaca e esperei o nosso convidado de honra chegar de táxi. A missão hoje era convencer a velha a pegar leve na troca, nada de alardes, nada de respostas ferinas, apenas falar o que ela queria ouvir... Nada melhor do que chamar o Prince pra fazer o trabalho, ahn... delicado... (Ele tem mais jeito com mulheres do que eu). Tudo seria perfeito se não estivéssemos com o senhor-eu-sei-de-tudo-sobre-fadinhas Nakamori, o menino-inseto.



- É um belo espécime... - murmurou menino-inseto. Todo mundo chamava o camarada assim porque ele era diferente do que a gente tava habituado, sabe? Os Feéricos do Oriente jamais botam o pé aqui nessas quebrada, tanto por rancor como por nojinho. Menino-inseto rodava meio mundo atrás das coisas que ele pesquisava, não ia ser a família que ia impedir ele de vir pra cá saber sobre nós. Com aqueles óculos fundo de garrafa, espiava minuciosamente um jarro de conserva (Era picles, cebolinha ou tomates secos? Hmmmmm deu fome agora...) cheio de larvas em uma cor azul doentia. Parecia que as praguinhas tinham umas inscrições em cada corpinho de menos de uma ponta do meu polegar com o menor sinal de luz. O pouco que conseguia captar da vibe: eram farejadoras e das boas.



Sim, porque o Toby não consegue fazer o trabalho de cheirador sozinho: precisamos de mais narizes nos esquemas.



Madame Fabulária era dura na queda pra negociar mercadoria, mas justa quando via que o cliente precisava realmente do item. Mercenarismo não era a cara dela, apenas o saber que não está



- 3 mil cada uma... - menino-inseto endireitou a postura pra parecer mais homem e fez uma expressão de escândalo em seguida. Falhou na primeira tentativa, rapaz...

- 3 mil?! Tá maluca?! - foi a minha vez de falar. - Tá doida a gente gastar esse dinheiro todo?! - O galã aqui do meu lado nem piscou pelo preço.

- Maluca estaria se te ofertasse pelo preço que você sugeriu... Esses são preciosos, menino-inseto. E se quiser um deles, é dinheiro pra cá, larvinha asquerosa para aí...

- V-você não tem idéia do que está falando!! 3 mil por larvas da Componésia?! - realmente o menino-inseto tá abalado. Quem mandou mexer com a velhaca?

- Matar o ninho foi um perrengue, o caçador anterior me disse isso... - o oriental andou um pouco em círculos, coçou a cabeça e me olhou com dúvida.

- Oh, crias da Componésia! - disse o pomposo de forma majestosa e teatral, parecia que tinha acordado de um sonho bom, o safado - Que honra ver que seus negócios sempre prosperam, Madame Fabulária... - se a velha ruiva cair nessa… não me chamo Maria Maricotinha Ângela da Silva Sauro...

- Pelo menos alguém aqui tem que ser sortuda em alguma coisa... -a velhota deu de ombros e logo mudou o tom de voz - E hey hey hey japinha! Nada de pegar mercadoria que não foi paga...

- Mas a senhora precisa entender que… - menino-inseto segurava o jarro de Componésias contra o peito como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ainda me pergunto por que raios querem uma coisa dessas.

- Não me venha com o sermão novamente! - disse ela pegando o jarro de conserva e escondendo debaixo do balcão. - 3 mil e nada mais.

- Poxa vida, tá aí uma negociação que eu não perderia...

[continua...]

Para ler o texto na íntegra, clica cá!

[projeto feéricos: contos para sonhar] masterpost


Para quem não quiser perder nenhum capítulo do meu projeto - Feéricos: contos para sonhar - segue esse post aqui que tem todas as informações.

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PROJETO OFICIAL

S01E01 - Ato I: Os Caça-Quimera
Capítulo 1 - Capitulo 2  -  Capitulo 3 - Capitulo 4 - Capitulo 5
Capitulo 6 - Capitulo 7 - Capitulo 8 - Capitulo 9 - Capitulo 10

As aventuras inusitadas de um grupo de caçadores de criaturas fantásticas chamadas quimeras. Atualmente está suspenso por tempo indeterminado, porque tive uma briga linda com a Musa - e ela foi comprar cigarro e nunca mais voltou.

