Pesquisando

sábado, 7 de abril de 2012

Confissões de graduada de Letras - parte 1

Momento confissão de graduando em Letras modo on:
(Especialmente para a Cleonice Machado ler e verificar se ocorreu mesmo na mesma esfera de Realidade dela)

Quando eu fazia Disciplina Isolada na UFMG - há uns 3 anos atrás, quando era empolgada, quando achava que estudar de tarde seria ideal, quando as obrigações sociais de se ganhar dinheiro e se sustentar não pendiam sobre meu cocoruto - e morava lá na Roça Vilarejo Brejeiro de Betim, eu precisava sair algumas horinhas antes para enfrentar trânsito e alcançar o Antro Vil e Maléfico de Cthulhu (Um dos) uma vez por semana para fazer essa Disciplina intitulada: "Seminários de Teorias Narrativas – Narrativas e espacialidades."

Mal sabia eu no que me metia.



Além do nível de leitura lá ser MIL VEZES mais acentuado do que em minha graduação na PUC-MG, havia autores da Literatura Moderna desconhecidos nos círculos. A vida era um verdadeiro festival de checagem de Realidade. Mas bem, quando eu chegava mais cedo em Belo Horizonte, ficava ali nas Americanas da Av. Afonso Pena pra lanchar alguma coisa e comprar chocolate para as 4 horas seguintes + algumas coisinhas para viagem de volta. Era bom, era ótimo, o clima lá dentro era perfeito pra estudar e a padaria sempre saía pão quentinho na hora em que eu chegava.

Lembro nitidamente de estar em uma das mesinhas da Padaria e tentar entender como alguém pode querer estabelecer uma relação compreensível entre os Filmes BABEL (Sim com o Brad Pitt e a Cate Blanchett), ALIEN (O 8º passageiro), 2001 - Uma Odisséia no Espaço e... E os contos "Feliz Ano Novo" e "Passeio Noturno" de Rubem Alves. É, pedreira assim mesmo! De esculachar tudo que você acha que conhece, mas nem sabe 5% disso.

Mas voltando a Padaria das Americanas na Av. Afonso Pena e meu hábito de ler algumas coisas antes de ir para o curso. Estava com a pasta aberta com o o autor Ivo Lucchesi - que pesquisava a Literatura Moderna em Walter Benjamin (E sério quianças, quando esse nome aparecer: FUJA! FUJA BEM RÁPIDO!) e seriamente pensando em desistir da minha vida e voltar para casa, porque é incompreensível. Mesmo! Tudo corria no completo desespero costumeiro, até um senhor engravatado sentar na mesa onde eu estava, com um misto quente, guaraná no copo e me lançar a pergunta que nós estudantes de Letras adoramos ouvir:

" - Você estuda Letras mesmo? Pode esclarecer uma dúvida?"

Como muitos conhecem, às vezes sou sociável, às vezes não. Nesse dia eu estava mais preocupada com a ocorrência de Agentes Smith entrarem pela porta das Americanas e me caçarem por estar conectada na Matrix, mas não acreditando nisso, então educadamente respondi que sim. E o questionário de perguntas gramaticais começou.

Óbvio que o senhor engravatado deveria ser do Direito e óbvio que ele sabia as respostas para as diversas perguntas sobre concordância verbal/nominal, sintaxe, e outros apetrechos da Gramática Normativa Brasileira. E quanto mais ele perguntava, mais nervosa eu ficava porque a minha educação exemplar não me deixa falar um simples: "Dude! Tou nem aí pra Gramática Normativa! Vai consultar nos livros, poxa!" e deixei o velho falar e achar que estava abafando por saber tanto de Gramática Normativa. Os minutos que pareceram horas terminaram com um discurso muito velado sobre como os jovens da sociedade de agora não davam valor a nossa amada Lingua Pátria, que os professores não estavam preocupados mais em repassar esses valores, que o meu curso não valia coisa alguma perto das Escolas de antigamente e singelamente ele me taxou como burra por não saber Gramática Normativa como ele.

Ótimo, Agentes Smith, se quiserem entrar agora, podem. Uso o velhinho do Direito como escudo humano, não me arrependerei.

