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domingo, 26 de fevereiro de 2017

[conto com angie] as pequenas cismas


Título: as pequenas cismas (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.889 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby, Emilio, Smithens e Prince

Começara a entender as pequenas cismas, novos modos de se passar vergonha e cometer gafes memoráveis por todas suas vidas. Quem costumava entregar elas era a menina que se vestia como um acidente de carro, seja lá o que isso queria dizer para "eles".

A música alta e agitada de batuques e tambores, piso grudento de cerveja quente derramada, a meia luz que disfarçava os rostos suados, boêmios e entorpecidos dos foliões Muito contato tátil, pouco auditivo. Não gostava de se sentir sem audição em lugares como aquele. Passar noites na completa escuridão fazia parte de sua rotina, mas ter a privação das nuances auriculares era como retirar metade de sua capacidade de raciocinar. A música estava mais alta, óbvio, fazendo com que aqueles ali presentes se aproximassem e fazer aquela dança esquisita do acasalamento. Como essas criaturas sobreviviam há mais de milênios, nenhum de seus ancestrais conseguira explicar direito.

A batida da música mudou, algo mais primal, introspectivo, sugestivo, a dança humana mudava, o cheiro também. Técnicas de sedução, explicaram uma vez na biblioteca, procriar, reproduzir, nascer, crescer, desenvolver, decair, encolher, morrer.

Apenas entendia a última parte, essa era sua tarefa agora, fazer os outros como eles entenderem. Cada mortal com sua sentença, sua pluma, seu coração, sua balança. Quem vinha coletar não era quem eles tanto gostavam de repudiar, uma criatura deformada, esquelética, manto escuro comprido, foice na mão, olhos sem enxergar, uma lista.
Por que haveria listas?! Séculos de aprendizado e nenhum aproveitamento das lições. Tolos. Egocêntricos. Pedaços de estrelas mortas.

A surdez temporária pela tecnologia barulhenta dos mais novos aguçava sua vontade de voltar a sua forma primitiva e voar para longe dali. Bem, bem longe. O contato mínimo de um braço em seu ombro a fez se recolher alguns passos para trás e preparar algum tipo de insulto ensaiado: fora assim que aprendera da última vez. Era a menina vestida de acidente de carro.

domingo, 11 de dezembro de 2016

[conto com angie] hora do chá


Título: Hora do chá (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.010 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby

Algumas coisas na vida mudavam. 
E outras coisas continuavam as mesmas. 

Angie observava a cena com um leve sorriso no rosto ainda marcado de tinta guache, canetinha hidrocor, a maquiagem meio borrada pelo turno vespertino na creche comunitária onde fazia voluntariado apenas pela merenda e nada mais.

Seus olhos cansados passeavam minuciosamente pela cozinha do hotel, aquele gigante animado de forma grotesca em seu entender, como um construto despedaçado e rebocado em cada pedaço e andar do prédio. Já havia se desentendido com o tal hotel (Ou seja lá o que o mantinha "vivo") e agora, exatamente naquele instante percebeu que tinha um cúmplice de intrigas.

Nesse caso, de sacanear a chefia o máximo possível.

O fogão que nunca pegava na primeira acendida de fósforo estava perfeitamente funcional. Aceitando o fundo da chaleira sem balançar e espalhar a água quente e apagar a chama ou queimar quem estivesse por perto. O segundo bocal enorme para panela grande nem cismara em se acender e causar um pequeno incêndio. O forno é que mais surpreendia, não jorrou nenhum objeto chamuscado, deixou um fedor empesteante de gás e muito menos fazia um barulho horrendo após alguns minutos aquecido.

A cozinha do hotel estava colaborando com a Rainha dos Feéricos, mesmo ela odiando esse título e o evitando como dava.