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CONTO COM ANGIE:

Coleção de contos narrados pela ótica da menina Angie. Não fazem parte do enredo principal do Projeto Oficial, mas são complementos e conexões com o cenário.

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ESCORREGADIOS



Os Escorregadios - série
in manus dominum - Capitulo 2  -  Capitulo 3 - Capitulo 4 - Capitulo 5
Capitulo 6 - Capitulo 7 - Capitulo 8 - Capitulo 9 - Capitulo 10

Coleção de contos sobre "os Escorregadios", seres sobrenaturais que os Feéricos chamam que vagam pelo mundo assumindo identidades imutáveis e imortais. As histórias não fazem parte do enredo principal do Projeto Oficial, mas são complementos e conexões com o cenário.
(Ou minha desculpa para escrever sobre Múmias, yeaaaaaah)

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Profiles de Personagens:

Ângela (sem nome)
Prince, Pomposo
Smithens, o Ferreiro
Emilio
Tobby

domingo, 26 de abril de 2015

S01E01 - Ato I: Os Caça-Quimeras - Capítulo 1

Chapters: 1/?
Fandom: Original Work
Rating: Teen And Up Audiences
Warnings: Creator Chose Not To Use Archive Warnings
Characters: Angela, Raine, Toby, Emilio, Smithens, Prince, Madame Fabulária
Additional Tags: fadas, feéricos, quimeras
Summary: Uma metrópole comum em algum lugar do mundo.
O grupo de caçadores liderado por Raine é especializado em capturar criaturas criadas pelo imaginário dos Filhos-Mais-Novos (os humanos) e pelo seu próprio povo (os feéricos), manter tudo na devida ordem e paz nunca foi tão difícil até encontrarem um desafio a altura.

(História original, para mais informações visitem: http://tinyurl.com/feericos)


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É noite na Metrópole e há traços de chuva torrencial por todos os lados.

O cenário é debaixo de um viaduto de concreto, uma aglomeração de poucas pessoas em um trailer de cachorro quente ao lado de uma construção não-acabada de um edifício de muitos andares. Mesinhas amarelas de plástico com cadeiras e banquinhos de diversos formatos estão espalhados uniformemente perto do trailer, alguns clientes estão ali, aproveitando o final da noite para lancharem, um grupo de trabalhadores está em uma mesa dupla. O barulho da chapa fritando ovos e bacon é o som que mais se ouve, um homem alto de aproximados 30 anos, impecavelmente vestido encara seu smartphone com certa adoração e recita:


"A chuva da noite caía implacável no grosso teto de ferro escuro, uma dessas maravilhas da Humanidade depois que descobriram que podem moldar aço com fogo e martelo. As cristalinas gotas que se turvam com o cinzento de uma cidade que nunca dorme, turbulenta por sua ferocidade de concreto e óleo, como uma grande máquina alimentada por esperanças, emoções e sonhos. Pobre és chuva da noite por tocar chão tão..."


 - Quer parar de filosofar sobre a chuva? - disse o mais baixinho, cara emburrada e enfurnado na capa de chuva amarela berrante que cobria seu corpo atarracado.

 - Atrapalhas o dom de um poeta? Como ousas...? - respondeu o que segurava o celular novo, reluzindo a capa de prata e uma correntinha de ouro maciço no pulso. Ele desligou o aplicativo de gravação de voz e certificou-se de que não havia mensagens ou ligações novas na telinha de pura tecnologia.

 - Desde quando trambiqueiro é ser poeta?

[continua...]

Para ler o texto na íntegra, clica cá!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Feéricos - contos para sonhar no Ao3!!

[Edit] terei que repostar again, porque fiz o favor de deletar o post com os Contos da Angie...


Okay, lá vou eu escrever de novo!

Nova sessão no Blog a partir do sábado que vem - quis fazer essa sexta, mas há outro evento feérico tomando conta das minhas noites e não há como me deslocar do outro lado do mundo paralelo para voltar a Metrópole de forma intacta  - sobre contos aleatórios coletados pela Eshu vestida como um acidente de carro.

