Pesquisando

quarta-feira, 24 de maio de 2017

assim do nada, de novo progenitor dá notícias

Tenho poucas lembranças do agente progenitor que ajudou a fecundar o feto onde me criou. 

O mais engraçado é ter notícias dele de tantos em tantos e não sentir absolutamente nada pela criatura. Talvez sinta, tou aqui desperdiçando tempo escrevendo sobre ele, mas é válido devido ao objetivo desse blog - preservar a minha memória intacta até certo ponto?

Ele não foi um pai exemplar conforme minha memória relembra, nem lembro dele estar junto da família quando era em momentos decisivos. lembro de flashs assim aos 6-7 anos de algumas manifestações, uma influência que sei que ainda vou ter que correr atrás pra saber o que raios é (Tem a ver com a espiritualidade e ancestralidade da família paterna), uma caixa de Lego dada no aniversário de 6 anos - ao invés de uma boneca ou carrinho, obrigade velhote - fins de semana bem nublados na Tiago da Fonseca, nunca vi alguma demonstração de amor com a minha mãe, presenciei brigas violentas com a minha irmã mais velha.

Então entre tantos fragmentos, tenho as recordações que o cérebro cata do exterior para formar alguma opinião sólida do cara. Em um post do ano passado o encontrei no centro da cidade para conversar sobre umas pendências, não tem como não ter isso, o cara tá velhaco, eu tou ficando também, às vezes tentar entender o que se passa na cabeça do ser humaninho que financiou sua vida ao mundo faz bem, mas o cara é uma incógnita.
O que incomoda, e aí o motivo da postagem, é o não lembrar. Não ter uma memória sequer construída nem que ficcionalmente para encaixar o caboclo na minha timeline. Tudo quase se resumia a estar com minha mãe ou irmã, ou sozinhe mesmo, por que não? O não lembrar te dá liberdades com certas atitudes, como a de não dar a mínima de como o próprio pai se encontra de saúde. Ou de querer mais notícias dele quando aparecem. Sinceramente ao passar pelo centro histórico e observar a quantidade de gente sem teto, não sinto aquele friozinho na barriga alertando que algum dia ele teve que ficar dessa forma, não conheço o cara, as motivações, as ideias (Tá, Jesus é nosso Rei e Salvador, isso não conta!), os sonhos, só os fracassos dele com a gente. E os silêncios. E o que NÃO fazer quando virasse adulta.

Incomoda o fato de não haver lembrança suficiente até para não gostar da presença dele ou sei lá, ter algum tipo de afeto - mesmo que ruim - pelo camarada. Não sei se queria que fosse diferente, até porque o diferente parece piada ou fatalista demais.

Tudo bem encontrar um sentido de viver que seja para fazer o bem, ótimo, lindo, maravilhoso, encontrar Jesus, ver a luz azul, insistir nos mesmos erros, continuar magoando as pessoas que supostamente devem amar ele, isso não tá coerente. Parte da minha vida de adolescente foi negar que ele existia - ele não tava mesmo ali, o que que iria fazer? - na adultice fazer o esforço de entender o mecanismo de funcionamento, nada até agora. Essa ausência de explicações ou de respostas afetou muito o modo de ver o mundo (Não tenho respeito algum por figura paterna) e de praticar aquela velha amiga chamada alteridade.

Tem hora que não dá.

(Oh flash news: Jesus não salva das burradas feitas na vida, pode ter certeza disso.)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

[bibliotequices] essa tal representação de categoria

Vamos lá falar de representação de classe/categoria, amorzinhos? 
Vamos, porque em tempos como agora tá precisando.

Taxas de anuidade de registro profissional (sendo cobradas em parcela única) com suas variações:
(Usa o Google e digita taxa anuidade *insira sigla do conselho regional aqui* - faz bem pra sua vida biblioteconomística)

OAB (Advogados e lalala): R$ 963,90
CFM (Médicos): R$ 712,00
CREA (Engenheiros e lalalala): R$ 639,33
CRF (Farmacêuticos): R$ 512,81
CRECI (Corretores de Imóveis): R$ 591,00
CRP (Psicólogos): R$ 479,14
CORECON (Economistas): R$ 464,00
CRB - (Esse é o NOSSO!!): R$ 425,96 
CRA (Administradores): R$ 401,00
COREN (Enfermeiros, Técnicos, Auxiliares e Obstetrizes): Varia entre R$ 173,50 e R$ 300,13

* Até onde eu sei, professor/docente não tem Conselho Regional, pagar o Sindicato é o que vale, é isso produção? 

