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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

[conto] conversações no meio da noite


Título: conversações no meio da noite (por BRMorgan)
Cenário: Original/Cotidiano.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.118 palavras.
Status: Incompleta.
Personagens:
Resumo:

O mesmo horário na madrugada, mesmo toque. Mesmo gesto mecânico de quem atende no involuntário. Mesmo silêncio do outro lado da linha. Mesmo arfar.
Desliga.
Nos dias em que esquecia de colocar o celular no silencioso, acontecia a rotina da está ligação, número privado, sem ID, o silêncio, a mínima troca de palavras.

- Alô? Quem é?

O clique de desliga, o sono interrompido. Não sabia porque acordava mesmo assim. Força de hábito.
Em uma noite realmente estressante, mente ocupada com milhares de ideias e nenhuma das mãos hábeis para realizar o difícil esmero de escrever. O celular vibrou insistentemente em intervalos pausados. Esperou.

Talvez o outro lado desistisse dessa besteira.

Mais algumas tentativas, o raso lago onde sua paciência nadava, a quentura subindo pelas orelhas, as mãos trêmulas ao pegar o celular e atender de supetão:

- Hey, quer parar de ligar que tou no meio de uma coisa aqui? - O mesmo arfar, a impressão pegajosa que poderia estar travando diálogo com desconhecido pervertido. Logo a ideia subiu, assim como sua raiva pela tecnologia maldita: - Já que cê tá aí: Onde é que escondo o cadáver? Não cabe no meu porta-malas, sabe?

O silêncio que reinou beirou ao desesperador. Talvez alguém tenha se assustado no decorrer dos 3 segundos. Uma voz conhecida em tom baixo e apavorado deu o mistério por completo.

- E-eu só queria saber se você estava dormindo direito...?

Toda a vergonha do mundo trancou sua garganta, não não não não podia ser!! Todo mundo menos essa pessoa!! Não era justo, universo!! Tanta gente pra ligar e justamente...

- Eeeeeeentão, eu tava brincando, hehehehehehehe é que recebo ligação chata todas as noites a essa hora... Aí... 
- D-desculpa, era eu... Você disse que estava com problemas pra dormir e... 
- Falei isso no começo do semestre... 
- Eu sei! E... E não tá dormindo! 
- Porque você tá me ligando! É você mesmo me ligando? 
- Por que você esconderia um cadáver em um porta-malas? 
- Eu nem tenho carro! 
- Mas é horroroso falar assim, ainda mais no telefone! E se eu fosse policial? 
- Bem, com certeza estaria metendo pé na minha porta agora, mas não vem ao caso! Por que tá me ligando a essa hora? 
- Porque... Porque... Porque... - silêncio novamente, estava se acostumando com essa dinâmica de conversa. - Você tá conseguindo fazer suas coisas? Não caiu no sono em... 
- Não, não, tá tranquilo agora... Aliás, obrigada pela dica do exercício. Dá um up quando vejo que... 
- E-eu vou desligar, você deveria estar dormindo e vou parar de ligar, então... 
- Então era você ligando?! 
- Por que falar sobre um cadáver no porta-malas?! 
- Você não me deu outra opção! Queria que eu falasse o quê?! Que terminei o serviço, só falta limpar a cena do crime? 
- Não fala essas coisas... 
- Que tenho que esperar o cimento secar? 
- Oi?! Cimento? 
- Cê nunca viu filme de mafioso não? Sapatos de cimento? 
- Isso é tão anos 30...
- Ooooooh mas era legal os esquemas, viu? Nem gastava muito e... 
- Vamos combinar uma coisa? 
- Depende, você vai parar de ligar no meio da noite pra saber se eu tou dormindo? 
- Tá, não foi a melhor ideia que tive esses dias... 
- 17 dias pra ser exato. 
- Aaaaaaaaaaw você contou os dias...? 
- Tá me zoando?! Você me acordou por 17 dias seguidos! Me acordou de um ótimo sono! 
- Então não ligo mais... Bom saber que você tá dormindo e permanecendo na cama. 
- Tou altamente confusa agora... 
- Com o quê?! 
- Primeiro você me liga pra me acordar pra saber se eu tou dormindo, me zoa por conta de eu ter contado os dias e agora... 
- Eu só sinto falta de ouvir sua voz, é isso. 
- Oh! 
- É... - O silêncio esmagador vai mastigando todas as arestas entre um arfar e outro. 
- Cê tava chorando quando me ligava? 
-... talvez? 
- Porque parecia outra coisa. 
- Como você é perver... 
- Olá?! Não sou eu ligando com número privado de madrugada pra... 
- Como tá suas notas? 
- Razoavelmente desesperadoras. Nada que eu não consiga dar um jeito... 
- Então, queria falar isso contigo... 
- Cê vai mesmo entrar nessa conversa a essa hora da manhã? 
- A gente tá acordada mesmo... 


Deixou seu corpo cair no colchão mole da cama improvisada e enterrar o rosto no travesseiro, grunhiu por conta da situação maluca em que se encontrava. 

- São quantas horas aí? 
- É cedo... 
- Tipo, cedo, cedo o quê? 
- Acabou de dar o sinal pro primeiro intervalo aqui... 
- Oh trem bão. Tá gostando daí? 
- É... Mais ou menos... 
- Mais pra mais ou menas pro menas hahahahahahaha 
- Muito engraçado, muito mesmo... 
- Vandalizar a gramática, é nóis... 
- Você acabou de me lembrar o porquê eu não estar mais contigo... 
- É por conta do meu fascinante modo de assassinar a língua materna? Adoro o perigo, mooooona... 

A troca de risadas deixou o clima menos árido, as gargalhadas faziam parte da rotina entre as duas, não mais.
- Então cê tá com saudades de mim. 
- Não, não estou. 
- Essa não é uma pergunta retórica, é constatação. 
- Terei que discordar de... 
- Sabe quantas horas são aqui? 3:27. Quem liga pra alguém a essa hora se não for pra dizer que tá com saudades? 
- Ou que matou alguém e não sabe onde esconder o cadáver...? 
- Na próxima invento algo assim bem mais macabro... 
- Vai ter próxima? 
- Se você quiser... Tem. - mordiscou o lábio inferior já machucado pela aflição das últimas provas. - Você quer? 
- Apenas não atenda mais o telefone dizendo que matou alguém, é horrível... 
- Eu lá tenho naipe de matar alguém? 
- Você quase me matou... 
- Tá, naquela vez foi acidental e eu não sabia que você tinha alergia a Dipirona! A culpa não foi minha... 
- Promete que vai estudar mais? 
- Tou fazendo o máximo que posso. Cê sabe como funciono...
- Tenta dormir mais cedo, coloca sachê de erva doce debaixo do travesseiro, ajuda... 
- Você segue os conselhos que dá? 
-... Não... 
- Viu? 
- Senão nem teria aceito essa bolsa pra cá e estaria aí contigo... 
- Okaaaaay, conversa indo para um lugar onde eu não sei ir... Podemos trocar de... 
- Só quero que você seja feliz, mais do que tudo... 
- Vou conseguir se você não me acordar toda madrugada ligando... 
- Você não ligava pra isso antes, quando estávamos... 
- É, é, situação diferente, tá? Cê gosta de mudar de... 

















segunda-feira, 14 de agosto de 2017

[Projeto Reverso] a última mensagem

Título: A última mensagem - parte 1/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 18 anos (violência, linguagem imprópria).
Tamanho: 841 palavras.
Status: Incompleta.
Resumo: A viajante acidental no tempo pensou que havia parado no presente, mas uma surpresa a aguarda na porta da geladeira.
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

A ÚLTIMA MENSAGEM [1]MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:



"Querida criaturinha que criei como se fosse da minha espécie, 

Quando você ler esse email será tarde demais. O armistício era uma grande mentira, o que nos prometeram jamais irá acontecer, não há lugar seguro para ninguém, nem mesmo para sua espécie tão cuidadosamente criada para sobreviver a qualquer situação de risco. 

Os cornudos estão mais do que certo em encher as nossas boas de drogas sintéticas, abrir nossos corpos, pesquisarem o quanto quiserem até desvendar todos nossos segredos. Acho que ainda não entenderam que somos os seres mais medíocres na cadeia alimentar, vermes e parasitas ganham da gente no requisito "servir para algo que preste". 

É por isso que estou aqui, nos meus últimos momentos lúcidos, antes da doença dos cornudos atingir meu cérebro de vez. Quero ter certeza que minha cria ficará longe de toda essa insanidade que se tornou as províncias. 

