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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Miopia latente


Miopia latente 

Ter miopia é um vaca de dois legumes. 


Você pode aceitar essa deturpação ocular como status quo na sua vida - e sofrer as consequências de esbarrar em coisas, trocar letras, ter visão turva, dobrada, não ver cores direito, aturar dores de cabeça constante, MAS você não necessariamente precisa enxergar o mundo como ele supostamente é. Bônus pra vivência. 

Ou você pode optar em fazer um óculos, com lentes que "corrijam" esse pequeno detalhe imperfeito da maquinaria que se constitui o corpo humano e sofrer miseravelmente de que por anos preciosos foram tirados de você. 

A questão é: eu vou continuar a ser míope, as lentes vão ajeitar meus olhos, mas a consciência é madura o suficiente para compreender que nem tudo que a lente focaliza é exatamente o que a realidade é. 

Lembram dos esqueminha do Platão e a caverna? E as sombras e as pessoas que viam os vultos e quando encontravam a "Razão" iam pra luz lá do lado de fora? Spoiler alert modafóca, o mito de Prometeu começa na mesma premissa só que o cara roubou o fogo dos deuses, fez a galera toda sair da caverna na marra AND passou a eternidade preso em um penhasco com uma águia comendo o fígado dele... 
(Hmmmmmm patê titânico nomnomz) 

Às vezes ganhar a iluminação, a tocha, as lentes, não é a melhor coisa dessa vida. Talvez minha rabugice diminua, meu cansaço mental, a sonolência, a irritabilidade com luz e superfícies claras se vão e não voltem, mas a miopia, meus quiridus, ela continua. 

É o defeito da fábrica.

domingo, 6 de setembro de 2015

a minha impressão do status quo da biblioteconomia

Estava a ler alguns artigos sobre inspirações para a sua vida de trabalho e como em qualquer realidade tecnológica, notei que a maioria das lições de vidas eram baseadas em gente bem sucedida, com dinheiro e pasmem, mais novas. Porque deve ser isso mesmo, né? O status quo?

No mundo da biblioteca vemos que a invesão se dá devido ao atraso dessas ideias globais de valorização ao jovem, bonito e barato terem chegado nas raízes do fazer bibliotecário. Claro que temos os engenheiros e os cientistas de sistemas de informação se comendo para tomar o nosso lugar (kek #Ironia) e eles trazem essa bandeira: bora saudar os novinhos e suas invenções.

Sempre citar Dr. Horrible quando é possível é status quo aqui.
The thing is, muita das idealizações de bibliotecários que nossa sociedade faz (E digo sociedade brasileira atual, sistema educacional importado da ditadura, espelhado em ideais americanizados e jfc até na biblioteconomia teve cisão entre modelo francês e modelo estadunidense) acabam caindo ao contrário dessa tríade do jovem, bonito e barato.

A tiazinha atrás do balcão de óculos, com coque na nuca e vestimenta comportada com algo em tricô? Yep, essa é a visualização da maioria - faz o teste, perguntem ou tentem lembrar do primeiro bibliotecário que apareceu na sua vida - o velho, o antiquado e o super caro. Porque livro custa caro, gente. E pagar gente que "cuida de livro"¹ é mais caro ainda.

#SqN

Tive sorte de ir em uma homenagem aos 50 anos da regulamentarização da profissão de Bibliotecário no Brasil² (A lei é essa aqui, assinada pelo cara apelidado de Jango) e ver como isso causou impacto na geração de bibliotecários que foram produzidos antes e depois da ditadura. Muita senhorinha como descrevi ali acima estava lá, inconfundíveis em seus charminhos e elegâncias de ladies do conhecimento, mas também aquelas franzinas humildes, com a fala tão mansa e confortante que não tem como não remeter as bibliotecárias de ambiente educacional.

Ali naquele auditório do SENAC estavam pessoas que de certa forma contribuíram durante anos e anos (e várias e várias vezes³) para que a Biblioteconomia catarinense fosse levada com integridade, respeito e sem tantos danos colaterais de uma saída de um regime ditatorial para uma democracia esquizofrênica liderada pelo liberalismo disfarçado do jovem, bonito e barato.

O velho, antiquado e caro continua vencendo as paradas, porque é esse o status quo na Biblioteconomia. E pelo jeito vem funcionando desde Alexandria, meux quiridux, quem sou eu pra discordar. Tem o lado bom e o lado ruim, assim como em qualquer coisa na nossa vida: respeitar o velho, antiquado e caro é um tiro no escuro naquela famosa briga de foice no meio do mato sem cachorro.