E eu poderia ficar a noite toda aqui listando as anuidades, maaaas decidi colocar essas pra gente comparar com o que algum dia pagaremos (Do tipo: "nossa como o tempo passa rápido, amanhã me formo, como assim?!"). Percebam que os listados são todos profissionais que a CLT chama de "liberais", gente como a gente. Sabe, os de cunho humanístico e talz? Bem isso.

Aí existe um órgão que cuida dos profissionais liberais (OMG não diga?!), o CNPL que abrange sindicatos, e outras entidades de representação de categoria. A FEBAB não tá, não há Sindicato de Bibliotecários em Santa Catarina, muito menos uma entidade intersindical para dar conta das demandas (Urgentes, btw, tem uma lei pra ser cumprida em menos de 3 anos, sabe?).

Então antes de ficar de mimimi que entidade de base só sabe levar teu dinheiro embora, não faz nada por você e lalala, notícias lindas e super atualizadas: quando você tiver pagando sua anuidade de registro profissional em qualquer lugar que seja, não é pra dar dinheiro pro bolso de alguém, é pra uma galera toda garantir que seus direitos vão ser respeitados - e sim, quiriduns, vocês tem TOOOOODO direito de cobrar esses direitos de quem deveria garantir seus direitos.

Aí tem uns panaquinhas dizendo que tem que acabar com essa de pagar sindicato. 
Ok. 
Vai lá falar com teu chefe que a poeira do acervo no arquivo onde você trabalha fez você contrair uma doença respiratória, pois não te ofereceram nenhum tipo de EPI, nem treinamento. Ou negociar com a chefia a contratação de estagiários, porque você não aguenta mais fazer além e muito mais das 6/8 horas de serviço, porque bem, a biblioteca tem que ficar aberta o dia todo, né? 
Oferta e demanda. 
Tenta então discutir com a prefeitura municipal de sua cidade que receber 2 salários mínimos com condições de trabalho que beiram ao impossível não é uma opção viável para trabalhar com dignidade.

Vai lá, fera! A Força está com você! #SqN

Bibliotecário sofre disso todo fucking dia ou pior, porque não tem ou não sabe querer/ter representação. E não venham dizer que "não gosta de política", amigolhes, cês tão na Biblioteconomia: tudo aqui é política, querendo você ou não.

Por que a gente precisa de representação de classe?
Pra fazer valer as leis que nos garantem dignidade em trabalhar
Por que a gente precisa disso?
Pra ninguém pisar mais na gente como faziam antes e continuam cismando de fazer mesmo com as regulamentações aí afora.
Por que a gente tem que fazer VALER as leis?
Porque ninguém vai fazer isso pela gente e começa nas entidades de base, é lá que vocês precisam atuar e se inteirarem mais das discussões trabalhistas da profissão que escolheram.

(Será por que OAB e CFM como as anuidades mais caras?! Coincidentemente quando esses caras param, o país para junto, né?)

Mais coerência nas ações do que beleza nos discursos, sim?

sábado, 20 de maio de 2017

os altos e os baixos


Que maravilha, a euforia de volta! 
É um puta ciclo infernal de altos e baixos


Para melhorar a situação, minha cabeça tá funcionando no overdrive, maaaaaaaas produzindo melhor e com mais sociabilidade. E por que por que por que?

Porque Platão era um babaca e externou a teoria que rege minha vida. Seria mais suportável se eu não soubesse de nada e que ficar na ignorância é mais válido que ter os instantes de euforia maravilhada para então balançar a cabeça em um momento de racionalidade fatalista e dizer:
"Que m****. De novo não."


Mas como a sorte foi inventada pelos loucos e os poetas são sortudos por conseguirem ficar nessa euforia por mais tempo que meros pragmáticos idiotas, lá vem de novo. E se tou cantando música pop dos anos 90 não é só por nostalgia. É cômico, deprimente, trágico e deveras desnecessário, mas hey Platão querido, cê não era o piorzinho do rolê não, tá? 

Tinha aquele teu aluninho ordinário. 
E ele tinha uma visão de mundo bem pior.






