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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Corpo alien-ado


São onze e vinte da manhã, sol já a pino, calor entorpecido, joelhos moles, mochila cheia de livros didáticos inúteis, mais livros da biblioteca, mais uma pasta com letras de música, o caderno de 20 matérias, um walkman quase despedaçado no plástico que o reveste, coberto por muita fita isolante, um par de fones de ouvido que não supre a vontade de estourar um tímpano com o que está tocando na fita cassete de 60 minutos (a de 90 faz a rotação ficar lenta), tudo que dava pra gravar na rádio local. 

Possivelmente onze e quarenta, caminhada de mais de 20 minutos atravessando avenida, subindo morro, moletom preto. Enquanto colegas de turma usam jeans e camiseta prata enfrentar o clima louco da roça brejeira onde está enterrada há quatro anos, prefere o moletom, enorme, duas vezes de si, capuz, é 33° graus naquele dia. 

Escondida em plena vista. 

Essa cena meio que volta a minha memória quando encontro um adolescente enfurnado em casacos mesmo quando está um sol de rachar - e por morar em um estado onde o frio é tenso, isso acontece às vezes na primavera e verão e parte do outono. Enquanto ouço galera achar um absurdo a atitude antissocial do dito adolescente (esse código de vestimenta que é um porre), eu me lembro como era esconder meu corpo por debaixo daquele tecido quente mesmo arriscando uma desidratação básica ou insolação ao me encapuzar com camadas de tecido para manter meu corpo intacto dos olhares dos outros. 

Porque o olhar do outro incomoda, rasga qualquer tecido, o julgamento, o desejo, a repulsão, a comparação (essa me foi a mais desesperadora possível no padrão do binarismo de gênero), a submissão. 

Essa última que mais me aborrecia, internamente eu não suportava a ideia mínima de que meu corpo serviria para alguém além de mim mesme.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

padronização de mariposas


E o padrão persiste. 
Por alguns segundos prendo a respiração, é o que posso fazer sem causar nenhum distúrbio perceptível. Uma parte é querendo que aquele sentimento não suba do diafragma pros pulmões, traqueia, garganta, língua, solta respiração, devagar, sem pressa.


Pode ser a ansiedade, não é. 
É outra coisa.


O sentimento desce, ralo, digerido, liquefeito em uma emulsão viscosa, devagar, inundando os poros, afogando células, dando de beber a pensamentos nada ortodoxos para a hora.

Disfarça, olha pro relógio, nem de tarde ainda. 

É pra se ter esse tipo de devaneio a essa hora? 
Tem hora pra devaneio? 
Está sendo impróprio, invasivo, simplório? 

Respira de novo, devagar, não deixa subir outro acesso, alguém pergunta: "Cê tá bem?" - oh e como! 
A sensação - lida em algum livro decano empoeirado em alguma estante - é de euforia. 
Das brabas. 

Aquelas que dá voz de perdição eterna em inferno cristão. 
Parece que não acaba nunca. 
E também não volta a acontecer sem antes ter esse padrão.

Padrão besta.

Pode ser um sorriso no meio da multidão, um olá tímido, uma mensagem qualquer no meio da tarde. (Ainda é tarde?! Pode pensar nesse tipo de coisa a essa hora?) 

E pimba! 
O que não existe, acontece. 
O que nem devia funcionar, funciona.

Borboletas no estômago, dizem. 

Prefere mariposas no baço, porque por estudar muito a língua dos intelectuais acabou adotando muito deles pra si, e borboletas são horripilantes com suas transformações hediondas. E como volta e meia seu baço dava sinais de vida (morto-vivo) era ali que mariposa, ínfima que fosse, pousava e era duplicada  a cada breve sorriso no meio da multidão.

Que padrão besta.

Fez ao mapeamento disso, pra entender melhor, pra não se deixar cair na mesma armadilha, para não sentir coisa alguma, conhecer o inimigo antes de atacar. Ser hipócrita, ser feliz com o que tinha, ter menos empolgação e mais responsabilidade.