O bom é que se eu respeitar esse status quo, estarei valorizando a minha profissão como detentora de uma responsabilidade fodida imensa de apoiar o crescimento do meu país como uso de uma tecnologia tão matusaléica como o livro - não adianta vir com mimimi de bibliófilo, aquele trambolho feito de peças de diversos materiais que agora é o livrinho mais vendido no mundo que nem deveria ser vendido porque o filho do cara que pediu pra escrever o trem tem mais de 2 mil anos de idade, ENTÃO! - isso sim é algo que vai de encontro a Realidade de agora.

Eis um belo exemplo de um bibliotecário em seu habitat e a Realidade tentando arruiná-lo
Vejo isso claramente no ambiente onde estou atuando e quero passar o resto da minha vida, apesar de ser uma bibblioteca escolar bem servida de acervo e ter conexão com a internet, os estudantes dão preferência ao modo tradicional de pesquisa. O basicão pode ser na Wikipedia ou em outros sites de curiosidades, mas hey, se quer saber mesmo a definição sobre Dadaísmo e comparar nos livros (com gravuras, yeaaah) com o movimento Surrealista, sim, vai ser naquela enciclopédia ou naquele manual de Artes. A questão nem se eleva quanto a valorização do livro em si, mas o que o estudante tá acostumado a manusear. Powha, ele carrega um calhamaço de papel chamado livro didático (bota foooooogo nisso gezuis) durante o ano inteiro, é óbvio que o primeiro sensor de procura para pesquisa vai ser um livro, não a Wikipedia. Há também o fator financeiro, tem internet na escola, mas a maioria dos estudantes preferem fazer suas coisas em casa, porque vamos ser sinceros? Ambiente escolar é um trauma ferrado para nossas crianças, vocês querendo ou não, pensadores da educação.

A biblioteca é um lugar para amenizar isso, assim acredito e quero perpetuar pras gerações seguintes e é isso que os novinhos da Biblioteconomia vêm fazendo desde então.

Mas como então respeitar os velhinhos? É porque sem eles não seríamos nada. Sem eles com sua instrução erroneamente facetada na escola americana tecnicista de Dewey (yooooooou modafóca hate you so much) são responsáveis pelo o que somos agora. Foram eles que nos inspiraram, ainda quando criança, a querer ter o segredo das estantes, o acesso ao conhecimento, o saber fazer bibliotecário.

Mas se você for um engenheiro ou um do sistemas de informação [4] provavelmente vai preferir o jovem, bonito e barato (Oh, esqueci de mencionar o que não dura por muito tempo). As senhorinhas naquele auditório me deram perspectiva de que a profissão não ia acabar ou que estamos enterrando modelos velhos, mas sim que o modelo TÁ ERRADO desde o início, a gente é que se virou nos 30 pra adaptar aqui pro povo tupiniquim.

Agora o lado ruim do velho, antiquado e caro? Exatamente isso aí, é velho e nossa geração não aceita isso muito bem. Não temos mais aquele senso de dever em respeitar os mais velhos, em escutar a voz da experiência, em não procurar nos antigos aquilo que talvez possa fazer a diferença. O antiquado é ultrapassado, nos dá a ideia de que a inovação é perigosa, é cansativa, vai ser desastrosa em implementar.

E caro já nos diz tudo. Uma sociedade que prefere dar mais de 10 salários mínimos pra um político (Que NÃO TEM lei alguma dizendo que é uma profissão regulamentada e MUITO MENOS é um cargo com sindicato, LOGO seus trouxas, cês tão favorecendo propina para um cargo que supostamente deveria ser de serviço público de livre e espontânea vontade E VOLUNTÁRIO) e colocar o piso salarial de um bibliotecário escolar com menos de 2 salários mínimos (menos que um professor, aliás) está me dizendo tudo que preciso saber sobre a minha profissão. Porque o status quo é sobre o moneys né? E o poder. E a fama. E quanto tempo vai durar, certo?