Já tava demorando para tomar essa decisão, então em um momento de clareza delirante induzida por sono excessivo e arrastar para a minha caminha quentinha e linda, decidi que já tava na hora de postar o Projeto Feéricos de uma vez por todas. 

Como a quiança feérica não cala a boca nem um minuto, é impossível eu resistir aos impulsos de escrever coisas que não tem muito a ver com a história principal do Projeto Feérico, mas de certa forma estão atreladas ao universo que ando transpondo na escrita. Ela quer mais espaço, então terá, o que mais que essa menina vai pedir? Bananas dançantes? Brócoli-unicórnio lhama?

I can't Angie! Vai estourar meu orçamento!
Outro objetivo da nova sessão é refrescar o meu HD mental cheio de coisas para escrever, mas que não encaixam no Projeto Feérico direito, coisas que só a Ângela (agora com nome) captaria e conseguiria colocar em forma de palavras faladas, não escritas. Mais outra imperfeição do eu-lírico, méh.

Então bora sancionar isso logo: Feéricos - contos para sonhar - no Ao3.
Toda semana haverá um capítulo de no máximo 2 mil palavras ou que encaixe melhor na narrativa. Caso houver algo extra ou especial para colocar junto - backstory, fichas, curiosidades - postarei aqui com a mesma tag de Projeto Feéricos. Tá na hora de fazer a carroça andar, minha gente!

Muita música, prosa boa e finalmente tem que sair de algum ponto.
E comida. Tem que ter comida também!!

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

[video] Elastic Heart - Sia - e considerações

Já havia comentado da Sia por aqui, australiana, escreve letras bacanas para artistas consagradas, um rumo totalmente diferente de se aproximar do mainstream (Ela não mostra o rosto de jeito algum, ou faz shows de costas pro público). Acabei topando com ela em algum link estranho do Daily.Dot com esse vídeo aqui por conta da chamada do artigo: algo como Sia pede desculpas sobre vídeo controverso com Shia LeBeouf e Maddie Ziegler.

Fui ver.

Foi desconfortável.

Me interessou.


É creepy pra cacete você colocar um cara como o Shia numa jaula com uma garotinha que parece ter molas ao invés de articulações - fui ver algumas performances dela no Dance Moms (Reality show sobre dançarinas mirins e suas rotinas familiares) e a guria é fantástica! - e depois cobrir com essa camada que compõe a letra mais metafórica possível.

Tive que ler umas trocentas vezes pra ver se entendia direito, evitei de ir nos comentários para não ler coisas inflamatórias sobre o que raios se trata a música - pqp poesia é uma arte tão abstrata que teve gente que tirou recalques freudianos do fundo do baú pra justificar a intensidade do vídeo, não, apenas não.

O interessante desse vídeo foi a concepção da coreografia que parecia um bailar interno entre 2 lados de uma moeda. As impressões que eu tive foram que Shia era o centro protetor, o cuidador, aquele que mantinha a jaula em silêncio, enquanto Maddie é essa criaturinha selvagem, parecida com um lobo desembestado, não consciente de sua "prisão" (Ela até sai da jaula sem dificuldade em algumas partes do vídeo) e determinada a deixar o ponto de equilíbrio em um estado de vigilância eterna.

Por um tempo assisti esse vídeo quase todos os dias - escutava a música incessantemente pra poder descobrir o porquê me cativava tanto - até que ao ver hoje o making of e algumas considerações dos envolvidos no processo artístico do vídeo. Algumas certezas sim, outras dúvidas não. O mistério da letra que ainda paira sobre minha cabeça, até eu conseguir colocar isso em uma situação "real" de vida e que se encaixa perfeitamente com essa dinâmica imperfeita de Razão e Emoção.

Um sorriso bobo deve ter passado entre meus lábios, mas ao olhar novamente para Maddie pulando de lá para cá e dançando frenéticamente como se não houvesse amanhã, e a contraparte centrada, determinada em suas decisões, dotada de todo saber (E ironia!) contido em suas ações e palavras. Só pude remeter a uma dupla de changelings que mantenho um vínculo literário bem pitoresco.