Entenda, cria, quando você nasceu, tão frágil dentro daquela jaula fedorenta, eu tive que perder um braço pra te tirar da selvageria dos seus. Sei o quanto te faltou alguém do teu tipo, do teu sangue para fazer companhia, tudo o que você teve a infância toda foi esse velho carrancudo aqui, com cheiro de repolho e roupa enxovalhada. Queria poder ter te dado mais, feito você conhecer mais dos seus, não feito você se misturar com os genuínos por medo deles te repudiarem. Alguém sempre irá, não duvide disso. 

Tudo que é meu deixo para ti, meus planos, minha parafernalia, meu trailer. Jogue os experimentos que fizemos fora, não quero que caiam em mãos má intencionadas. Esvazie as gaiolas de cobaias, incinerei parte dos meus papéis e livros. Há apenas esse cel-smart contendo essa mensagem e um espaço suficiente para você preencher com o que quiser. Há uma pasta que fiz para você, são nossas fotos, aquelas que tiramos nas feiras itinerantes nas fronteiras, recordações bobas você irá resmungar, mas uma coisa é certa: aquela foto no stand dos Patriotas foi e sempre a minha favorita. 

Você é especial, melhor que eles, a criaturinha mais perfeita que tive a audácia de manejar e criar conforme a lei da fraternidade. E não se preocupe, eles jamais saberão de você se assim quiser, és o meu trabalho magnífico de anos, te ensinei tudo que precisava para não confiar nesses putos. 

Já estou velho demais para ser piegas e pedir desculpas pelo que estou fazendo, mas não quero deixar a incumbência de sacrificar o bode infectado para mais uma memória ruim para sua cabeça. E sua mente é o seu maior trunfo nesse mundinho de merda que os antigos construíram. Você é mais do que eles, nunca duvide disso.

Lembre-se que para cada desejo do coração, nasce um ideal a se fermentar aos poucos, a cada ideal crescido, há a responsabilidade de ecoar sua vontade, e que sua vontade seja feita sem atrapalhar o Fluxo, os Nós e a Teia. Outros como você saberão de seu nome, seu poder, sua luta, és cria de minhas entranhas ciberespaciais, em teu corpo perfeito corre o óleo que bombeava meu coração, os seus olhos veem a luz e a escuridão, não há nada que o Sol e a Lua esconda de tua presença, os verdadeiros milagres acontecem quando o Equilíbrio é atingido. 

Não confie essa vida a ninguém, a não ser quem viu a face do Ceifador nas areias infinitas. Você nasceu no cativeiro, mas não teve dono algum. Você é livre como uma folha ao vento. Que a sua vontade seja feita e transforme esse mundo. 

Mantenha o senso de direção sempre aguçado, que prevaleça o orgulho de seus ancestrais, fique bem longe daqueles com a marca da rosa negra no ombro, quando for sua hora (e certamente ela chegará um dia) estarei aqui, no calço junto ao Barqueiro a te esperar de braços abertos para um novo início. 

Sinceramente, 

Adrian. 

Ps: lembra quando eu disse que a minha maior invenção estava escondida em um lugar onde eu nem conseguia mais saber? Pois então: a curiosidade matou o gato. Não seja esse maldito gato.

===

O trailer estava deplorável com os restos de fluidos cerebrais, sangue e tufos de cabelo grisalhos. A parafernalia já havia sido saqueada horas atrás, os experimentos quebrados e espalhados junto com os dejetos do cadáver de seu dono. Antigo dono, quase pai, chato pra caralho, mas fazer o quê? 

Ali estava sua herança: uma bagunça dos infernos para limpar e tocar a vida pra frente. Não era assim? 

Passou pela porta do trailer e fazendo o reconhecimento do que poderia levar ou não, pegou tudo que era seu, enrolou firmemente na rede que usava de cama quando estava muito frio lá fora, deu pulos no assoalho de madeira e metal para não macular o túmulo do velho que a criara desde sempre, antes de sair daquele veículo maldito viu de relance uma alavanca que nunca estivera ali, perto da pia da cozinha. 

Sem pensar duas vezes, puxou a alavanca com toda força até ela ficar rente a parede. 
Viajar no tempo era como andar de bicicleta.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

[Projeto Reverso] a geladeira

Título: A geladeira - parte 4/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 18 anos (violência, linguagem imprópria).
Tamanho945 palavras.
Status: Incompleta.
Resumo: A viajante acidental no tempo pensou que havia parado no presente, mas uma surpresa a aguarda na porta da geladeira.
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

SEM TÍTULO [1] - MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:





Abriu a geladeira com os olhos pesados, observando a quantidade de água armazenada e o pouco de comida a ser degustada. Estava com sede mesmo, abriu uma das garrafas e sorveu metade em uma golada só. A solidão iria acabar logo, logo. Se estava mesmo na linha temporal que os cálculos do maldito fizera anos atrás, estaria agora no presente que era seu.

Dá última vez que beberá água de verdade, sem ser feita em laboratório ou colhida da chuva radioativa, filtrada tantas vezes que ainda tinha perigo de estar contaminada, fora algumas horas atrás. Diziam que água não tinha gosto, mentira, aquilo sim tinha gosto de vida. Pura e incessante vida. 

Fechou a geladeira, percebeu que haviam consertado a porta (da última vez que estivera ali, tinha que subir um pouco a porta para encaixar no buraco feito improvisadamente para fechar com a corrente e o cadeado) e girou nos calcanhares para o balcão da cozinha improvisada.

[Projeto Reverso] a contrabandista

Título: A contrabandista - parte 8/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 18 anos (violência, linguagem imprópria).
Tamanho861 palavras.
Status: Incompleta.
Resumo: (sem resumo).
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

SEM TÍTULO [1] - MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:


Coçou entre os seios com certo prazer. Havia essa cicatriz chata que a incomodava, mas quando coçava do jeitinho certo, tudo ficava incrível. Os mercenários das fronteiras gostavam de se vangloriar de seus feitos mostrando as cicatrizes de batalhas, nem lembrava como ganhou aquela. Nascera daquele jeito pelo que sabia. 


Se espreguiçou para espantar a letargia da manhã, tinha que voltar a rotina com o velhote Adrian pra conseguir sintetizar uma bactéria modificada pra matar as algas venenosas que cresceram na única fonte subterrânea de água que tinham por ali (constantemente filtrada, tratada, reutilizada, testada). Aquele trabalho intelectual não era lá mil e uma maravilhas. Não tinha educação suficiente pra saber resolver as equações quilométricas do velho louco, mas sabia bem como testar os efeitos dos experimentos. Quando o velhote precisava de uma cobaia, ia mais que feliz até a colônia dos cornudos, passava horas na espreita e caçava um deles que desse mole. 

Alienígenas eram descartáveis para ela, assim como tratavam os humanos na segunda invasão. 

sábado, 20 de maio de 2017

[contos] exaustividade

Título: exaustividade (por BRMorgan)
Cenário: Original/Cotidiano, Nova Orleans.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.350 palavras.
Status: Incompleta.
Personagens: Joanne Ulhoa.
Resumo: Sem resumo. (editando um rascunho velho aqui, a ideia veio no busão, tou botando tudo na fila...)
Disclaimer: Mais sobre Forgiven Jojo Ulhoa tá aqui nesses links [x] [x] [x] [x]

Abriu a geladeira. 
Abriu novamente. 
Mais outra vez para ter certeza. 
Gelatina, mingau no pote, a janta de horas atrás, um suco de caixinha pela metade. 
Atacou o suco e o purê da janta. 
Não botou no micro-ondas, recolheu um talher na gaveta, lavou o objeto 3 vezes (pra ter certeza mesmo que estava limpo), enxugou com folha de papel, não o pano de prato imaculado ali perto. 
Enfiou o garfo devagar na pasta fria. 
Mastigou sem emoção alguma. 
Engoliu. Repetiu o processo. 

No sofá a figura encolhida de uma criança com grossas cobertas em volta do corpo, cabelos escapando por um buraco onde também saía um braço. Ao alcance da mãozinha, um gato igualmente ferrado no sono estava ali de prontidão, apenas esperando um movimento da mão para receber carinho da dona.

Piscou algumas vezes. 
Hoje era quarta-feira. Pelo que o relógio dizia era um começo de quarta que não gostaria de ter começado. 


quarta-feira, 3 de maio de 2017

[conto] conto agridoce

Título: conto agridoce (por BRMorgan)
Cenário:  Original/Cotidiano, Nova Orleans.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 708 palavras.
Status: Completa.
Personagens: Joanne Ulhoa.
Resumo: Jojo e suas reminiscências sobre a vida cotidiana sem a pessoa especial.
Disclaimer: Mais sobre Forgiven Jojo Ulhoa tá aqui nesses links [x] [x] [x] [x] - A inspiração pro conto veio com a minha música favorita do Pato Fu, aquela música que não devo me atrever mais a tocar em violão algum D:


Acordou cedo, de uma noite sem sal. 
Pouco atendimento no seu plantão, o que significava que teria que subir para cuidar dos vivos. 
Tédio mortal, com a ironia de mãos dadas. 