[contos] exaustividade

Título: exaustividade (por BRMorgan)
Cenário: Original/Cotidiano, Nova Orleans.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.350 palavras.
Status: Incompleta.
Personagens: Joanne Ulhoa.
Resumo: Sem resumo. (editando um rascunho velho aqui, a ideia veio no busão, tou botando tudo na fila...)
Disclaimer: Mais sobre Forgiven Jojo Ulhoa tá aqui nesses links [x] [x] [x] [x]

Abriu a geladeira. 
Abriu novamente. 
Mais outra vez para ter certeza. 
Gelatina, mingau no pote, a janta de horas atrás, um suco de caixinha pela metade. 
Atacou o suco e o purê da janta. 
Não botou no micro-ondas, recolheu um talher na gaveta, lavou o objeto 3 vezes (pra ter certeza mesmo que estava limpo), enxugou com folha de papel, não o pano de prato imaculado ali perto. 
Enfiou o garfo devagar na pasta fria. 
Mastigou sem emoção alguma. 
Engoliu. Repetiu o processo. 

No sofá a figura encolhida de uma criança com grossas cobertas em volta do corpo, cabelos escapando por um buraco onde também saía um braço. Ao alcance da mãozinha, um gato igualmente ferrado no sono estava ali de prontidão, apenas esperando um movimento da mão para receber carinho da dona.

Piscou algumas vezes. 
Hoje era quarta-feira. Pelo que o relógio dizia era um começo de quarta que não gostaria de ter começado. 


sexta-feira, 19 de maio de 2017

sem reação


Pela primeira vez na estória de amor com a graduação na Biblioteconomia fiquei sem ação para falar bem do curso. 

Não era falta de empolgação. 
Eu amo esse curso, tanto, mas tanto que protejo o bendito com unhas, dentes e chutes baixos.
Mas não dá. 

Quando alguém pergunta como é o curso pra mim agora, vou falar a minha impressão total sem censura e cortes de classificação indicativa. A tendência não é piorar, é virar outra coisa. E nomenclaturas são um perigo, gente. Porque nomenclaturas categorizam e taxam e inibem e forçam padrões.

Quero ser otimista e pensar que daqui alguns anos haverá um corpo docente unificado e disposto a trazer mais humanidade pra quem sai daqui, mas não creio que vá acontecer tão cedo. 

Por isso tou pulando fora do barco na pós. 
(Se o mundo não acabar antes, se eu não jubilar, se não haver um apocalipse zumbi, se, se, se vários ses...)
Por mais que seja incrível contribuir com a comunidade em que te proveu experiência em uma graduação que era meu sonho concretizado, não suporto mais ver/interagir com certas situações desnecessárias. Pessoas desnecessárias. Picuinhas desnecessárias. 

Produtivismo e pouca humanidade. Isso tá rasgando um corte de lâmina cega na minha paciência e no meu ego (e não mexe com essas duas coisas que virginiane NÃO sabe lidar com essas coisas sem surtar ou cometer algum crime capital). É sem reação que consigo responder alguma coisa para a pessoa que quer retornar ao mundo biblioteconomístico. É sem reação que fico, segurando aquele bolo debaixo do diafragma, pressionando o baço, pronto pra expelir bile amarela e dar a real: se for pra ficar com traseiro sentado no funcionalismo público e não contribuir em nada pra sociedade, vai pra outro curso. 

Aí percebo o quanto meu level de comprometimento com a profissão chegou ao ponto alto, porque essa porra tá me dando uma visão unilateral do todo. Mesmo eu sendo a criatura dos relativismos, dos talvezes, dos "cada história tem 3 lados". E já vi o que acontece com as pessoas que chegam nesse estágio de pensamento unilateral. A gente fucking cansa. 

Sinceramente cansei quando não vi mais aplicabilidade da teoria da aula nos lugares onde estagiei. Atuar no Museu foi o estopim, estar em um ambiente interdisciplinar mostra o quanto não valemos muita coisa, não quando a vontade de querer ser alguém que contribui beneficamente pra área de conhecimento em que quero habitar está deixando claro que pessoas como eu não deveriam estar ali. 

Produtivismo e androides. 
Quem produz mais. 
Quem tem mais estrelinhas. 
Quem é mais citado. 
Quem traz dinheiro pro lugar. 
Quem é a autoridade. 
Quem sobe na cadeia alimentar dos glutões pelo poder frustrado. 