A observadora não tão distraída na porta da famigerada cozinha mortífera coçou o queixo com uma casquinha de guache seca, o sorriso cresceu ao ver o gesto pequeno de carinho trocado entre as duas ocupantes do pequeno espaço, o simples mover harmonioso de se dividir as tarefas, uma mão que complementava a outra, uma ação ainda não feita, mas pensada já sendo executada, a sincronia entre movimentos, e os fios prateados. Urrum, lá estava os dois, tão entrelaçados um ao outro que mal conseguia distinguir onde um começava e outro terminava.

As duas pessoas não percebiam nessa ótica, estavam entretidas em fazer o ritual do chá da tarde e terem o momento silencioso de desfrutar a companhia uma da outra sem precisar tratar de negócios do Mercado Proibido ou de Quimeras rebeldes. 
- Abro esse pacote aqui ou...? 
- Abre dois que a menina chega esfomeada, como sempre... - riu Raine para a dificuldade em que Kittie tinha em abrir a embalagem de biscoitos. Angie quis intervir como sempre, dar sua opinião ferina era algo automático de sua índole, mas ali, naquele lugar, ela não iria interromper o que estava acontecendo. 

Os fios prateados sempre diziam o caminho.

A música na vitrola na sala da sinuca mudara para uma balada dos anos 80, algo bem melancólico de letra ambígua, mas que fizera muito sucesso na época (Angie lembrava disso muito bem, viveu intensamente os anos 80 como uma adolescente eshu que se orgulhava). Para Angie, a música era um código universal de alcance ilimitado aos corações, não importava como. O fato da vitrola pertencer a Raine e estar tocando sucessos dos anos 80 era algo a se relevar: a chefia não deixava ninguém tocar em seus pertences, muito menos mudar aquele disco pegajoso de música barroca, de concerto, sem letra alguma e tediosa depois do terceiro minuto. 
- As torradas estão prontas, chá também, faltam as sementes e o querido voltar com a geleia e manteiga... - organizou Kittie em seu modo metódico de viver a vida, sempre se disciplinando para não esquecer nada. Raine riu novamente, se aproximando da pessoa mais alta e tirou uma xícara de seus dedos sempre trêmulas. 
- Relaxa... É só um chá da tarde, estão todos acostumados com a bagunça. - O rosto de Kittie se contorceu em preocupação, mirando bem a xícara retirada de sua mão, os óculos de armação tartaruga escorregaram um pouco do gancho do nariz para serem ajeitados por Raine inconscientemente. As duas trocaram olhares novamente e riram. 
- É só um chá... - repetiu Kittie com certeza, a mão de Raine tocou seu rosto e a preocupação se desfez rapidamente. A troca de olhares foi confusa, Raine para a cicatriz ainda se curando no lábio de Kittie, esta focando sua atenção e miopia no topo da cabeça de Raine. 

Foi quando Angie percebeu no que Kittie também via, soltou um soluço de surpresa pela descoberta e atrapalhou o fluxo de energias que a cena doméstica produzia no ambiente (E pro hotel ter ficado a favor disso era porque as energias eram realmente poderosas). 
- Oh Angie, já chegou? Não pegou até às 18h? - disse Tobby chegando com sacolas de compras no seu andar desequilibrado. O momento ali se dissipou, Kittie foi supervisionar o forno, Raine pegou um pano de prato e o amassou nas mãos com certa violência. A interrupção não era nada perto do incômodo da dona do hotel ser vista em posição tão vulnerável. 
- Gurizada foi pro flúor e escovação de dentes, então... - Angie deu de ombros e refez seu jogo para amenizar a tensão. - Tá fazendo biscoito, é? 
- É bolacha. - provocou Tobby, ela abanou a orelha demonstrando o quanto se importava. 
- É semente de abóbora caramelizada... Receita básica de Dia dos Santos... - explicou Kittie abrindo o forno e tomando cuidado para tirar a travessa com o doce marrom e de aroma característico entre amendoim torrado e açúcar queimado. 
- Dia dos Santos é semana que vem, não? - Angie ajudou Tobby a tirar as compras e separar na bancada de mármore da pequena cozinha, Raine continuava em silêncio, observando bem a tarefa de Kittie com a travessa quente e uma espátula de teflon. - Pode pegar um teco? 
- Espera esfriar que vira torrão, calma. - Kittie avisou mantendo a travessa longe da menina eshu.
- Obrigada Tobby pelas compras... - Raine agradeceu polidamente e pegando com cuidado as bandejas com chá, biscoitos e utensílios.