Na salinha de máquinas de café, automaticamente esperou o seu ferver os dígitos já comidos por produtos químicos e intensa higiene pessoal. Engoliu sem açúcar mesmo, encarar a velha enfermeira da noite, ouvir o sermão do chefe de plantão, escapar os ouvidos das fofocas dos residentes do ano. 

Enquanto eles achavam que a vida universitária era o milagre mais incrível do mundo, Joannes Ulhoa se escolhia em seu lugar. A vozinha dentro de sua mente, travestida de intuição, sabedoria ou bom senso pediu pelo amor de todos os santos em que ela se recusava a rezar antes de dormir com o rosário deixado pra trás pela mãe falecida que não tocassem no nome de certa pessoa. 

Não era necessário citar aquele nome, até porque qual é a razão de lembrar que tal pessoa existia se ela evitava de mostrar que estava ali.

 - E a Claire está saindo com um bonitão da pós, você soube? Um partidão! - risinhos, eufemismos sobre o sortudo com muitos adjetivos no aumentativo, um olhar curioso para aquela ali, encostada na parede, bebericando café amargo, sentindo o gosto azedo de uma vida quase doce e amarga no final. 

Algum outro comentário sobre como o casal parecia feliz e foram em uma festa chique. Mais risinhos, uma chamada de atenção.
 - Você não sabia doutora? Ela não era sua melhor amiga? 

Melhor amiga. Amiga. Melhor. Claire de la Fontaine era qualquer coisa agora do que melhor. 
Ou amiga. 
Ou os dois juntos. 

Nem quando se entendiam ocasionalmente poderia reconhecer Claire como melhor amiga sua. Melhores amigos são confidentes, confiam um no outro, estão presentes na vida do outro, escutam, aconselham, são... Bem... Amigos. 

Não respondeu a pergunta, saiu sem alarde, sabia que já estava tarde, mesmo não tendo pressa nada a esperar. 
Melhor amiga
Alguém que passara cerca de 3 anos da especialização grudada a você apenas para coletar dados sobre a própria pesquisa e depois publicar sobre isso sem sentir uma pontinha de remorso seria o exemplo de melhor amiga? 
Afinal de contas, de todas as noites juntas, os plantões, as discussões, as confissões, os surtos, as lágrimas, valiam como amizade? 

 E se alguém perguntasse, diria que foi embora e que o mundo poderia se acabar (mas já havia acabado cerca de 4 meses, 12 dias e dois plantões de 12 por 36.), pois tudo mais que existia só a fazia lembrar que o triste estava em todo lugar. 

Será que era algum truque novo que seu cérebro doutorado em autosabotagem planejava arduamente nos últimos meses sem a única pessoa com quem dividiu mais que metade de seu tempo ali? (Aliás, cérebro esse que tanto gostava de se torturar, por que às vezes se fazia de ruim? Tentando a convencer que não merecia viver, que não prestava?)

Lavou a mão duas vezes, três vezes, mais outra vez para garantir. 
O café ainda amargo no fundo da garganta dolorida, saiu sem despedida, ninguém notou, saindo da vida tão espetacular das pessoas ao seu redor. 
Prontuários de vivos. 
Tédio mortal. 
Café amargo, por que não conservara uma amizade saudável com Claire? 
 (Pois tudo mais que existe só faz lembrar que o triste está em todo lugar) 

Não tinha pressa, nada a esperar. 
Ao sair dali iria seguir o mesmo caminho agridoce, a mesma quantidade de pães, um outro café para tirar o gosto do antigo. Nenhuma novidade no caminho da rotina profissional e a ruína emocional. 

Choraria somente quando trancasse a porta com os dois trincos, duas viradas e checar o batente estava protegendo a corrente de ar frio do corredor. 

Caminharia pelas ruas da cidadezinha, observaria o por do sol descendo no mesmo velho mar. 
Gole amargo de café doce, comprimido azul da tarja preta, comprimido amarelo do tarja vermelha, um a mais para assegurar que o efeito de um a fizesse botar tudo pra fora. Checar as embalagens dos comprimidos, uma, duas, três vezes, até se acostumar com a ideia de que os remédios a mantenham viva e lúcida.

Nenhuma novidade. 
As ruas da cidade. 
O mesmo belo e velho mar.

[contos] menina das estantes

Título: menina da estante (por BRMorgan)
Cenário:  Original/Cotidiano.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 352 palavras.
Status: Completa.

Percebo tímida no trato
Curiosa no olhar
Observa cada milímetro de poeira
Pregada na lombada do livro mais velho
No cheirinho novo do papel não usado
Livros são seu carinho diário
Provavelmente seu conforto

Material de estudos nas mãos
Lápis meio comido na ponta
Borracha riscada de tentativas
No fundo do estojo giz de cera
Lápis de cores incertas
Tem mais roxo que verde ou
Vermelho e um preto que confunde com lápis de verdade
Apaga apaga apaga com vontade
Outro problema do livro bendito
Cartilha de bons modos, impresso especialmente
Pra não dar voz aos seus

Apaga apaga apaga
Borra de borracha espalhando na mesa cheia de coisinhas
Tantos livros como aquele
Um caderno estufado de tanta escrivinhança
O apagar da borracha faz com que o papel engrosse
Página testemunha de um erro ínfimo do problema do bendito livro
Ou confundiu o lápis de cor com lápis de novo

Entre as estantes, caminha, observando atenta
Quem vem e quem vai
Livro qualquer na mão mesmo que não tenha idade pra tanta letra
Entre uma prateleira e outra descobre
Uma pequena miragem do que é ser gente grande 
Apaga apaga apaga no caderno estufado
Nervosismo
O problema não é tão fácil assim

Vem ao balcão, tímida no trato, curiosa no olhar
Pede atenção, uma ajudinha,
Não liga pra minha letra não
Não olha meus desenho não
Não percebe nas páginas fofas de tanto esfrega borracha não
Nunca acerto de primeira
Nunca resolvo de primeira
Nunca consigo saber o que é coisa com coisa
O que você faz tanto lendo número nos livros?
Posso ajudar?

E o exercício esquecido com meia página já rabiscada de cálculos que são tão esquecidos quando se cresce
Na biblioteca ela vem todo dia estudar
Pra estudar a gente e mais gente
Observar cada milímetro de poeira, de grafite, de clipe solto, de bilhetinhos de lembretes, de canetas sem tampa, aqui ela fica
Percebo tímida no trato
Curiosa no olhar
Observa cada milímetro de poeira
Pregada na lombada do livro mais velho
No cheirinho novo do papel não usado
Livros são seu carinho diário
Provavelmente seu único conforto

sexta-feira, 28 de abril de 2017

[conto] a garota da gravidade

Título: a garota da gravidade (por BRMorgan)
Cenário: Original/Cotidiano, Nova Orleans.
Classificação: 16 anos (distorção de convenções morais, confusão mental, uso de drogas lícitas).
Tamanho: 1.301 palavras.
Status: Completo.
Personagens: Joanne Ulhoa, Melinda Bretzer, Molly Bretzer
Resumo: Quando se troca os medicamentos, há sempre as consequências. Jojo sofre de um tipo de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e tenta conviver com isso da forma mais sadia possível.
Disclaimer: Mais sobre Forgiven Jojo Ulhoa tá aqui nesses links [x] [x] [x] [x] - A inspiração pro conto veio com a minha música favorita do Scalene (abaixo, com letras!) e foi um desafio que me dei ao escrever o esqueleto do enredo antes da música acabar :)


Jojo era bem controlada na maior parte do tempo.
Tempo
Tempo
Tem-
Quando tinha tempo, passava mais tempo pesquisando os efeitos colaterais daquele histamínico que todo mundo tava falando bem. Experimentou um deles com os remédios atuais.

Só pulou o tarja preta.
Não era bom arriscar com a tarja preta.
Tarja preta
Tarja vermelha
Tarja preta
Vermelha
Pre-

Começou o dia assim.
Desligou a luz do banheiro, foi para a sala.
Pílula das 6h com o intervalo da pílula de 6h25.
Os passarinhos lá fora estavam bem animados para aquele dia tão normal.
Sem problemas
Sem ataques de pânico
Sem achar que alguém iria aparecer do nada a acusando de cada detalhe esquecido por ela enquanto estavam juntas
Sem cismar com a limpeza excessiva
Sem rasgar a própria pele por esfregar demais ao se lavar
Sem problemas

Desligou a luz da sala, ligou a do banheiro.
Abriu o armarinho do banheiro e cuidadosamente escovou os dentes carinhosamente com sua escova de dentes especial, cerdas macias e creme dental eficaz.
Tudo seria sem problemas hoje.
Seu reflexo no espelho mostrou um cenho neutro, como sempre, sem o sorriso excessivo de sempre, sem os músculos doendo no pescoço
Sem problemas
Como sempre
Sempre
S-sem-

Desligou a luz do banheiro, ligou a da sala.
Tomou o de 06h45 e anotou religiosamente em sua tabelinha perto do armário de remédios na cozinha.
Menos um dia do tarja preta, mais um dia do tarja vermelha.
Organizar por ordem de hora e de cor.
Tarja preta
Tarja preta
Tarja Ver-
Vermelha
Tarja vermelha!