E o padrão seguia. 

O sorriso na multidão virou conversa no meio do hall, do nada, assim como se não quer nada, aquele papo furado que não leva a nada. 
E mais mariposas produzidas em velocidade da luz. 

A luz que nem vinha de dentro, mas uma placa de neon luminosa e tentadora.

O sorriso é o mesmo (e como não reconhecer aquele sorriso tão expressivo?), a voz é mais calma e puxando algumas vogais que lembrava (Lembrar? Devanear é o termo no manual grosso da academia), uma pergunta aqui, outra ali, comoassimnaosabiaqueeradetalescolaeformadaemtalclasse?!

Muita emoção pra pouco tecido cardíaco.

As mariposas que estão já circulando pela corrente sanguínea não dão trégua, a próxima frase sai gaguejada, um grupo em especial se debate entre o pescoço e as maçãs do rosto, nunca sentiu sua cara ficar tão quente sem ter febre. Mariposas no baço com padrões óbvios de fazer passar vergonha por demonstrar demais. Acerta o compasso dos batimentos acelerados (desde quando tem corrente e ritmo ali?! Malditas mariposas?!), pede licença, precisa de ar, a reação primária voltou com toda força, desafiando gravidade, chegando de supetão, acertando um dos ouvidos em cheio, um deles entope e ouvir se torna difícil.

Apenas o ecoar do sorriso lindo em papo furado no Hall. (Sorriso tem som?! Por favor, que não esteja sofrendo de sinestesia a essa hora da tarde?!)

Lava o rosto queimando sem razão. 
(Porque a Razão, a Razão dos intelectuais não explica direito essas coisas sem teoria complicada e química e leis da reprodução. Tem um termo para isso naquele manual de anatomia que insistem em ignorar. Há também instruções naquele trambolho. Bem breve, mas certeiro na descrição) 

Lava rosto de novo.


A queimação vai descendo, rosto, queixo, garganta, traqueia, pulmões (tá difícil de respirar direito aqui desde quando?), diafragma, um soluço, alto, incontido, segura o ventre esperando que a sensação vá embora, não vai.
Maldito padrão besta.

Um gole generoso de água gelada, substituindo a sensação calorosa e pecaminosa por outra mais incômoda. Lutar contra as próprias vontades é um esforço em vão quando se tem a pessoa que deseja tão perto, mas tão longe do toque. 
(e não vai acontecer, não não não não precisa acontecer, por que raios acontecer, tá ficando biruta? Quais são as possibilidades de...?)


Volta com menos certeza do que quer e o que o corpo quer. 
Devaneios impróprios não contam mais aqui. 
Tenta reagir naturalmente, tudo tranquilo, tudo profissional, não tem motivo algum de...


Uma das mariposas, esperta que só ela, finca as patinhas peludas insectoides no músculo de bombeamento governado por quatro cavidades, sim, aquele órgão amorfo que não faz diferença alguma quando você não está vivo para senti-lo, mas agora? Agora que decide funcionar?!

O inseto imaginário fica ali, esperando o momento certo, para avisar a seus comparsas que na próxima conversa de corredor, no próximo aceno, no próximo sorriso, vai ter milhares ali lembrando que a vida continua mesmo se tudo aqui dentro parece arruinado, destruído e contaminado.

Maldito padrão besta.

quinta-feira, 23 de março de 2017

os filtros de culpabilidade para o sistema limbico foram atualizados

Clica cá [x] pra entender o que um filtro de sonho faz energeticamente na sua vida.
Assim como esse instrumento de origem mística para manutenção de desejos do subconsciente (culpa o chato do Freud, ele que veio com essa dos sonhos), a vida de adulto - chata por sinal - precisa de alguns cuidados com sonhos acordados. Como por exemplo, manter a sanidade em ocasiões em que o senso geral das pessoas em volta estão fora do padrão - sóbrio, comportado, agindo de forma polida e sem atrito argumentativo. O sistema límbico agradece.