O mestre silencioso com uma cicatriz no rosto, a menina que se veste como um acidente de carro.
E sim, os dois têm corações elásticos.

(Letras debaixo do link)

domingo, 18 de janeiro de 2015

[Projeto Feérico] Conversas ao amanhecer

Título: Conversas ao amanhecer (por BRMorgan)

Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG.
Tamanho: 1808 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Após uma noite de comemoração, Raine e Angie discutem sobre o que é o Amor.
Personagens: Angela, Raine.

A comemoração da noite anterior fora um sucesso-desastre. Sucesso, pois a caçada ao monstro do Lago (Que nem era tão monstro assim) havia sido finalizada, com grandes expectativas para o próximo contrato e uma recompensa muito boa para os Caçadores de Quimeras. Desastre, pois boa parte da recompensa agora estava depositada em grandes barris de cerveja envelhecida que abarrotavam a sala de jogos e Hall do Hotel.

Do chão perto do sofá na janela, uma figura meio torta tentava pegar uma caneca com mais líquido fermentado de cor escura e aroma achocolatado, uma mão esguia de longos dedos estapeou a mão pequena e com um grunhido depositou um copo d'água e comprimidos contra ressaca. Outro grunhido foi a resposta, o próximo grunhido foi abafado por um corpo maior se sentando no sofá confortável e se deixando deitar com a cabeça no braço de madeira antiga.

 - Bom dia, raio de sol... - rasgou a voz sonolenta de Angela, Filha dos Ventos, para a líder do grupo Raine. Pela tonalidade nada harmoniosa da menina Eshu, a Sidhe percebeu de imediato que alguém ali estava pior do que ela na questão da bebedeira.
 - Dia, querida Angela...
 - Quem colocou esse efeito legal no teto?
 - Que efeito?
 - Ele tá girando...
 - São apenas seus olhos, querida... - respondeu Raine com um leve sorriso no rosto pálido, olhos verdes ainda lânguidos pela quantidade de álcool circulando em seu corpo.
 - Cadê todo mundo?
 - Cansados e embriagados...
 - E o Tobbinho?
 - Debaixo da escada em sua forma mais branda...
 - Como é que ele consegue beber tanto e virar cachorrinho de madame depois? - perguntou a menina levantando a cabeça.
 - Segredos da natureza dos lupinos, menina...
 - Cara, o que que tinha nessa stout...? - a mão de Angela foi automaticamente para a caneca com a bebida, mas Raine a tirou de perto com um olhar fulminante, mesmo ainda anuviado.
 - Chega de levedo por hoje.
 - É malte! - disse Angela com certa aspereza.
 - Não discuta, sou sua Rainha. - Raine colocou o ponto final na conversa com um pouco de sarcasmo, a menina Eshu fez uma cara fechada, mas logo sorriu bobamente.
 - Oh sim Majestade... - tentando reverenciar Raine, mas falhando miseravelmente por sentir o corpo pesado demais para isso. Deixou sua cabeça quicar ao chão e boca amarga do sono induzido pela quantidade de cerveja que tomara.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

[Feéricos - contos para sonhar] os escorregadios: Kristevá Todd

Título: Feéricos - contos para sonhar os escorregadios: Kristevá Todd (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG.
Tamanho: 471 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Diálogo entre alguém e a Morte de triciclo.
N/A: Um pequeno rascunho que veio e acabei deixando de lado. Mas aí depois ao pensar nele, fiquei: hmmmmm acho que vai me servir para a posteridade. [Editando: Atualizado 11/09/2016]
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Eis um corredor extenso de uma instituição qualquer.
Poderia ser de uma escola, universidade, hospital, escritório, o que for.
Antigo é o prédio, velhas são as edificações, enferrujadas são suas portas e janelas, há muita areia acumulada em muitos cantos e rastros por todo chão.
Nesse corredor extenso há uma única porta aberta.

Atrás dessa porta há um armário de limpeza qualquer, com estantes improvisadas com produtos de limpeza, algumas vassouras, esfregões e rodos já desgastados pelo Tempo. Uma enceradeira velha e descascada, galões de desinfetante de cheiro forte de limão, luvas de plástico amarelas penduradas em alguma estante. Sentada ao chão está uma pessoa que podemos identificar como "Visitante".