Desligou a luz da sala, ligou a do banheiro.
Lavou as mãos novamente.
Com menos força, mais concentração
Os cantos das unhas, passar álcool naquele arranhão de ontem, não esfregar tanto pra não arranhar mais, se machucar mais, não, não, não pode mais aparecer assim no hospital. O que diriam? Que estava precisando de férias? Que não estava bem? Que os remédios não funcionavam de novo? O que diriam? O que diriam?

Os passarinhos lá fora, nesse astral em que viviam bem, ainda felizes com um dia desses, um belo dia, um ótimo dia, seria um ótimo dia, tinha que ser um bom dia 
Um bom Dia
Um bom Dia
Um bom Di-

Óbvio que o efeito não foi o esperado, sentiu o corpo mais letárgico que o normal, a gravidade a chamando devagar, desligando a chave que mantinha sua lucidez, uma felicidade esquisita se alojar em suas entranhas, uma nova sensação que os outros remédios não davam.

Era natural ficar assim tão feliz?
As pessoas normais eram assim?
O tempo todo?
Não sabia
Não sabia
Não sabia
Não sab-

 - Não tô bem... - disse para si mesma, mas quem respondeu foi seu colega de trabalho perguntando sobre o próximo paciente.

Uma típica segunda pós-feriado, homem jovem, branco, classe média alta, lacerações nas mãos, torso estourado, pescoço quebrado em ângulo errado, estilhaços salpicando um rosto sem mais estrutura óssea que lembrava um ser humano, cheiro forte de bebida, asfalto e decomposição. Pra um dia desses, seria um dia bom, um dia bom, tinha que ser um dia ótimo.

Viraram pra ela no plantão das 4h
 - Oh doutora, eu não tô bem... Faz um favor me deixa zen.

Não era psiquiatra, muito menos clínica.
Assistente de médico legista.
O bendito nem ficava na cidade e só passava uma vez por mês pra assinar óbito.
O resto? Era ela.
Ela e a equipe.
E o zelador.
Senhor bacana.
Bem bacana.
Limpava bem os cantos e a maca e a pia de metal e sabia mexer na estufa, a estufa, não deixa a estufa parada muito tempo 
Tempo
Tempo
Temp-

O paciente já era outro, não deu tempo de responder o que pediu medicação.
Alguém deve ter tirado ele dali, só pode, quantas horas?
Qual hora?
 - Pronde foi o cara do acidente?
 - Você liberou hoje cedo, Ulhoa...
 - Mas... Eu nem vi o tempo passar!
 - Hey, Jojo! Como vai?
 - Eu? Pois eu vou bem! - pra onde foi seu tempo? Pra onde foi o cara acidentado? Quem era que estava pedindo remédio pra ficar zen? Havia alguém pedindo remédio mesmo?

Tarja preta das 06h
Tarja vermelha das 06h25
O remédio novo (tarja preta) às 06h40
O sem tarja das 06h45
Ou era o novo a essa hora e o sem tarja...

Desligou a luz da área de trabalho com os "pacientes", maca grande, ocupante de tamanho pequeno, que seja desmembramento, não violência infantil, que seja acerto de contas dos traficantes, não atentado ao pudor contra menor, que seja...

Desligou a luz do corredor, ligou a do banheiro.
Repetiu as doses do começo da noite para garantir, sem problemas, sem problemas, nada iria atrapalhar aquele dia, esse dia, não esse dia.

Ligaram a luz do cubículo.
 - Jojo, levanta. O intervalo acabou faz 15 minutos atrás, você pediu pra eu te avisar quando a paciente das 4h chegasse?
 - Que paciente...? - a gravidade novamente a desligou do mundo ao redor.

Segunda vez só aquela semana. (Semana?! Quanto tempo estava tomando o novo remédio? Era ainda o novo?)
 - Por favor minha querida não inventa de se medicar, a paz que procura não é química. - disse alguém um tempo atrás ou foi semana passada?
Quanto tempo perdera naquele consultório novo mesmo?
Por que foi lá mesmo?
Será que foi o tal do tarja preta que a deixou tão calma assim?
Tão feliz?
Tão...

 - Eu não sei... Não tou bem... - respondeu a uma pergunta qualquer. Quem segurava sua mão grudenta de doce derretido pelo calor insuportável na cidadezinha era uma criança.
Menos de 6 anos, olhos vivazes, joelhos ralados, pé direito que não parava de se mexer pra cima
Pra baixo
Pra cima
Pra baixo
Rápido
Rápido
 - Rápido! Toca no verde! Sorte hoje ou amanhã?
 - Oi? - a calmaria de sempre (Sempre? Não era semana passada? Pronde foi seu tempo?!)
 - Vamos Molly... Deixa a doutora lavar as mãos e aí vamos para casa.
 - Oi?
 - Vamos pra casa, não? Hoje é dia do filme?
 - Eu não sei...
 - Jojo, você tá bem?
 - É natural se sentir assim?
 - Assim como?
 - Tão feliz...? Consigo ver beleza em nós... - a pessoa a beijou na testa, a menina abraçou sua perna, fazendo um barulho de balão furado com a boca.
Sem problemas
Sem neuras
Sem ataques de pânico
Sem medo de ir ao café para pegar algo pra comer e ver alguém conhecido
Sem medos

Desligou a luz da sala, foi até o sofá e se aninhou entre duas pessoas que a lembravam que logo a lucidez a desligaria mais uma vez, a gravidade que a puxava na órbita dessa família incomum era a chave para se encontrar novamente
Novamente
Novamente
Nova
Mente
Ment-

Abriu os olhos na manhã seguinte.
Sem luzes para apagar ou acender.
Apenas.
Sua respiração, seu batimento cardíaco, o ronco da barriga, o ressonar da criança tão agitada no filme agora dormindo o sono dos anjos (seja lá o que o padre quis dizer com isso).
Respirar devagar
Não acordar o anjo fragilizado
Por uma bronquite asmática 
Dente trincado
Maxilar em formação
Bruxismo
Trincado
Trincando
Mordida errada
Ressonar baixo
E trincado
Baixo
Silvo
Um ronco

O remédio das 06h
O tarja preta das 06h25...?
 - Antes que você acorde a criaturinha, são 9h10. Você dormiu como pedra. - a voz que a acalmava avisou ao pé do ouvido.
Dividindo a mesma cama
O mesmo lençol
O mesmo cobertor
O mesmo ar
O mesmo espaço entre o tarja preta e o vermelha, o antiácido, o histamínico, rotina
 - É natural ficar assim?
 - Assim como? - respirou
 - Tão feliz?
 - Eu não sei...

Será que foi o tal do tarja preta que a deixou tão bem assim?!

quinta-feira, 23 de março de 2017

[conto] a cidadezinha

Esquina da Bourbon Street no French Quarter - Nova Orleans
Título: a cidadezinha (por BRMorgado)
Cenário: Original/Cotidiano - Nova Orleans.
Classificação: 18 anos. (linguagem forte, violência, morte, abuso de drogas).
Tamanho: 4.789 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Diálogos quebrados entre os anos de Sarah Irina ingressar na Marinha e a volta forçada para casa.
Disclaimer: Como não largo as vibes de Nova Orleans e aproveitei o cenário que já tenho (Felicidade Adormecida, em breve um link prestável) para colocar essa pequena peça de diálogo. Faz parte desse cenário aqui também [x] - Escrevi esse pedaço em forma de diálogo, então bora tentar deixar desse jeito e ver se flui a história.
Trilha sonora: Sem trilha dessa vez, mas bota tudo que for dos anos 80 aí nessa mistura e um bocado de música country da sofrência mais pra frente.