O que ando tendo mais dificuldade por conta de um ser miserável alojado entre o manipura e o svadhisthana que insiste em responder perguntas externas com divagações nada adequadas para a normalidade. Às vezes uma pergunta inocente pode nem passar pelo meu eu tradicional, boboca e contido, ir direto pra caixa de mensagens do bendito e a resposta resultar uma falha vocal ou um atropelo de palavras apressadas pra disfarçar o nervosismo. Em tese era pra dar uma resposta correta e socialmente aceitável né? É o protocolo. Mas aí quero responder algo indevido, insinuante e com terceiras intenções.

Mas não pode, porque status quo é uma ferramenta castradora tão bacana que você mistura com a culpa de sentir aquilo (sim aquilo mesmo) e não poder transparecer sua opinião verdadeira sobre...

A pergunta básica e trivial: "Como vai passar o feriado?" - poderia ser muito bem dialogada com algo igualmente trivial. Vou dormir, vou estudar, vou ser responsável academicamente porque é isso que paga o meu feijão na mesa. Mas não, o ponto de intersecção quer responder: "Na cama, com você de preferência, de conchinha, sem roupas" - mas não pode. Óbvio que não pode. Quem em sã consciência iria dizer isso situação dada? Você responderia isso no meio da rua? No ponto de ônibus? Na fila do supermercado?

Que assunto óbvio, pelamoooooor!! Alguém indaga indignado por estar tratando de uma apresentação mais direta sobre como uma pessoa extremamente tímida, sem prática nas artes de sutileza e sedução (pelo que já ouvi, precisa de expertise e altas skills pra chegar em um ponto aceitável socialmente) precisa parar e se auto questionar de vez em quando. Pode não parecer, mas a vida aqui atrás do muro de concreto firmado pra não sofrer dano por diversos tipos de humilhação, admoestação, acusação, distorção de fala, costuma ser uma guerra civil.

Ser sutil nessas horas é impossível, eu já nem sei mais como fazer isso sem querer planejar falas e as saídas de emergência pra algum tipo de furo. Plus, pessoas ditas socialmente normais, aceitáveis, conforme a padronização não estão acostumadas a ouvir esse tipo de resposta e ter uma reação boa. Na verdade, elas não querem ouvir isso dessa forma. O que é uma pena, porque não encontrei outra forma em que me deixasse confortável para me expressar.

Convidar para um café? Um passeio? Ouvir música alta? Estudar e discutir sobre algum autor maluco? Não pode ser mais simples? Na minha cabeça de melão sim, ter a coragem de falar é que não, por conta desses fatores todos ali descritos.

Ainda mais quando há diferenças de hierarquia, geracional, os idealismos de como introduzir uma conversa direta sobre essa situação. Por Odin de saias, tem a problemática da não aceitação em estar com alguém trans+. E tem a culpa. Essa maldição herdada da sociedade patriarcal ocupa um espaço enorme nessa hora.

Culpa de querer desejar, de se querer ser desejade, uma culpa extra por deixar o corpo (consequentemente as emoções) controlar o racional e bota mais uma pitada da culpa capital pela luxúria acima do socialmente aceitável que já fui repreendide algumas vezes. Tem culpa em tudo aí, dilema barroquista do pecado versus redenção. 
(mesmo eu já sabendo que tenho carteirinha VIP em qualquer opção de inferno ou tormento eterno pregado por alguma crença aí - construtos ideológicos para sufocarmos essa sensação de que se reproduzir sem a expectativa de produzir descendentes e apenas em busca de prazer)

Os golfinhos sabem bem o que estou falando
(E eles serão os primeiros a irem embora da Terra, cês sabem)

Então, o que vou fazer no feriado mesmo? 
Negando mais um pouco desejos reprimidos e oportunidades de novas experiências com quem gostaria de mapear o corpo com os meus lábios. 
(E não pode. Não pode.)