Saiu graciosamente pela porta da cozinha e encaminhou-se para a sala da sinuca. Kittie brigava com a espátula, Tobby ajeitava as compras nos armários e Angie percebia que o fio prateado de Kittie e Raine lentamente se afinava para finalmente se separarem, cada um de seu lado.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

[os escorregadios] apegos e afetos

Título: Apegos e afetos (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.985 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Raine (aqui chamada de Myrna Reyners), Kristevá Todd



O afeto não era de agora, o conforto de ter um corpo tão perto do seu era familiar, como se aquele momento ali já houvesse disso escrito em algum lugar. Acariciou de leve os cabelos revoltos da pessoa a sua frente, esparramada no sofá maior, ressonando a respiração calma e pausada de sempre. Se acostumara a ouvir esse ritmo desde muito tempo, quando a vira pela primeira vez, dormindo como pedra dentro do vagão de metrô do Arges. O rosto havia mudado muito, a aura tão caótica e confusa também, uma criança domesticada com remédios, tratamentos psiquiátricos, rasurada e esquecida em algum quarto daquele maldito lugar que sugava os sonhos de quem entrava.

Como deixara isso acontecer?

Ela, ou ele, não sabia como denominar mais com quem lidava ali a sua frente, não parecia ser daquela época, alguém deslocado do tempo-espaço, colocado em um corpo que às vezes mostrava que não encaixava na normalidade. Muito confuso para a lógica tradicional de Raine.

Em seus lindos anos em Hibernia, Raine achava que sua vida fútil e cheia de caprichos na Corte a deixariam anestesiada quanto as frivolidades emotivas das donzelas medievais. Acostumada a fugir de qualquer aspecto romântico de sua vida - coisa essa inventada por malvados deuses desordeiros para atrapalhar a vida dos seres vivos - se refugiava solitária nas florestas densas de sua terra Natal ou em incursões nas cavernas de gelo abaixo da grande costa congelada no litoral das terras afastadas do Clã do Profundo Inverno. Estar sozinha era a opção mais acertada em sua vida milenar, e também a mais divertida. Trocar essa sensação de liberdade - o espírito livre de uma folha que se solta da árvore mais frondosa e segue um rumo sem destino - era uma heresia em sua conduta pessoal de viver no mundo dos humanos. Não trocaria isso por nada e nem ninguém.

Até ver que não era necessário trocar sua ética a favor de algo ou alguém. Era apenas se deixar sentir.

Os companheiros de caçada entendiam seu lado aventureiro, sua veia estratégica, sua liderança nata, mas não compreendiam que debaixo das camadas que acobertara pra si residia aquela menininha feérica que adorava ouvir música dos menestréis e apreciar o nascer do sol. O de respirar fundo a atmosfera em uma lua cheia, corpo aquecido por uma fogueira tímida e um jarro de vinho. O dançar sozinha debaixo da torrencial que assolava as divisões entre os reinos sei e o deles.

Kittie sorriu rápido em seu sonho pesado, isso distraiu seu pensamento dos tempos de outrora. Às vezes isso acontecia quando Raine estava por perto, mesmo quando acordada. Prince havia advertido como Kittie a observava quando ninguém prestava atenção, como isso era corriqueiro, pois ninguém se importava com pessoa esquisita que acordava todos os dias em um banco dos fundos do hotel sem saber como chegara ali. Depois foi Angie, explicando que a vida era uma imensa balança de pesos diferentes. E que a paz no sono de Kittie era o pior dos pesadelos no mundo real. Óbvio que entender o que a menina eshu falava era perda de tempo: Angie nunca entregava informações sem haver uma negociação de valores (No caso dela: comida).