 - Música boa!
 - Arram...
 - Pensei que o DJ ia só tocar paiera.
 - Oi? Parceira?
 - Paiera! É tipo, música tosca!
 - Mas é música tosca tocando!
 - Quê?
 - Trash dos anos 80 é música de qualidade pra ti?
 - É classicão da porra!
 - Nossa, nunca pensei que você tinha a capacidade de xingar... Estou impressionada.
 - Tem umas coisas que cê precisa saber de mim antes né?
 - Qual tipo de coisas?
 - Cê sabe, essas coisas que só gente como a gente costuma trocar...
 - Acho tão fofo esse teu jeito de confiar sem antes de saber as intenções da pessoa...
 - Uai, não rola isso a esse ponto não?
 - Dividimos a cama uma vez...
 - E outra vez sem a cama... E mais outra sem ter divisão alguma... Eu diria... NOSSINHORA DEPECHE MODE!!
 - Uau, meu ouvido?
 - Foi mal, mas!!!
 - É, eu sei... É a nossa música...
 - Se chegamos ao ponto de ter uma música só nossa, por que não poder contar segredos?
 - Sei lá, a gente tava meio que...
 - Dividindo cama?
 - Isso.
 - Trocando DNA?
 - Okay.
 - Dando uns pegas?
 - Certo, já colocou seu ponto de vista bem nítido sobre esse assunto.
 - Se te incomoda, tudo bem. Deixo baixo que é melhor, né?
 - Música tocando, bico fechado.
 - "Nossa" música tocando.
 - Nossa...
 - Deviam tocar uns punk...
 - Aí cê tá pedindo demais... Vou ali com a turma.
 - Beleza. Te vejo depois?
 - Urrum... Nada de ir pra roda punk, maluquinha...
 - Mas nem vai tocar punk.
 - Quem disse?
 - Você acabou de dizer?
 - Não acredite em tudo que digo, pode ser bem perigoso...
 - Beleza.

domingo, 19 de março de 2017

[contos] lacrimosa


Então entre 2000 e 2005 fui formulando uma personagem para RPGs esporádicos de Harry Potter e escrivinhanças pelas interwebs chamada Anna Danwells. Sim, é o meu email pré-adolescente também, obrigade por notar. A "Doida de Pedra" fez parte de um dos meus momentos raros de inspiração completa para a construção de um universo novo dentro de outro. Praticamente dei vida pra criatura literária, desde o nascimento até seu envelhecimento, ela é completinha [x] [x] [x]. E nunca mais mexi nela.

Estava a resgatar emails desde 2005 e acabei parando em um rascunho para ela já crescida e senti essa irresistível vontade de postar aqui. Então se tiver coisa errada, enredo fraco e o escambau, é porque não tinha ainda as manhas, tá? Continuo não tendo, mas melhorei desde aquele tempo (Ou talvez não, sei lá!).


Título: Lacrimosa (por BRMorgan
Cenário: Mundo Mágico Potteriano (J.K. Rowling). Universo Alternativo.
Classificação: 18 anos (violência, PTSD, morte, underage, smut). 
Tamanho: 3.143 palavras
Status: Completa. 
Disclaimer: Os eventos desse fic se passam entre lembranças de 1998 e a dita "realidade" em 2005. Universo Alternativo, Voldemort ganhou, Potter morreu, Dumbledore também, Snape continua vivo e velhaco, McGonagal é diretora de Hogwarts, muita coisa tá trocada!
Personagens: Anna Danwells "Doida de Pedra" Rowan (OOC), Evelyn Avery (OOC), menções de Jennifer Lindstron (OOC), Lorde Voldemort, Narcissa Malfoy, Harry Potter.
Resumo: A mais recente professora de Defesa Contra as Artes das Trevas em Hogwarts conhecida como Rowan "Louca de Pedra" delibera quais são suas metas no mundo sombrio que o Mundo Mágico esconde das pessoas. 

Debaixo do link tem fanfiction velhaca! Sério! De 2005, e caramba, ao revisar esse texto vi como era minha escrita há 12 anos atrás *rindo muito* *rindo mais* - ah! A minha Anna Danwells é essa pessoinha awesome aqui, tá? Qualquer semelhança, não é coincidência.

segunda-feira, 13 de março de 2017

[rosenrot: o colégio carmim] pequenos fatos

[esses são alguns rascunhos na fila sobre o meu cenário de RPG para Mundo das Trevas Clássico - Rosenrot: o colégio carmim. Tava ativo entre 2003 a 2006, mas acabei não escrevendo mais. Peguei alguns contos que já tava na cachola e coloquei alguns elementos do cenário. É praticamente ressuscitar plot já morto *no pun intented*]

É uma cadeira simples, madeira, escurecida pelo tempo e pelo o que seja que já passou por ela. Disseram que seria indolor, duraria por alguns segundos. 
Pareceu uma eternidade.


Os gritos estridentes, o ruído da tempestade, os grilhões, o calor escaldante, a areia. 
Areia em tudo quanto é canto. 
E de repente essa memória que me persegue desde criança, uma masmorra escura, fria, congelante, mãos para cima, braços doloridos e esfolados, pés mal tocando o chão, apenas um breve aliviar dos dedões do pé encostando para manter um ponto de apoio. O cheiro é horrível, invade meu nariz e me faz querer vomitar, mas aí percebo que não há comida em minha barriga há muito tempo.

Tudo é quieto e assustador. Estou com medo, muito medo. Tremendo e evitando não gritar para fazer esse silêncio maldito ir embora. A areia está em alguns cantos, mas está ali, cobrindo meus pés, salgando parte do meu corpo, ferindo meus olhos com alguns grãos. O tilintar dos grilhões é de minhas mãos, correntes presas no teto da cela e me pendurando como um pedaço de carne em açougue.
É isso que sou para ele.

A noção de tempo aqui não existe mais e se o inferno cristão é verdade, não poderiam ser mais criativos. Eu sei bem quem é meu captor, quem é meu inimigo particular, meu demônio sangrento que irá me atormentar para resto de minha existência. Até ele morrer de verdade, não terei paz. 

Não quero paz, não aprovo a paz. Se o sangue é a vida, é isso que ele apenas terá. Sangue dos que ama nas suas mãos e nas minhas. Principalmente nas minhas.


Passos no silêncio, arrastados, sem coordenação, não é ele, é um dos outros. Tento desesperadamente puxar os grilhões para fora da armação de correntes no teto, nada além de mais dor e feridas em meus punhos. Preciso sair daqui, preciso sair daqui, preciso...
 - Oh minha criança... Tão aflita e fraca... - a voz me atinge como uma faca de lâmina fria, descendo do peito para meu estômago, vagarosamente. Não é um deles, é pior. Era a minha amada até a desgraça atingir nossa família.

===
A rotina é a mesma aqui em Rosenrot
A escola pode ter ido pro chão uns anos atrás, mas não há nada que os Corvinus não façam pra manter a mamata deles. Desvio, lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, falsificação ideológica e de propriedade. Tudo que for para manter o verdadeiro motivo desse lugar funcionar será feito.

Por isso tou aqui. Observando. 
Vendo se está tudo nos conformes, vendo se não quebram as regras. 
Por mais nobre que seja a missão da Irmandade, não quer dizer que não sejam capazes de cometer pecados. A pedra fundamental dessa construção está impregnada de sangue dos inocentes e a corrupção é a opção que temos.
Minima de malis.

Pelo menos mantemos essas aberrações longe do convívio dos inocentes. 
Aquele moleque do terceiro ano, por exemplo. Vai virar um psicopata com aquele fetiche de ficar seguindo os professores. E aquela turminha que acha que não sei que usam o banheiro em reforma pra fumar? Todos uns delinquentes que se saírem daqui vão causar muito estrago lá fora. As novas aquisições também não estão sendo as melhores, muito pirralho do interior, cheio de manias esquisitas, se comportando como animais nos intervalos e antes de irem pra cama. Vi um deles com outro no portão dos fundos fazendo você sabe o quê. 
Não tem noção alguma de decência.

A maioria não comparece a missa de domingo, não respeita o Evangelho, não dá a mínima pra palavra do Senhor. Todos condenados. E essa Irmandade também é. 

Última vez que tentaram invadir o prédio pra pegar um dos guris do interior na porrada (algo a ver com ter mordido o traseiro de algum traficante aí), o povo da biblioteca botou eles pra correr. Aí que os boatos começaram.
E boatos aqui não costumam ser meras fofocas.

domingo, 11 de dezembro de 2016

[conto com angie] hora do chá


Título: Hora do chá (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.010 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby

Algumas coisas na vida mudavam. 
E outras coisas continuavam as mesmas. 

Angie observava a cena com um leve sorriso no rosto ainda marcado de tinta guache, canetinha hidrocor, a maquiagem meio borrada pelo turno vespertino na creche comunitária onde fazia voluntariado apenas pela merenda e nada mais.

Seus olhos cansados passeavam minuciosamente pela cozinha do hotel, aquele gigante animado de forma grotesca em seu entender, como um construto despedaçado e rebocado em cada pedaço e andar do prédio. Já havia se desentendido com o tal hotel (Ou seja lá o que o mantinha "vivo") e agora, exatamente naquele instante percebeu que tinha um cúmplice de intrigas.