Não sou obrigade a aguentar esse discurso por muito tempo, não quero ficar amarrade em uma pós graduação que me cobra pra ser eficiente com metas institucionais e não enxergar que ali do lado tem uma biblioteca comunitária precisando de alguém para viabilizar cidadania. Não sou obrigade a compactuar com esse ideal mercantilista de validação acadêmica. Não foi pra isso que assinei a papelada de retorno de graduado. Não foi pra isso. 

Espero que a pessoa saiba por fontes mais fofuxas e agradáveis sobre o quanto o curso pode contribuir pra vida das pessoas, qualquer pessoa, espero mesmo, mas tou pedindo pra Dewey, Rangs e Otlet pra não me perguntarem o que acho do curso de Biblioteconomia da universidade que não irei citar o nome por questões de puro sarcasmo intencional. 

A resposta não vai ser bonita. 

E Rangs abençoe pra eu não virar essa veia coroca de coque na cabeça, dedo em riste na frente dos lábios e pedindo "xiiiiiiiiiiu!".

aqueles assuntos pra fazer chorar


Acompanhava o AfterEllen quando era bom, bem escrito e feito por um staff inteiramente queer. Hoje fico com o Autostraddle porque é a única opção viável de informação LGBT lá de fora que possa me ajudar com algumas coisas. Poliamor é uma delas. 

Toda vez que leio um bendito artigo, eu tenho uma vontade danada de abrir um buraco, bem fundo, e me enterrar de baixo pra cima, em um ritual sistemático. A experiência inaugural não foi tão boa assim e óbvio que me deixou com impressões ruins do que poderia ser.

A concepção de um relacionamento em que pessoas pensam como indivíduos e não como casais, buscando intimidade e vivência com outras pessoas além do tradicional é algo tentador pro meu projeto anarquista de observar o mundo, maaaaaaaas infelizmente a vida real também me mostrou que pedras me ensinaram a voar. Isso mesmo.

Mesmo que o Poliamor seja de certa forma o mais razoável que entendo para pessoas se conectarem sem a cobrança bizarra da sociedade monogâmica, ainda travo com trocentas coisas, a comunicação por exemplo. O sistema de gestão da informação. A cisma dos papéis bem definidos e categorizados.

Creio que para chegar a um nível de decidir ser/estar em um relacionamento poliamoroso deve haver um entendimento bem mais elevado do que possuo - ou que construí socialmente nesse corpo em que habito - talvez na próxima vida consiga me encaixar nessa. Ou não.

Então na lista de assuntos que me fazem chorar amargamente, acrescenta aí não compreender bem Poliamor. E parar de ler artigos com essa temática, pelamoooooor.







terça-feira, 16 de maio de 2017

[bibliotequices] onde perdemos o diálogo?

Há uma década atrás na universidade dos Stormtroopers eu escrevia emails pra professores sem ter medo de ser informal, porque convivia com essas pessoas todos os dias, nos corredores, na Coordenação, na lanchonete minúscula do campus, e tudo e tal.

Tem um email de 2006 para um docente super bacana em que me explico o porquê de ter entregue o trabalho atrasado, de uma forma totalmente nada a ver, nonsense e nada convencional (Quem me conhece, sabe que quando tou empolgade, vou acabar fazendo alguma coisa que não é determinada pelo acordo tácito padrão, tipo: falar gírias, usar minerês, fazer piada interna, referência ao mundo nerd). A resposta foi na mesma intensidade de nerdice (E sim, deu pra entregar o trabalho, era latim, a vida não era legal com latim naquela época!)

E gif de péssima qualidade sim!! Porque a dancinha é clássica!

Me pergunto onde a gente perde essa sensibilidade e aproximação com quem nos dá aula todos os dias, se é por não conseguir quebrar aquela barreira invisível de um tá cá, outro tá lá, se é protocolo de Universidade Pública não deixar esse diálogo acontecer.

Talvez seja até da própria cultura acadêmica UFXQuiniana de haver uma placa de NÃO para conversar direito com os professores sem se sentir estranho. Ou intimidado. Ou violando algum código super secreto de convivência. Até o docente dizer abertamente que está de boas para dialogar.

Talvez pelo fato da Universidade dos Stormtroopers ser tradicional, particular e uber-conservadora (Olá, tou fazendo referência ao Império Intergaláctico aqui o tempo todo!) o diálogo acontecia por questões de cordialidade e por mais tempo dos professores no campus.