Se ele tivesse saído apenas com isso, essa de me humilhar propositalmente com a parte mais chata do Curso - e que não fiz questão alguma de reaprender porque EU SEI que não me servirá em 80% de minha vida na Literatura e eu tenho consciência disso (Aprendi escrever direito, ESCREVENDO não consultando regras gramaticais de livros!) - ele teria um ótimo dia para se sentir o cara mais culto de Belo Horizonte. Ótimo! Só que aí ele me perguntou o que eu estava lendo...

Eu, nada esperta, passei o texto do Lucchesi pra ele (Walter Benjamin, lembra? Corra? Corra para as Montanhas?) e expliquei parte da Ementa do curso que eu estava a ir daqui algum tempo. Ele ficou me olhando o tempo todo como se eu fosse um alien, mas o mais importante, ele entendeu que o showzinho de antes não fazia parte do meu universo literário. Ele terminou o misto quente, pigarreou e se levantou, apertou minha mão e disse: "Você é professora?" e eu: "Não, não. Pretendo sempre ser aluna.", ele ajeitou o terno cinza, deu aquela olhada constrangida ao redor e saiu.

Já eu fiquei ali por mais alguns minutos digerindo minha epopéia estomacal e voltando a minha atenção para o texto ferrado. O engraçado é que muitas vezes que voltei lá nas Americanas no mesmo ritual da quinta, ele estava em outra mesa, e nunca mais se sentou ao meu lado. Vai ver que ele entendeu que a presença dele não era lá tão agradável, vai ver que ele ao ler o texto ferrado viu que minha Realidade era totalmente bizarra e estranha pra ele entender, vai ver que ele se arrependeu de dar uma de Pasquale na minha frente ao perceber que nem todo Estudante de Letras quer ser um Gramatiqueiro ou Advogado de Sintaxe. Pra isso já tem livros demais por aí, pra isso tem gente demais por aí.

Eu lembro disso perfeitamente hoje, porque foi a prova de fogo após a graduação. O de encarar o pensamento arcaico (Que amo tanto, mas não o protejo de jeito algum) vir de frente e acabar virando farelo por não se adequar a essa atualidade. Por incrível que pareça o texto ferrado me fluiu com mais facilidade após isso e até encarava um livro do W. Benjamin se fosse preciso.

Mas a lição da coisa toda foi: Eu não sou um Dicionário/Gramática ambulante.
O mais importante: Há realmente pessoas especializadas a enaltecer esse tipo de masoquismo linguistico e cultural, eu não faço questão alguma e não recomendo.

O que desencadeou a reminiscência foi ter visitado uma comunidade daqui com respeitável número de Estudantes de Letras e a maioria das fotos postadas é sobre erros ortográficos e gramaticais. Peraê? Vocês praticam esse culto as palavras também?! Se tem gente nas Redes Sociais que escreve "errado" é por culpa de um sistema educacional falho, uma estrutura familiar inexistente e provavelmente a negligência de manés como o tiozinho de terno cinza que veio me incomodar com isso.

A porcaria da Ementa da Educação de agora não é mediar o conhecimento do aluno com diferentes propostas e visões de mundo? Não é de julgar o aluno pela escrita, mas sim pelo conteúdo apresentado? Porque eu não ligo de ler textos com erros ortográficos e estarem muito bem coerentes nas idéias. Deu pra entender a mensagem? Então tá valendo dependendo do contexto. Não vou cobrar linguagem culta em Mural de Facebook se entendi o que o camarada queria dizer.

Ao invés de condenar o sujeito pela sua escrita, vai lá e tenta adequar ele ao sistema gramatical de nosso país, vai? Tenta chegar na boa e salvá-lo do preconceito linguístico que ocorre o tempo todo com algumas liçõezinhas vindas direto da Gramática Normativa. Tenta e me fala como é.

(Ou faz ele criar o hábito de leitura e escrita para aprimorar o vocabulário, isso com certeza não machuca ninguém.)

Ps: A relação entre os filmes e os contos do Rubem Fonseca: Espaço Confinado. Me pergunte como fiz o material final da disciplina? Foi com RPG - Mundo das Trevas - quer local mais confinado que esse cenário?