Nesse caso, de sacanear a chefia o máximo possível.

O fogão que nunca pegava na primeira acendida de fósforo estava perfeitamente funcional. Aceitando o fundo da chaleira sem balançar e espalhar a água quente e apagar a chama ou queimar quem estivesse por perto. O segundo bocal enorme para panela grande nem cismara em se acender e causar um pequeno incêndio. O forno é que mais surpreendia, não jorrou nenhum objeto chamuscado, deixou um fedor empesteante de gás e muito menos fazia um barulho horrendo após alguns minutos aquecido.

A cozinha do hotel estava colaborando com a Rainha dos Feéricos, mesmo ela odiando esse título e o evitando como dava.

A observadora não tão distraída na porta da famigerada cozinha mortífera coçou o queixo com uma casquinha de guache seca, o sorriso cresceu ao ver o gesto pequeno de carinho trocado entre as duas ocupantes do pequeno espaço, o simples mover harmonioso de se dividir as tarefas, uma mão que complementava a outra, uma ação ainda não feita, mas pensada já sendo executada, a sincronia entre movimentos, e os fios prateados. Urrum, lá estava os dois, tão entrelaçados um ao outro que mal conseguia distinguir onde um começava e outro terminava.

As duas pessoas não percebiam nessa ótica, estavam entretidas em fazer o ritual do chá da tarde e terem o momento silencioso de desfrutar a companhia uma da outra sem precisar tratar de negócios do Mercado Proibido ou de Quimeras rebeldes. 
- Abro esse pacote aqui ou...? 
- Abre dois que a menina chega esfomeada, como sempre... - riu Raine para a dificuldade em que Kittie tinha em abrir a embalagem de biscoitos. Angie quis intervir como sempre, dar sua opinião ferina era algo automático de sua índole, mas ali, naquele lugar, ela não iria interromper o que estava acontecendo. 

Os fios prateados sempre diziam o caminho.

A música na vitrola na sala da sinuca mudara para uma balada dos anos 80, algo bem melancólico de letra ambígua, mas que fizera muito sucesso na época (Angie lembrava disso muito bem, viveu intensamente os anos 80 como uma adolescente eshu que se orgulhava). Para Angie, a música era um código universal de alcance ilimitado aos corações, não importava como. O fato da vitrola pertencer a Raine e estar tocando sucessos dos anos 80 era algo a se relevar: a chefia não deixava ninguém tocar em seus pertences, muito menos mudar aquele disco pegajoso de música barroca, de concerto, sem letra alguma e tediosa depois do terceiro minuto. 
- As torradas estão prontas, chá também, faltam as sementes e o querido voltar com a geleia e manteiga... - organizou Kittie em seu modo metódico de viver a vida, sempre se disciplinando para não esquecer nada. Raine riu novamente, se aproximando da pessoa mais alta e tirou uma xícara de seus dedos sempre trêmulas. 
- Relaxa... É só um chá da tarde, estão todos acostumados com a bagunça. - O rosto de Kittie se contorceu em preocupação, mirando bem a xícara retirada de sua mão, os óculos de armação tartaruga escorregaram um pouco do gancho do nariz para serem ajeitados por Raine inconscientemente. As duas trocaram olhares novamente e riram. 
- É só um chá... - repetiu Kittie com certeza, a mão de Raine tocou seu rosto e a preocupação se desfez rapidamente. A troca de olhares foi confusa, Raine para a cicatriz ainda se curando no lábio de Kittie, esta focando sua atenção e miopia no topo da cabeça de Raine. 

Foi quando Angie percebeu no que Kittie também via, soltou um soluço de surpresa pela descoberta e atrapalhou o fluxo de energias que a cena doméstica produzia no ambiente (E pro hotel ter ficado a favor disso era porque as energias eram realmente poderosas). 
- Oh Angie, já chegou? Não pegou até às 18h? - disse Tobby chegando com sacolas de compras no seu andar desequilibrado. O momento ali se dissipou, Kittie foi supervisionar o forno, Raine pegou um pano de prato e o amassou nas mãos com certa violência. A interrupção não era nada perto do incômodo da dona do hotel ser vista em posição tão vulnerável. 
- Gurizada foi pro flúor e escovação de dentes, então... - Angie deu de ombros e refez seu jogo para amenizar a tensão. - Tá fazendo biscoito, é? 
- É bolacha. - provocou Tobby, ela abanou a orelha demonstrando o quanto se importava. 
- É semente de abóbora caramelizada... Receita básica de Dia dos Santos... - explicou Kittie abrindo o forno e tomando cuidado para tirar a travessa com o doce marrom e de aroma característico entre amendoim torrado e açúcar queimado. 
- Dia dos Santos é semana que vem, não? - Angie ajudou Tobby a tirar as compras e separar na bancada de mármore da pequena cozinha, Raine continuava em silêncio, observando bem a tarefa de Kittie com a travessa quente e uma espátula de teflon. - Pode pegar um teco? 
- Espera esfriar que vira torrão, calma. - Kittie avisou mantendo a travessa longe da menina eshu.
- Obrigada Tobby pelas compras... - Raine agradeceu polidamente e pegando com cuidado as bandejas com chá, biscoitos e utensílios.

Saiu graciosamente pela porta da cozinha e encaminhou-se para a sala da sinuca. Kittie brigava com a espátula, Tobby ajeitava as compras nos armários e Angie percebia que o fio prateado de Kittie e Raine lentamente se afinava para finalmente se separarem, cada um de seu lado.

domingo, 27 de novembro de 2016

[conto] a música do diafragma


Título: a música do diafragma (por BRMorgado)
Cenário: Original/Cotidiano - Nova Orleans.
Classificação: 18 anos. (linguagem inapropriada).
Tamanho: 3.412 palavras
Status: Completa.
Resumo
N/A: Como não largo as vibes de Nova Orleans e aproveitei o cenário que já tenho (Felicidade Adormecida, em breve um link prestável) para colocar essa pequena peça de diálogo. Faz parte desse cenário aqui também [x]
Trilha sonora:

 - Cê sabe que minha visão lá é lá boa...
 - Quantos anos você tem, moleca? - dou de ombros, o velho do meu lado parece irritado.
 - Pede pro guri ali, ele tem mais noção nessas coisas que eu, oras! - aponto para o primo do Cavillar, um adolescente chato que colou no grupo esses dias. Ele deve ter um olho melhor que eu, isso com certeza.

Fantasias de Mardi Gras não eram meu forte, vou ser sincera. Gostava muito da festa, demais até, como qualquer pessoa nascida aqui honra as calças que usa com a barra suja da lama do Mississípi, mas sinceramente a tradição das fantasias me assustavam. Culpe o catolicismo traumatizante na minha vida de viciada, qualquer coisa muito colorida e que trazia alguma simbologia cultural me fazia querer correr na direção oposta.

Vai ver que é isso que não gosto tanto de entrar nas casas de memória ou nos museus. Muita simbologia para decifrar. Ah! Ironia do destino: estar com alguém que é expert nisso. Que classifica essas coisas... culturais... sei lá o nome pra isso, sempre achei que ela tava zoando quando me disse que trabalhava em uma reserva indígena no oeste fazendo catalogação de objetos usados por índios há um milhão de anos atrás. Tá, um milhão não, centenas de anos atrás. Ela explicou umas outras coisas também que não consegui acompanhar, meu cérebro virou pudim depois desse último verão e a abstinência tava queimando o restante daquilo que eu já não tinha, então ficava assim: eu escutava, mas não entendia bulhufas. Ela na paciência infinita, me explicava de novo. A gente fazia umas comparações com as coisas aqui da cidade e aí nos entendíamos.

Melhor isso que aquele silêncio péssimo que tanto odeio.

Tava no semáforo quebrado da St. Charles essa semana (ou era hoje de manhã?), parada como sempre, esperando o verde aparecer. veio de novo, como quando eu percebi quando criança, compasso 4 por 4, valsa, rock, um pouco puxado pro country, deu para seguir o compasso com a cabeça, mas tinha que atravessar a rua, ir para o Centro Social, dar palestra sobre teoria musical, o ritmo do semáforo foi perdido. Antes isso me dava muita raiva, assim de surtar, mas agora como a medicação tinha voltado ao normal dava pra segurar a explosão de humor. Do 8 ao 800 em poucos segundos, agora demoravam horas. Seja lá o que colocaram na mudança de pilulas, nem sentindo dor no estômago eu tava mais.