Talvez fosse numa cidadezinha brejeira no findemundéco de Minas Gerais, sem conexão de banda larga ainda. A tecnologia influencia nessas coisas! Vide o email citado ali em cima, totalmente informal, sem firulas acadêmicas. Hoje temos tecnologia na ponta dos dedos, mas sensibilidade e empatia? Muito difícil!

Talvez eu tenha ganhado um pouco de noção (???) e colocado o murinho invisível, é difícil dizer, mas é nítido ver como faz diferença quando o diálogo é aberto e honesto entre discentes e docentes.

Heeeeeeeeeey conversem mais discentes e docentes, ops ops ops!!

Porque aí a gente conhece o camarada, sabe? Entende o que raios ele tá fazendo ali e as motivações dele pra trabalhar, porque hey! Talvez algum dia eu queira também estar naquele ambiente, ensinando outras pessoas. O clima na Universidade - que não citarei o nome por medo de um Lorde Sith brotar do chão e me cauterizar com uma sabre de luz - era mais de parceria acadêmica (Tá, tinha gente que arrancava nosso couro, não vou omitir), até nos piores casos (Tipo aquela mudança linda de currículo em 2006, né?). Tinha picuinha, mas tinha diálogo, não backlash e desavença, silêncio e passividade. E isso fazia uma diferença danada na nossa forma de tratar o curso, de se identificar com o curso, amar o bendito curso.

Isso me chamou atenção, porque a gente passa 4 anos (Ou mais) no mesmo lugar, frequentando a mesma rotina e não sabe absolutamente nada da pessoa que tem a paciência de te dar aula, ou que vai dar aula algum dia.

É tensinho.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

le petit muerte

O problema não é a causa disso tudo. 
O problema são as pequenas coisinhas que matam.
Pequenas mortes.

O que mata é não poder ter seus dedos ficar entrelaçados nos outros dedos, em público não pode.
O que mata é não poder sentar ao lado de quem ama porque vão perceber, em público, que não deveria amar aquela pessoa.
O que mata é não ter escolha de palavras quando perguntam o estado civil, mesmo após anos de vivência, de rotina conjunta, de vidas entrelaçadas (como os dedos lá de cima).
Não é o grande problema que mata, mas são os pequenos, todos os dias, se repetindo em uma espiral de não-expectativas.

O que mata é a olhada de cima abaixo em como você se sente confortável sendo você mesmo. 
O que mata é a recusa de emprego por ser quem você quer ser, mas em público não pode
O que mata é a vergonha da família, do não poder falar
O que mata é o silêncio de quem tá junto e sofrendo o mesmo assassinato todos os dias. É o ninguém falar
O que mata é cada "Eu gosto muito de você, mas não posso ficar contigo", porque em público não podemos
O que mata é não esperar por mais nada, porque esperou tanto por algo inesperado na vida e ter nenhuma expectativa de viver aquilo novamente. 
O que mata são as contas das soluções paliativas médicas, dos atestados de sanidade, das terapias, dos medicamentos, das taxas a mais, da burocracia. Isso pode ir à público.

Isso que vai matando um pouco a cada dia. 

O que mata é outra vez não poder contar com ninguém quando a coisa aperta. Em público não posso.
O que mata é quando se convence disso é de que em público não pode
O que mata mesmo é ter um termo científico pra isso só esperando o momento oportuno - entre um diagnóstico caseiro, paranoico, atestado por autoridades e outros - para aparecer. 
O que mata é colocarem uma categoria em que não se quer ou se imagina encaixar. 
O que mata é aquela foda muito boa na noite anterior e se sentir sem vida pro resto do dia. Porque entre quatro paredes tudo pode, mas demonstrar carinho em público não pode
O que mata é saber que a foda não vai acontecer novamente, porque não vai haver mais do que aquilo.
O que mata é ver que ainda estão matando gente como a gente, porque em público não pode.
(mas matar pode, em público tá virando moda) 
O que mata é dizerem que é invenção da cabeça, modinha de intelectual, que é fase, que vai passar quando achar um padrão decente pra colocar no lugar. Essas coisas em público não pode
O que mata é não se ver em lugar algum. 
O que mata é ver que a mídia mata quem você acha que pode representar um pouco daquilo que você sente na maior parte do tempo. 
O que mata é não ter a ilusão de conto de fadas, nem de final feliz. É não sonhar mais.
O que mata é não poder passar os dedos nos cabelos de quem ama, nem que seja discretamente, em público não pode.