Seus dedos caminharam cautelosos pelos cabelos revoltosos, impregnados com grãos de areia da última aventura, rosto não mais transparecendo a dor interna. Kittie parecia ser mais feliz dormindo e sonhando. E isso deixava Raine particularmente infeliz.

Pois se era nos sonhos que Kittie encontrava paz, era exatamente lá que Raine não queria mais habitar. Estar no Sonhar era se sujeitar as regras esquisitas da Corte, das ordens dos elderes, de ter que fazer seu papel odioso de futura monarca mais importante de todo mundo feérico. De ser quem as pessoas queriam que ela fosse, não quem ela realmente era.

Mas Kittie era feliz dormindo. Único lugar de paz e segurança. Com o que ela sonhava, Raine já sabia de cor, mas viver uma ilusão permanente é mais doloroso que acordar para uma vida de sofrimento.

- Eu gostaria de te livrar dessa dor...

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[Conto com Angie] O metrô do Arges

[O metrô do Arges] por: @_brmorgan.
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: 16 anos (morte, distorção de convenções morais, violência)
Resumo: Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
Disclaimer: Não terminei esse, mas já postando, porque gostei da levada do enredo.

Aquele lugar continuava insuportável.
Não me leva a mal, mas tem pouca ventilação aqui, goteira pra tudo quanto é canto e o cheiro é desagradável. Parece um cemitério... Bem... é um cemitério... de locomotivas.

Quando eu tava meio fora do ar, evitava de ficar rondando essas quebrada, metal faz mal pra saúde das fadinhas aqui, valeu? Não quero me meter em enrascada, ser obrigada a sair vazada e tropeçar numa coisa dessas e me cortar. Metal frio dá problema, tipo gangrena, arranca pedaço maior, te mata. Eu não tou pronta pra morrer. Não hoje! Hahahahahahahah, okay, certo, parar de rir tão alto, esse lugar dá eco... Eeeeecooooo... 

 - Ai! Não precisa me beliscar! - digo pro lazarento do meu lado, óbvio que ter guia aqui embaixo é tipo, pedir pra ser coisa ruim. Desde que encontramos aquela quimera-busão, as coisas aqui embaixo andam, bem... ahn... como dizer? Peculiares.

E pra completar bruxas. Oh ótimo! Como se não fosse o bastante!
 - Eu posso te ouvir pensando.
 - Grandes coisa, e eu consigo teleportar. Quem ganha nessa? Você? - digo de volta pro guia. Não dá pra saber quem é, nem me importo o que seja, o importante é que firmou os esquemas, desço sem ser ludibriada, na volta damos um jeito. Certo? Belezura.
 - Estamos perto.
 - Cê falou isso há uns 15 minutos atrás.
 - Você pensa demais. Distrai.
 - Uai Zé Povinho, trata de manter a telepatia guardada, oras! Que intrometido.
 - Sua insolência será registrada no... - sério que isso é uma gravação de voz? Onde raios estamos indo?
 - Véi, era alguém nos auto-falantes?
 - O que é auto-falante?
 - Cê é véi, né véi?
 - Hein?
 - Esquece. guia aê que o tempo tá acabando. Preciso chegar antes das 6 pra jantar direito. Muita coisa rolando pra amanhã... - dando desculpinha pra fingir uma vidinha normal, essa sou eu. Essa é a minha vidinha. Sozinha, na escuridão, no meio de um túnel cercada de lodo e goteiras, sendo guiada por uma criatura invisível e lamurienta para o meio do nada. O cheiro de metal é forte. Muito.
 - Lembre-se que quando chegar até lá, não há volta a não ser pelo viajante de aço.
 - Ah tá, arram, senta lá Cláudia.
 - Meu nome não é Claudia, é Liriam.
 - É um bonito nome! - me surpreendo com a interação. - Whoa Liriam! Cê é tipo aquele povo dos espremidos e talz?
 - Nós temos um nome, menina, não precisa ofender. - a voz de gravação de áudio aparece de novo.
 - Okay, da onde vem essa voz?!
 - É um dos nossos.
 - Não é aqueles dentuços não né? - minhas mãos tremem ao lembrar do último encontro com um "deles". Urrum, eles existem, estão no meio de nós. Não deveriam estar, mas hey! Se o Drácula aparecer na minha frente e buzinar três vezes, é óbvio que irei acreditar em vampiros! Nota para a posteridade: vampiros são mortos-vivos e eles machucam pra cacete. Eu e meu cano de ferro que o fale.
 - Somos antigos, raça antes nobre, hoje fadada a solidão.
 - É triste isso véi, ops Liriam... - eu entro na confissão de terapia de debaixo de metrô. Parece apropriado para o momento. - Cês não encontram mais de vocês pra trocar umas ideias, fazer uns debates, sei lá, jogar pingue-pongue?
 - O que é pingue-pongue?
 - É um esp... ah esquece... demora muito ainda?
 - Mais esse corredor.
 - Isso é um corredor? Parece um túnel!
 - Menina, não se esqueça que no escuro, você parece maior do que é. O seu verdadeiro eu.
 - Oh locutor de meia-tigela! Vai se catar! - odeio quando me vêm com essa de "ser maior", tenho só um e sessenta de altura, pô! Tá tirando com a minha... MINHA NOSSA CENOURA DO CACHORRO RUIVO!! Que p**** é essa?!
 - Por favor, não grite. Pode assustar o viajante de aço.
 - Como é que vou assustar um vagão de metrô, oh locutor pirado? - eu indago de volta para o nada, mas o nada toma forma.