Oh! Artigos! Tenho uma montoeira deles pra ler e escrever um!

(A repetição da frase "aceitável socialmente" para fins educativos. É pra grudar na cachola e não sair, tá?)

domingo, 14 de agosto de 2016

canned heat?


Começando o post com um gif nada a ver com o pensamento racional em que tento me pautar para escrever, mas que com certeza tem tudo a ver com o que meu corpo tá querendo extravasar.

E como a vida é cheia de disciplinas, normas, padrões, legislações e bastante, mas bastante cuidado aqui na conchinha do Gary (meow meow), às vezes acontece de um comportamento escapulir do modo "normal" de atividades.

Obrigada meus pais por me conceberem em dezembro/janeiro para mamys me parir em setembro, Virginianxs são criaturas adoráveis quando domesticados e ainda mais quando esse processo é mediado por um sociedade altamente preconceituosa, que pressiona padrões de comportamento tão f****** para a gente interpretar como deve que chega em certas situações em que o corpo fala mais alto que a consciência.

E aí tá o dilema de qualquer virginianx que se preze: a gente NUNCA deixa o corpo/coração/emoção vencer. Podemos dar o braço a torcer em situações de risco pessoal, para o auxílio de alguém, mas para satisfazer algo que está remoendo nossas entranhas e só sossegará se tiver esse ato egoísta terminado? Nope. Vai ver que é por isso que nos chamam tanto de chatos.
E somos, não vou mentir, eu gosto de ser chatx, porque isso me torna uma pessoinha muito, mas muito feliz em sacanear com todo mundo que encontro e não consegue se controlar em instintos básicos. Aí a coisa vira quando a situação acontece com você mesmx.

Debaixo do link tem coisas que me sufocam já faz um bom tempo. E dessa vez são da parte física.


terça-feira, 5 de julho de 2016

as categorizações que me matam

Vou começar a problemática trazendo o incrível, maravilhoso e awesome sauce da minha vida queer, além de ser minha inspiração automática em tudo que faço na vida. A minha terceira avó.
(Para referência, havia uma comunidade no Orkut com o título David Bowie é a minha terceira avó com ele vestido de avó, mesmo)



 - Você é homem?
 - Ultimamente sou um alien, tipo Superman, só não vim de Krypton.
 - Você é bichona.
 - Olha, adooooooro, obrigada, mas a única coisa agora é: véi, devolve o livro que cê tá desde começo do mês? Tem coleguinha na fila querendo ler e você nem pra devolver?
 

Estava ouvindo isso com mais frequência que o imaginado (o recorde estava na infância). São falas de crianças com menos de 10 anos, que visitavam diariamente a biblioteca onde estagiei. Ao me deparar com isso, o meu choque era apenas interno, aprendi a fazer egípcia, strike the pose and Vogue. O que poderia me desmantelar emocionalmente há anos atrás, agora chega a ser trivial. Sou bicha? Sou. Vou fazer o quê? Eu sou bicha, tá tudo certo pra mim. 

O fogo de pesquisar intensamente sobre um assunto é que você acaba descobrindo muito sobre si. Here is the thing: a forminha em que fui moldada era de aço reforçado, mas uma coisa que me faz derreter que nem manteiga é quando certas teorias se aplicam certeiramente em algo que lá dentro já desconfiava desde sempre. Talvez essa parte minha de sempre questionar primeiro e depois ver se a prática pode ser aplicável me deixa em umas posições de não-posicionamento.

Isso tá aflorando teoricamente com todo rebuliço que a graduação está causando em algumas perspectivas engessadas, algumas bem bem bem forma de aço puro, sabe? Estudar com outras mentes fora do padrão comum de sintonia com o mundo é gratificante às vezes, mas dá nó na cabeça, acredite.

Debaixo do link tem rebeldia bowieana, muita autopercepção e tchanan, me identifico como não-binárie!
(E sim, ainda tou acostumando em usar pronomes, artigos neutros nas postagens, adequação linguística tensa!)

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