O que mata mesmo é ver isso acontecer há poucos bancos no ônibus para um lugar onde supostamente deveria (e se proclama) dar segurança de viver como sou. 
O que mata é ver isso acontecer enquanto um casal padrão normativo fazer isso e muito mais, bancos a frente, sem ser admoestado. Em público não pode. Eles podem.
O que mata é ver aquela fagulha ínfima de cumplicidade, de carinho, se tornar um olhar desconfiado ao redor e um sorriso amarelo para se explicar. Em público não pode.
O que mata mesmo é ainda ser obrigado a se explicar por querer dar carinho a alguém que amo.


O problema não é a causa disso tudo. 

O problema são as pequenas coisinhas que matam.
Pequenas mortes.

E como elas vão silenciando a gente, aos poucos, conta-gota, até a normalização ser habitual, o controle imediato, as ações de sobrevivência mais automáticas.

O que mata mesmo é isso. 
E em público não pode
Pro resto da sua existência miserável nesse planeta: em público não pode.

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N/A: Le petit mort é uma expressão francesa para conotar o orgasmo "a pequena morte", já muerte é uma alusão a Santa Muerte, a padroeira dos pobres, dos comerciantes ilegais e traficantes, e não tem nada a ver com prazeres.

domingo, 14 de maio de 2017

[conto com angie] como os pesadelos são construídos

Título: como os pesadelos são construídos (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.126 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Angie, personagem sem nome
Resumo: Filha dos Ventos tem uma história para contar aqueles que querem ouvir - como os pesadelos são construídos. E como eles tomam forma quando um feérico se aproxima demais deles.


'Dolina Śmierci do artista polonês Zdzisław Beksiński -  (Fonte: Carajaggio)
Tá preparado meeeeeeesmo pra ouvir essa? 

Já avisando que não pego leve quando é pra falar do meu assunto favorito N, ão tá 
Vai nessa mesma? 
Então senta esse traseirinho lindo aí no chão e me ouve. 

Essa foi de verdade mesmo, quando era um toco de gente, sem muita coisa aqui na cuca, cuca fresca, novilha, infante, bem assim mesmo, alcançando metade do joelho. 

Você perguntou se nós temos pesadelos, pois te digo. 
O tempo todo. 

E como são feitos esses pesadelos? Como pode a gente tão perfeito assim (foi você que falou, não tenho nada a ver com isso aí e a tua opinião) ter pesadelo? Ter medo? Nos sonhos a gente não se dá sempre bem? Não é isso que os poetas escrevem quando inspirados? Sócios de uma vida que não vai existir aqui? Pois te digo, papudo, a gente tem pesadelos sim e faz uns bem horríveis, viu? 

Quando eu era um tiquim de gente e não sabia quem era, os meus pesadelos eram como pequenos duendes chatonildos me cercando a cada passo que eu dava, me acompanhando em toda esquina que parava pra pedir esmola, entre cada dia escaldante debaixo do viaduto, entre os sacos plásticos do Posto 2, cada dentada em comida do lixo, cada engolir de água de chuva. Aí que eu fazia uns pesadelos bem fofuxos. 

É nesses momentos em que a gente perde a inocência pro mundo louco aqui fora, tem como não. 

quarta-feira, 10 de maio de 2017

padronização de mariposas


E o padrão persiste. 
Por alguns segundos prendo a respiração, é o que posso fazer sem causar nenhum distúrbio perceptível. Uma parte é querendo que aquele sentimento não suba do diafragma pros pulmões, traqueia, garganta, língua, solta respiração, devagar, sem pressa.


Pode ser a ansiedade, não é. 
É outra coisa.


O sentimento desce, ralo, digerido, liquefeito em uma emulsão viscosa, devagar, inundando os poros, afogando células, dando de beber a pensamentos nada ortodoxos para a hora.

Disfarça, olha pro relógio, nem de tarde ainda. 

É pra se ter esse tipo de devaneio a essa hora? 
Tem hora pra devaneio? 
Está sendo impróprio, invasivo, simplório? 

Respira de novo, devagar, não deixa subir outro acesso, alguém pergunta: "Cê tá bem?" - oh e como! 
A sensação - lida em algum livro decano empoeirado em alguma estante - é de euforia. 
Das brabas. 