Apoiar o jovem, bonito e barato para mim é impossível, não consigo me ver espelhada nessa visão das ciências tecnológicas como é pregada aqui no Brasil, consigo ter vislumbres de parcerias e melhorias conjuntas entre ambas as partes, mas uma substituir a outra? Jamais. Até porque banco de dados precisam ser manuseados por pessoas que saibam ler as informações ali para aqueles que não fazem ideia do que seja 01110000 01100101 01100100 01110010 01101111 00100000 01100100 01100101 00100000 01101100 01100001 01110010 01100001 00100000 01101100 01100001 01110010 01100001 00100000 01101100 01100001 01110010 01100001 00100000 01101100 01100001 01101100 01100001. A não ser que tenha tecnologia suficiente pra todo mundo virar ciborgue e ter algo implantado no cérebro pra ler código binário e descobrir que escrevi o tema do show de calouros do Silvio Santos ali atrás.

(Totalmente irrelevante, mas estou expondo o meu ponto de vista com esse exemplo)

Chegamos a valorização da profissão quando há comemorações como essa, o de lembrar aos jovens que estão vindo no curso e na profissão que temos uma Lei bem bacana para nos defender do status quo vigente (Aquele que produz a Realidade Estática e que se você tentar fazer algo fora da caixinha vai perDER PONTOS DE SANIDADE!!!1!!!1!), porque por mais que tentem dizer que a profissão vai acabar, ser substituída por outra - Cientista da Informação, no, just no, nope, ope, nope over 9000 - ser bibliotecário é eterno.

E isso é inspirador.
(Viu como dei uma volta enorme para chegar no tópico principal dessa postagem? Urrum, urrum...)

Pessoas mais velhas costumam me inspirar de um modo muito muito muito mais arrebatador que os novinhos. I mean, tenho respeito com todos, mas se você já chegou ao ponto de ter uma conta quilométrica de vezes que foi ao ortopedista por problemas na coluna ou que não aguenta mais ver as políticas governamentais de pura encheção de linguiça na Educação, pode ter certeza que estarei prestando bem atenção em você. Todos os bibliotecários mais velhos que tive o prazer de conhecer e bater um papinho ou apenas observar de longe e verificar suas técnicas sempre me trouxeram aquele quentinho entre os pulmões de que estou no caminho certo (Não, não era azia ou má digestão, é um coração que tem ali, por incrível que pareça).

Com raras exceções nos novinhos, os profissionais calejados me dão vontade de dar pulinhos de alegria e desejar que o futuro venha logo e eu vire um jurássico e seja fonte de chacota/inspiração de alguém. Porque eles são sacaneados, não vou mentir, eles tão mais tempo ali na labuta, eles já viram governos sendo firmados e destruídos, viram gente crescer e ser diminuída, e resistiram pelo Amor que tinham pela profissão. Os meus devaneios estúpidos de querer ser docente na Biblio vem exatamente dessa valorização interna de querer repassar alguma coisa que essas pessoinhas tão queridas que me influenciaram de algum modo. Não custa nada gente e olha, nem precisa de um livro pra saber. Unir as 2 profissões mais velhas do mundo (Não, não é aquela outra profissão mais velha do mundo não) pode trazer alguma diferença para esse mundo estranho.

E porque as senhorinhas estão se aposentando e sossegando e os novinhos estão se descambando para os valvulados da engenharia de produção e sistemas de informação. Isso isso me preocupa, tem uma pancada de formandos querendo cuidar de coisas e não de gente. E pelamordaSilvaSauro, cês tem certeza que estão no curso certo? 

Chega de bibliotequices hoje, bora voltar ao trabalho.



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Notas:
¹ - erro básico da profissão, achar que cuidamos de livro. Quem cuida de livro é a editora, a gráfica e restauradores, beleza? A gente só intermedia os esquemas pras paradinha do incentivo a leitura e construção da cidadania através do conhecimento ocorrer, morô? Veneza? Mó Egito aew...

² - As diretrizes que regulamentam a profissão no Brasil são essas aqui:

1. 
Lei nº 4.084, de 30 de junho de 1962 - Dispõe sobre a profissão de Bibliotecário e regula o seu exercício. O decreto nº 56.725, de 16 de agosto de 1965 - Regulamenta a Lei nº 4.084/62.
2. Lei nº 9.674, de 25 de junho de 1998 - FHC tentou dar uma arrumada e hey, ficou legal com o trem de "Profissional Liberal" lá da CLT (Getúlinho dramalhama, seu lindo!)

(Aliás, é um ótimo tópico para se pesquisar quando estou extremamente entediada com alguma coisa: saber qual é o panorama das outras profissões.)

³ - #VanessaumFeelings

[4] Juro por Ranganathan que não é indireta para as "ostis otoridades" que permeiam o curso de Biblioteconomia no Antro Vil e Maléfico de Cthulhu, nem é... Imagina bunita!