Do lado de fora desse espaço pequeno, no corredor sem porta alguma a não ser essa, está a Morte, personificada como a famosa ceifadora, vestida de grosso manto escuro, o capuz cobrindo a caveira angular, de protuberantes ossos em alguns lugares da bochecha e mandíbula projetada para frente com grossos caninos, não como uma caveira humana, mas de animal exótico. Sem olhos, ela observa, com sua foice pendurada nas costas, sentadinha em um triciclo infantil de cor rosa choque, encarando a porta como se estivesse ouvindo atentamente a pessoa visitante.
 - Você colocando dessa maneira parece bem mais fácil de entender... - continuou a pessoa visitante para a Morte de triciclo. Sua voz estava abafada por estar no fundo do closet de limpeza, mas isso não impedia do diálogo seguir normalmente. - Desculpe-me, mesmo... Tá tudo bem... O importante é que sei agora, né? - a Morte concordou com o seu capuz movendo para cima e para baixo no rosto cadavérico. - Agora sei o que fazer com o restante do meu tempo.
 - Apenas não se precipite. - avisou a companheira das últimas horas.
 - Não, não irei. Quero fazer direito, eles confiam em mim.
 - Não quer nem pensar em uma escapatória?
 - E por quê eu faria isso? Tem jeito? - a Morte de triciclo deu de ombros, a foice pendurada em suas costas mexeu um pouco.
 - Talvez dê certo. Alguns tentaram.
 - E foram felizes?
 - Infelizmente não sei. Apenas sei que tentaram.
 - Difíceis de pegar?
 - Escorregadios.
 - Não quero te dar trabalho. - um fio prateado escorregou do cabo da foice e foi serpenteando devagar até o fundo do armário, enlaçando calmamente a perna da pessoa visitante. Ela estremeceu sem entender o porquê ter tal laço frio.
 - Nem eu. - estremeceu a pessoa visitante sem saber o que falar. Suas memórias estavam ficando falhas novamente. Tinha pouco tempo agora. A Morte pega impulso em seu triciclo rosa-choque e pneus de plástico desgastados, mas antes que pudesse arrancar, a menina se moveu dentro do armário de limpeza no corredor de extenso de uma única porta.
 - O que acontece se um dos escorregadios conseguir?
 - Fica difícil de prever. Muitas coisas mudam, novos horários, pouco tempo para adaptar a carga-horária.
 - Se precisar de alguém... - a pessoa visitante deu de ombros ao dizer isso.
 - Com certeza não irei te chamar. - respondeu a morte de triciclo, apertou bem as mãos no guidão do triciclo, pedalando algumas vezes no extenso corredor de uma única porta. A menina colocou a cabeça para fora da porta, assistindo a ceifadora ir esvoaçante pelo corredor. Suspirou de cansaço, de tristeza, de impaciência.

Olhou para aquela porta que dava acesso ao corredor. Tudo parecia tão diferente agora que sabia o que fazer. Poderia tentar mais uma vez, não é?

Ser um escorregadio não estava nos planos dela.

Fez uma lista mental do que deveria fazer ao acordar:
Encontrar a bruxa solitária.
Conversar com a ninfa das árvores.
Socar o rosto do marinheiro.

Ia colocar algo a mais na lista, muito importante, não poderia esquecer, algo a ver com alguém que vinha das cavernas geladas quando sentiu a fisgada leve. O fio prateado em sua perna era puxado aos poucos, apertando seu tornozelo, aquilo estava certo? Era para ser... assim?

Seu corpo foi derrubado ao chão com violência e bruscamente, o fio prateado estrangulando o que tinha por dentro, levando o que tinha que levar, deixando apenas um invólucro vazio e sem memórias do passado, de sua missão e de seu futuro.

...

Kristevá Todd teve sua admissão no Hospital da Metrópole aos 9 anos de idade com um diagnóstico inconclusivo entre amnésia retrógrada e forte trauma infantil. A dosagem de remédios aumentou quando completou 13 anos de idade.

Esqueceu da lista.
Esqueceu da companheira das últimas horas.
Esqueceu de saber quem era.

Não sonhava mais.
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