Oh! Sim, palestra! O basicão pra garotada. Nada muito aprofundado, um pouco mais puxado pros sopros e as latas, eu queria achar um ali que entendesse de cordas, umzinho que respeitava o sagrado violoncelo, mas nadinha. Tudo vidrado na tradição do latão com o trio que a Big Easy perpetuou como a verdadeira música americana. Isso me cansa também, entendo só da teoria dos latões, não da espiritualidade. Pra tocar um trompete, um sax, uma tuba tem que ter a alma grudada na porra do latão, como uma parte do teu pulmão ali arfando, é essa a filosofia dos mais velhos. A única coisa que consigo sentir isso é com um cello no meio das pernas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

[conto] erros de comunicação NSFW

Título: erros de comunicação (por BRMorgado)
Cenário: Original - Nova Orleans.
Classificação: 18 anos. (Cenas insinuantes, menções de BDSM).
Tamanho: 2.783 palavras
Status: Completa.
Resumo: um quarto no bairro francês, uma discussão de relacionamento no quarto ao lado, um teste com mobiliário novo.
Disclaimer: É possível ou não fazer parte desse outro conto aqui. Conteúdo abaixo do link NÃO É apropriado para menores de 18 conforme as tabelinhas de classificação indicativa de filmes/seriados/livros e tudo mais. Então se não gosta dos temas acima, esqueça, vá ler outra coisa, pule de postagem. Não me culpe de corromper vossa mente ou que fui uma má influência.

Trilha sonora: "Ne me quitte pas" interpretada por Aurora Nealand & the Royal Roses



As usual: NSFW, quase, assim não tanto. Mas tá avisado.

sábado, 19 de novembro de 2016

[os escorregadios] in manus dominum

Título: in manus dominum (por BRMorgan)
Cenário: Original - os escorregadios.
Classificação: PG-13.
Tamanho:  palavras.
Status: Incompleta - 1/?
Disclaimer: A escrita de EngeL começou há muito tempo atrás e como um elemento de ligação fez a união entre os cenários (a Morte de Triciclo), resolvi juntar tudo no masterpost de Feéricos [x]. EngeL agora foi rebatizado de Os Escorregadios. Quem acompanha o que escrevo sobre Feéricos vai ver algumas alusões aqui. Sim, é de propósito lol
Personagens: Morgenstern, Micaela, Catherina "estrangeira pintora", Abraham "Bram-bram", enfermeira Carlson, enfermeira Woöls, zeladora Todd



“Just one medicated peaceful moment.” : A Perfect Circle – Orestes.


CAPITULO 1 – “IN MANUS DOMINUM”


Parte 1: O Hospital.


A Metrópole era uma cidade de negócios, o maior aeroporto da região. Linda cidade. Separada por dois rios que subiam e entravam na cidade. Em outros tempos, aqueles rios eram limpos e cristalinos, aproveitados pelos habitantes locais com suas choupanas, seus sonhos simples, seu cultivo de grãos para sobreviver. Não havia prédios altos e antenas de tv. Nem barulho de carros e fumaça das fábricas de automóveis. Era tudo quieto e passarinhos voavam por aí.
- Assim como eu... – disse Micaela, a paciente nº 416 perto da janela blindada e com grades de ferro em seu quarto.
- Micaela, saia dessa janela, por favor? – ela nem ouviu a enfermeira do centro psiquiátrico – Da última vez não foi uma boa você ficar aí até mais tarde lembra? – a paciente jovem (Aparentava ter quase 21 anos) virou na cama de limpos lençóis e murmurou algo para si. – Vamos querida... Hora do chá... – disse a enfermeira com um sorriso cansado, tão cansado por estar trabalhando quase 20 horas ali que mal pensava que teria que enfrentar mais duas horas de trem para ir para casa cuidar de seus dois filhos homens e aguentar mais uma noite com o marido insensível.

No corredor da ala feminina, ela passou por alguém que insistentemente desenhava nas paredes, era a estrangeira que ninguém conseguia pronunciar o nome. Era de origem russa e tinha pouca paciência com quem a atrapalhasse em seu trabalho. Para precaver que a adolescente muda não rabiscasse por todo lugar, instruíram uma enfermeira para vigiá-la e lhe dar boas levas de papel para que ela desenhasse sem prejudicar a tinta do recinto. Em seu quarto, era coberto com papel de parede especial (E que eram seus pais que pagavam por qualquer dano que ela causasse ali) que era retirado frequentemente quando ela completava todas as quatro paredes até a altura que sua mão alcançava.

- Cat-cathy... Aqui... – disse a enfermeira que cuidava dela, dando um pote de giz de cera. A menina pegou com um rápido gesto da mão e voltou ao seu trabalho, a enfermeira observou ela fazer um circulo perfeito para pintar o Sol de laranja. Abaixo dele havia um gramado verde cheio de flores de diversas cores, uma árvore solitária em um morrinho perto de dois rios que se encontravam no final do papel.

Ao seu lado estava a mulher aficionada por música. Sabia de toda programação de cabo a rabo, mudava as estações com cuidado e informava as horas das notícias e músicas favoritas às enfermeiras. Seu nome era apenas Mo, ninguém a visitava nos feriados e muitas enfermeiras mal percebiam na presença da menina grudada no rádio de pilha laranja que ganhara de alguém que não se lembravam. Mo era quieta e sorria muito para os outros, gostava tanto de ouvir música que ficava horas com o rádio na orelha direita e cantarolando as músicas baixinho enquanto movia a cabeça no ritmo da música. Nas sessões de recreamento, ela apreciava ficar perto do piano velho que nem usavam na sala. Ficava olhando o velho instrumento como se esperasse que ele tocasse para ela, mas nada acontecia e ela não fazia exercícios como as outras, apenas sentava e observava o piano intocado.
- Enfermeira Carlson... – ela disse baixinho para a enfermeira que cuidava da estrangeira. – Vai começar o programa do Jëss na TWD, 97,9. – a enfermeira agradeceu e ligou o radinho da sala de enfermeiras para as colegas de trabalho escutarem, todas adoravam a voz sensual do locutor e como ele mandava abraços e beijos e declarações de casais apaixonados para os ouvintes. A estrangeira chiou algo em sua língua natal e olhou irritada para a sala das enfermeiras. Mo sorriu para a garota e apontou para o céu que ela desenhava em outra folha. – Bonito... Céu amarelo... Como se o Sol estivesse, ahn... iluminando tudo...? – tentou começar uma conversa, mas a estrangeira voltou a desenhar sem dar-lhe ouvidos. Voltou sua atenção a outra estação que gostava de ouvir, era a 107,1 que era o canal de notícias.
- Micaela, saia dessa janela já! – gritou outra enfermeira já correndo para aparar a jovem paciente 416 que abria a janela pesada e olhava para baixo como se quisesse pular.
- Por Deus!!! – disse a chefe das enfermeiras e fechou a pesada janela com a ajuda de uma enfermeira bem forte, seu nome era Zildi e ela era um doce de pessoa, tratava todos como seus amigos e dava balinhas macias para as meninas mais novas. 
- Mas eu preciso aprender a voar, enfermeira Woöls... – disse a garota inocentemente.
- Que voar o quê? – disse a mulher indignada pelo susto. – Coloquem ela no quarto separado... Só sairá para o banho, Micaela...
E todas ali ficaram caladas. Todo mundo sabia o que significava ficar no quarto separado.


Parte 2.

Hora do banho. Eram grupos de 5 em 5, pois as 2 enfermeiras encarregadas vigiavam as pacientes nos banhos. Os boxes de banho eram abertos na frente, mas separados por divisórias de acrílico temperado. Mo sentia vergonha por tomar banho vigiada, mas sabia que as mulheres ali não tinham receio nenhum, todo cuidado era pouco, já que na última terça, a viciada conseguiu fugir do banho e sair pelada pelo corredor. Houve só uma vez em que Mo se sentiu inteiramente enojada e medrosa, quando uma das enfermeiras da noite, vigiou todas as meninas sozinha. Como era alguém de olhar frio e dominador, ninguém se atreveu a fazer nada errado para não sofrer conseqüências. A enfermeira era bem perfeccionista e chamava atenção de quem estivesse fazendo algo fora do comum (mas era só um banho, oras! Pensou Mo depois.). 