[Créditos da Imagem]
É imenso. É confinado. É tudo ao mesmo tempo.
Uma estação de metrô abandonada, não afetada pelo tempo, ou talvez sim, há poeira e limo por toda parte, mofo acumulando aqui e ali, mas é impecável o estado de seus ladrilhos, milhares e milhões deles ornando todos os lugares por onde posso deixar meus olhos correrem.
 - Aqui é o local. Não posso mais que isso. - diz meu guia com nome bonito, viro-me para o túnel escuro e apenas vejo uma figura alta, esbelta, espremida em uma das paredes do túnel de acesso a essa estação. Não vejo seu rosto direito, há uma cortina grande de cabelos escorridos cobrindo o que parece ser uma face humanóide. Gente boa, Liriam.
 - E pra sair?
 - Apenas pelo viajante de aço. - disse apenas, sendo engolida pela escuridão.
 - Obrigadão Liriam! Cê é jóinha! Passa lá na Raine pra gente tomar um chá... - e vendo que a criatura não iria me ouvir mesmo, eu continuo disfarçando o meu pavor de estar ali. A missão não era nada feliz. - Comer uns biscoitinhos, fazer um tricô, talvez umas miçangas e vender a Arte na praia... Essas coisas... - enquanto caminho percebo nos detalhes dos ladrilhos, tão bem colocados em um imenso mosaico colorido nas paredes, teto e além. O vitral azul acima de minha cabeça mostra as estrelas pálidas. Ufa, pelo menos aqui estou sendo assistida, não dá para me perder.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

[conto com angie] os escorregadios - prelúdio


Créditos: http://www.openbooktoronto.com/events/diaspora_dialogues_presents_short_history_change

O pesado livro em uma mão, a caneca cheia de vinho na outra.

"Heresia!!" diriam seus ancestrais, por estar bebendo perto de conteúdo tão antigo e sagrado, mas do jeito que se encontrava na cadeira de madeira que aquela biblioteca reservava para pesquisadores, a admoestação dos antigos não surtiria tanto efeito. Melhor estar confortável com o gosto de vinho barato e o metálico de 2 balas dentro de seu sistema digestório que obedecer velhas regras.