Aquelas que dá voz de perdição eterna em inferno cristão. 
Parece que não acaba nunca. 
E também não volta a acontecer sem antes ter esse padrão.

Padrão besta.

Pode ser um sorriso no meio da multidão, um olá tímido, uma mensagem qualquer no meio da tarde. (Ainda é tarde?! Pode pensar nesse tipo de coisa a essa hora?) 

E pimba! 
O que não existe, acontece. 
O que nem devia funcionar, funciona.

Borboletas no estômago, dizem. 

Prefere mariposas no baço, porque por estudar muito a língua dos intelectuais acabou adotando muito deles pra si, e borboletas são horripilantes com suas transformações hediondas. E como volta e meia seu baço dava sinais de vida (morto-vivo) era ali que mariposa, ínfima que fosse, pousava e era duplicada  a cada breve sorriso no meio da multidão.

Que padrão besta.

Fez ao mapeamento disso, pra entender melhor, pra não se deixar cair na mesma armadilha, para não sentir coisa alguma, conhecer o inimigo antes de atacar. Ser hipócrita, ser feliz com o que tinha, ter menos empolgação e mais responsabilidade.

E o padrão seguia. 

O sorriso na multidão virou conversa no meio do hall, do nada, assim como se não quer nada, aquele papo furado que não leva a nada. 
E mais mariposas produzidas em velocidade da luz. 

A luz que nem vinha de dentro, mas uma placa de neon luminosa e tentadora.

O sorriso é o mesmo (e como não reconhecer aquele sorriso tão expressivo?), a voz é mais calma e puxando algumas vogais que lembrava (Lembrar? Devanear é o termo no manual grosso da academia), uma pergunta aqui, outra ali, comoassimnaosabiaqueeradetalescolaeformadaemtalclasse?!

Muita emoção pra pouco tecido cardíaco.

As mariposas que estão já circulando pela corrente sanguínea não dão trégua, a próxima frase sai gaguejada, um grupo em especial se debate entre o pescoço e as maçãs do rosto, nunca sentiu sua cara ficar tão quente sem ter febre. Mariposas no baço com padrões óbvios de fazer passar vergonha por demonstrar demais. Acerta o compasso dos batimentos acelerados (desde quando tem corrente e ritmo ali?! Malditas mariposas?!), pede licença, precisa de ar, a reação primária voltou com toda força, desafiando gravidade, chegando de supetão, acertando um dos ouvidos em cheio, um deles entope e ouvir se torna difícil.

Apenas o ecoar do sorriso lindo em papo furado no Hall. (Sorriso tem som?! Por favor, que não esteja sofrendo de sinestesia a essa hora da tarde?!)

Lava o rosto queimando sem razão. 
(Porque a Razão, a Razão dos intelectuais não explica direito essas coisas sem teoria complicada e química e leis da reprodução. Tem um termo para isso naquele manual de anatomia que insistem em ignorar. Há também instruções naquele trambolho. Bem breve, mas certeiro na descrição) 

Lava rosto de novo.


A queimação vai descendo, rosto, queixo, garganta, traqueia, pulmões (tá difícil de respirar direito aqui desde quando?), diafragma, um soluço, alto, incontido, segura o ventre esperando que a sensação vá embora, não vai.
Maldito padrão besta.

Um gole generoso de água gelada, substituindo a sensação calorosa e pecaminosa por outra mais incômoda. Lutar contra as próprias vontades é um esforço em vão quando se tem a pessoa que deseja tão perto, mas tão longe do toque. 
(e não vai acontecer, não não não não precisa acontecer, por que raios acontecer, tá ficando biruta? Quais são as possibilidades de...?)


Volta com menos certeza do que quer e o que o corpo quer. 
Devaneios impróprios não contam mais aqui. 
Tenta reagir naturalmente, tudo tranquilo, tudo profissional, não tem motivo algum de...


Uma das mariposas, esperta que só ela, finca as patinhas peludas insectoides no músculo de bombeamento governado por quatro cavidades, sim, aquele órgão amorfo que não faz diferença alguma quando você não está vivo para senti-lo, mas agora? Agora que decide funcionar?!

O inseto imaginário fica ali, esperando o momento certo, para avisar a seus comparsas que na próxima conversa de corredor, no próximo aceno, no próximo sorriso, vai ter milhares ali lembrando que a vida continua mesmo se tudo aqui dentro parece arruinado, destruído e contaminado.

Maldito padrão besta.
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