A estrangeira foi a que sofreu mais, pouco entendia o idioma e pouco se interessava como a enfermeira falava para ela fazer. Mo soube depois que a estrangeira foi para o quarto separado, mas desta vez foi à noite. Melhor seria não perguntar, tomou seu banho de uma vez, lavou os cabelos curtos quase rentes ao cocuruto com destreza e saiu se enxugando.
- Muito bem, Mo... – disse Carlson com um sorriso, aparando a estrangeira de pular a parte de se secar e depois pentear os cabelos. Mo viu Micaela entrar com alguns tremeliques característicos de uma sessão. Deu um breve aceno para a garota e não recebeu nada em resposta. Ficou ao lado dela.
- Micaela... Empresta seu creme de cabelo...? – ela pediu apenas para puxar conversa. A garota mais velha deu o pote pequeno com as mãos tremendo. Apontou para o pente e Mo entendeu, a ruiva começou a passar o pente disfarçando com um ar de despreocupada. – Amanhã terá o jogo de perguntas na 92,8. Nós poderíamos tentar a sorte, não? – Micaela virou para Mo e murmurou perto dela.
- Eles tentaram arrancar minhas asas...
- Eles quem...?
- Aqueles... aqueles seres malditos... – dizia a garota baixinho. – Invejam a gente por termos asas... Eles não têm mais asas e nem sabem como voar... Quando eu voltar a voar aí eles irão ver como é que...
- Meninas, se apressem! O jantar está esfriando! – disse outra enfermeira. A expressão de Micaela mudou e ela agarrou o pente de Mo com ferocidade e a empurrou para longe, o chão escorregadio fez Mo desequilibrar e cair de costas no chão frio, sua cabeça quicou várias vezes no chão e ela sentiu que algo quente estava escorrendo em seu pescoço. Grande alvoroço aconteceu minutos depois, Micaela gritava sem parar que haviam tentado cortar suas asas, que não a deixavam em paz porque ela era um anjo escolhido por Deus.

Mo não ouviu a gritaria, desmaiara no chão e ganhou um corte perto da orelha.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

[os escorregadios] apegos e afetos

Título: Apegos e afetos (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.985 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Raine (aqui chamada de Myrna Reyners), Kristevá Todd



O afeto não era de agora, o conforto de ter um corpo tão perto do seu era familiar, como se aquele momento ali já houvesse disso escrito em algum lugar. Acariciou de leve os cabelos revoltos da pessoa a sua frente, esparramada no sofá maior, ressonando a respiração calma e pausada de sempre. Se acostumara a ouvir esse ritmo desde muito tempo, quando a vira pela primeira vez, dormindo como pedra dentro do vagão de metrô do Arges. O rosto havia mudado muito, a aura tão caótica e confusa também, uma criança domesticada com remédios, tratamentos psiquiátricos, rasurada e esquecida em algum quarto daquele maldito lugar que sugava os sonhos de quem entrava.

Como deixara isso acontecer?

Ela, ou ele, não sabia como denominar mais com quem lidava ali a sua frente, não parecia ser daquela época, alguém deslocado do tempo-espaço, colocado em um corpo que às vezes mostrava que não encaixava na normalidade. Muito confuso para a lógica tradicional de Raine.

Em seus lindos anos em Hibernia, Raine achava que sua vida fútil e cheia de caprichos na Corte a deixariam anestesiada quanto as frivolidades emotivas das donzelas medievais. Acostumada a fugir de qualquer aspecto romântico de sua vida - coisa essa inventada por malvados deuses desordeiros para atrapalhar a vida dos seres vivos - se refugiava solitária nas florestas densas de sua terra Natal ou em incursões nas cavernas de gelo abaixo da grande costa congelada no litoral das terras afastadas do Clã do Profundo Inverno. Estar sozinha era a opção mais acertada em sua vida milenar, e também a mais divertida. Trocar essa sensação de liberdade - o espírito livre de uma folha que se solta da árvore mais frondosa e segue um rumo sem destino - era uma heresia em sua conduta pessoal de viver no mundo dos humanos. Não trocaria isso por nada e nem ninguém.

Até ver que não era necessário trocar sua ética a favor de algo ou alguém. Era apenas se deixar sentir.

Os companheiros de caçada entendiam seu lado aventureiro, sua veia estratégica, sua liderança nata, mas não compreendiam que debaixo das camadas que acobertara pra si residia aquela menininha feérica que adorava ouvir música dos menestréis e apreciar o nascer do sol. O de respirar fundo a atmosfera em uma lua cheia, corpo aquecido por uma fogueira tímida e um jarro de vinho. O dançar sozinha debaixo da torrencial que assolava as divisões entre os reinos sei e o deles.

Kittie sorriu rápido em seu sonho pesado, isso distraiu seu pensamento dos tempos de outrora. Às vezes isso acontecia quando Raine estava por perto, mesmo quando acordada. Prince havia advertido como Kittie a observava quando ninguém prestava atenção, como isso era corriqueiro, pois ninguém se importava com pessoa esquisita que acordava todos os dias em um banco dos fundos do hotel sem saber como chegara ali. Depois foi Angie, explicando que a vida era uma imensa balança de pesos diferentes. E que a paz no sono de Kittie era o pior dos pesadelos no mundo real. Óbvio que entender o que a menina eshu falava era perda de tempo: Angie nunca entregava informações sem haver uma negociação de valores (No caso dela: comida).

Seus dedos caminharam cautelosos pelos cabelos revoltosos, impregnados com grãos de areia da última aventura, rosto não mais transparecendo a dor interna. Kittie parecia ser mais feliz dormindo e sonhando. E isso deixava Raine particularmente infeliz.

Pois se era nos sonhos que Kittie encontrava paz, era exatamente lá que Raine não queria mais habitar. Estar no Sonhar era se sujeitar as regras esquisitas da Corte, das ordens dos elderes, de ter que fazer seu papel odioso de futura monarca mais importante de todo mundo feérico. De ser quem as pessoas queriam que ela fosse, não quem ela realmente era.

Mas Kittie era feliz dormindo. Único lugar de paz e segurança. Com o que ela sonhava, Raine já sabia de cor, mas viver uma ilusão permanente é mais doloroso que acordar para uma vida de sofrimento.

- Eu gostaria de te livrar dessa dor...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

[conto com angie] - alantakun (trecho)

Título: Alantakun (poBRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13 (Algumas palavras ofensivas).
Tamanho: 1840 palavras.
Status: Incompleta.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Angela, Quentin, OC: prodígio.


A minha cabeça dói.
Não chegou a explodir, porque isso é lá do outro lado. Tá difícil compreender os esquemas desse Principado.
(Ops, rimou.)

Oh ótimo, estou fazendo versinhos enquanto soterrada numa montoeira de rolos de fita cassete. Pra que mexer com prodígios afinal?! Deixa os cabras quietos e finge que nunca viu. Bem fácil assim, ninguém se machuca, ninguém se atrasa. E eu tou mais que atrasada.

Atrasada duas horas se deixar, mas hey! Rolos de fita cassete, é quase irônico ver em como estou até o pescoço enrolada nessas coisas. Esse mago deve ter um senso de humor ótimo pra planejar essa antes de bater as botas. Queria ter conversado mais com ele, mas já que Quentin levou a porrada maior, tou tranquila. Aquele ogro precisa aprender que há sempre espaço para a linda diplomacia em casos assim. Não necessitava chutar o traseiro do velho enquanto fazia as perguntas.

Quentin é um bundão. E eu sou covarde. Que dupla dinâmica.
(Quede nossos uniformes? Exijo um collant lotado de paetê e purpurina! Sambar na cara da sociedade feérica!)

Uma coisa que aprendi com aquele maluco foi que ter paciência é tudo na vida, tou praticando isso agora, literalmente soterrada por material nostálgico dos anos 80 manjando dos entrelaçamentos. Paciência é uma virtude, monamu, paciência te leva a lugares inesperados.
(Meu traseirinho machucado que leva sim.)

O maluco não disse pro Q que ele deveria se manter calmo o tempo todo, a consequência é essa agora, nesse exato instante, em que no canto do olho vejo o aprendiz original de Stardancer sendo chutado, bem certeiro no rosto.

Yep, botas com bico de metal frio.
Yep, ele deve estar vendo estrelinhas agora. Ou patinhos de borracha.
Depende do nível de delírio que aquilo deve causar.
E yep, eu devo ser a próxima a sentir aquele treco gelado sendo pressionado na minha cútis de neném. (Não quero estragar a maquiagem, estava tão linda quando saí!)

O som da bota fazendo outro baque, dessa vez nas costelas do Q.
Velhote burro, todo mundo sabe que um ogro aguenta ser sovado até virar mingau.

O que muitos não sabem que o ogro do Q é uma versão melhorada e mais cheirosinha que aquele dos desenhos animados (Sim, aquele do pântano em lugar nenhum e que casa com uma princesa que vira ogra também e são felizes para sempre com um quadrúpede tagarela? É bem legal essa história, morro de rir com as piadas internas, sinceramente acho que vou ver o filme de novo quando sair daqui. Quando eu sair daqui. Se é que dá pra sair.).

Diferente dos contos-de-fada que o mainstream adora colocar na rodinha, Q continua sendo canibal (Nunca deixou de ser!). E com uma leve obsessão por cabeças. Tipo, para penduricalhos. Ou para encolher. Acho engraçadinho cabeças encolhidas e colocadas em garrafas, elas ficam com essa expressão risonha e imagino se falam fino e talz...