Pesquisando

domingo, 2 de novembro de 2014

[Projeto Reverso] Como Andar de Bicicleta

Título: Como andar de bicicleta - parte 7/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 14 anos.
Tamanho: 1007 palavras.
Status: Incompleta.
Resumo: Alguém se deixa levar por muitos pensamentos em uma varanda de madeira de algum esconderijo do grupo.
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

SEM TÍTULO [1] - MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:

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Como é sentir que vai morrer?
É como andar em uma bicicleta após anos sem praticar.
Sério, não é tão difícil assim. Apenas sentir que todas suas forças se esvaem de seus poros, deixando marcas no chão, nas coisas em que toca, nos outros que estão ao seu redor, tudo retorna ao pó quando se vem do pó. Extrema-unção nunca fez tanto sentido para mim.
O pequeno livrinho preto de capa rasgada está em meu bolso do jaleco, não atingido pela torrente suave que vai tomando conta do deck de madeira, o que importa agora as palavras sábias de antigamente? Quase nada, a não ser que minha mão tremendo está involuntariamente querendo alcançá-lo desde que me deixei vencer pelo cansaço, pela fome, pela hemorragia interna sistêmica.
" - Vai melhorar, você só está cansada" - eu convenço o meu corpo dolorido com essas palavrinhas mágicas, logo delibero o porquê não sentir mais meus dedos dos pés e minha visão estar turva. Algo errado está ocorrendo e eu só consigo sangrar até morrer aqui nessa varanda.
Delegar tarefas é fácil, aponta pra lá, aponta pra cá, lembra a todos que temos que ter sempre água potável, abrigo sem frestas, barricadas nos possíveis lugares mais vulneráveis. Tentar as linhas telefônicas, puxar a energia de algum gerador perdido por aí, qualquer coisa pela sobrevivência, estamos perdidos em um vale de poucos quilômetros, afastados da principal cidade, sim, estamos ferrados. A comida não vai dar, a água vai acabar logo, o pânico já começou desde ontem depois da bomba. Estamos realmente ferrados.
Teria sido melhor mandar o Willes arrumar o gerador da casa da frente e depois juntar o pessoal para buscar água. Deus, como isso dói. Deus, hahahahahaha, não há mais Deus nessa terra maldita, nem sei por quê estou chamando o nome Dele, não há Deus, nem o Diabo, apenas nós, nós e fenda e a terra devastada e destroçada por alguma coisa que fizemos há muito tempo atrás. Legal... Filosofando antes de morrer, isso é ótimo, é maravilhoso mesmo...
Meu último arrependimento passa por alguns segundos pelo canto de meu olho sem foco: deveria ter a beijado quando estivemos sozinhas minutos atrás. Pelo menos um cessar de fogo, um levantar de bandeira branca, um rendimento final, qualquer coisa para mostrar o quanto eu me importava, o quanto a admirava, o quanto eu a amava por dentro, o quanto a queria ao meu lado, mas não. Preferi a desprezar e a empurrar para bem longe de mim.
Melhor assim.
Se não tivesse feito isso, parte da explosão teria sido dela. O calor, os destroços, as partículas de coisas desconhecidas girando pelo ar, o pedaço de vidro que provoca toda a dor que parei de sentir alguns minutos atrás. Sangue demais, acho que estou delirando, só pode. Sinto o relaxamento dos músculos em meus quadris, subindo pelo estômago, ocupando boa parte de meu corpo, o quente lençol vermelho que empapa meus cabelos, segue seu curso, penetra na madeira do deck da varanda, faz a Lei da Gravidade continuar válida. Deus, então é assim que é morrer?!
Como andar de bicicleta?
Como finalmente encontrar a meta?
Como abraçar o Destino repetido em um loop interminável de ações, reações e cadeias e frustrações, interrupções, palavrões, tantos "ões" nessa pouca vida que me resta.
O pedaço de vidro que estava alguns segundos alojado em meu ventre está agora entre meus dedos, liberando passagem para o único curso que as veias obedecem quando despedaçadas. É, deve ser isso mesmo. Como andar de bicicleta após anos sem tocar um pedal.
Pisco devagar, as pálpebras se fecham automáticamente com a letargia e a exaustão. O coração lentamente desliga as correntes, o cérebro para de processar coisa com coisa. Única coisa que tenho lembrança é isso: deveria tê-la beijado antes da bomba.
Tudo se torna escuro, a poça está estática, não há mais o que vazar de meu corpo. É esperar.
Como andar de bicicleta, logo irei saber como é.
Ouço passos, ouço vozes de longe, ouço a voz dela perguntando o porquê sou tão rude com os outros. Há razões a mais que gostaria de explicar, meu amorzinho. Tantas razões! A voz que acompanha me dá calafrios sem tremor, o eleito se coloca ao meu favor, mas não deixa de interpretar a minha rudeza como uma fonte de me proteger. E estou me protegendo, agora mesmo, morrendo em uma varanda em um lugar destruído por uma bomba de muitos quilos. E um barulho horrível. Queria voltar pra casa, agradecer a tia M. que o bolo de chocolate ficou melhor quando você pode...?
Deus, o que tou falando?
" - Como andar de bicicleta..." - os 10 segundos de "coisas que já fiz nessa vida" já se acabaram, último suspiro. Certo, checado. Posso ir? Já tou indo. Não quero hora-extra, até porque o governo não vai me pagar quando eu apagar.
Deveria ter a beijado quando estávamos perdidas.
Tudo seria resolvido.
Muita coisa.
Agora que se dane: todo mundo nesse universo vai morrer sozinho, mesmo.
Como é que era mesmo?
Como andar em uma bicicleta.
===
...
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...
A porta abre sem aviso, sou arremessada para o lado oposto, a roda da bicicleta para, mas meu corpo continua a trajetória, estaciono com o rosto queimando no asfalto quente. Ótimo dia para se começar uma nova ideia. Que dia é hoje mesmo?!
 - Você tá bem?! - é ela, nova ainda, já deve saber das merdas que fez para chegarmos aos finalmente dessa história repetida toda. Essa é inédita. - Oh por favor, me diz que não morreu?! - a voz continua a mesma, de alguns anos atrás (Ou eram segundos? Não lembro bem, estava ali bem perto de mim). Tem alguma coisa aqui fora do lugar, e sim, acho que é meu ombro. Vejo-a dar a volta no carro chique, abrindo o casaco e jogando de lado para poder me atender melhor. Imobilização, primeiros socorros, perguntas sobre concusão, tipo sanguíneo, perdas de habilitação, o carro não é dela... [continua em 8/12]
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