O rosto com hematomas na linha do queixo e subindo pela bochecha, enfeitado por uma breve cor esverdeada da lenta circulação sanguínea comum de seu corpo semi-morto, a camiseta branca que usava como uma armadura empapada de manchas de sangue, sujeira e estilhaços. Remendos feitos à mão em um torso machucado pela pólvora e a tempestade. Os pulmões voltaram a funcionar lentamente após tossir parte do tecido queimado pelo tiro certeiro em uma cavidade vazia.

A mão do vinho virou uma página em pressa de ler a próxima frase, os hieróglifos indecifráveis para sua cultura (e quantas tinha!), mas que de alguma forma faziam sentido. Ali deveria conter algum sentido para o que passava, a angústia de viver sem respostas, a dor de estar entre os vivos, mas se sentir menos viva que aqueles que se diziam mortos.

Era uma linha tênue que constantemente não se aplicava ao seu estado atual.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

[feéricos - contos para sonhar] certas leis se repetem



A história se repete. 

Se repete. 
Repete. 


Vira boato, anedota, fábula, esquecida em algum canto, mas se repete e repete e repete.

O toque breve entre mãos, dedos trêmulos em outros rígidos pelos anos. Um sorriso trocado, automático como uma desculpa pela intrusão do gesto. Papelada espalhada pela mesa de sinuca, meia-luz, mais livros no chão e pastas de arquivos no sofá maior. O sorriso tímido de uma pessoa traz a certeza de uma teoria para a outra.

A história se repetindo.

- Descansa um pouco, vou preparar um chá pra gente. 
- Eu quero chá e bolinhos! - exclama alguém fora da cena, do outro lado da janela enorme da sala de estar do Hotel. A menina eshu brinca na chuva, dançando com um cão exageradamente grande para sua raça (um vira-latas com o dobro de tamanho), os dois ensopados pela torrencial da tarde, o cão caçando o próprio rabo e raspando suas garras no concreto sem produzir nenhum arranhão aparente. 
- Angie, você acabou de detonar com o pacote de biscoitos que o Smithers deixou na cozinha... - admoestou a líder do grupo, mas já sabendo a resposta. Seus olhos podem estar na menina animada perto da janela para o pátio dos fundos do hotel, mas seu corpo reagindo lentamente as pequenas mudanças na atmosfera ali dentro da sala de estar. O quanto a temperatura aumentou após o toque na mão da pesquisadora recém chegada ao grupo, como qualquer movimento é cuidadoso e silencioso, a respiração acelerada com alguns suspiros mais profundos para manter tudo em perfeito estado. 


A história se repetia novamente.

Para testar a superfície das águas, aproximou-se da pessoa e mansamente acariciou suas costas começando por um ombro, até a nuca exposta pelo corte desregulado de cabelo. A sensação foi imediata, um pulo de surpresa, a respiração cessada, o coração... Bem, o bater do coração era algo que intrigava Raine sobre Kristevá. 

- Volto já. 
- Beleza... - respondeu ela em um fio de voz. 
- Quer comer algo? Acho que tem alguma coisa ainda na despensa que a pestinha não tenha devorado. 
- Pestinha é o seu traseirinho real, oh Regina!! - gritou a menina lá fora correndo para lá e para cá, cabelos negros longos soltos ao sabor do vento e sendo perseguida pelo cão enorme em uma brincadeira confusa de pique-pega. 
- Regina? - perguntou a pessoa surpresa. Raine sorriu para o chão como se não fosse um assunto muito bom para se abordar a essa hora. A meia-luz não estava ajudando, os olhos escuros da pessoa a encaravam com aquele tão conhecido pecado que os feéricos eram suscetíveis quando deixavam as emoções aflorarem. 
- Um de meus nomes... 
- Oh sim... É um bonito nome... - a pessoa disfarçou seu interesse repentino com um suspiro baixo e foi até o sofá pegar uma das pastas de arquivo. Raine a observava quase clinicamente, ombros tensos, lábios ressequidos entreabertos como se alguma palavra fosse escapar dali (mas não iria, o autocontrole era algo que a pessoa prezava mais que tudo), as mãos trêmulas procurando o que fazer, tateando mais folhas antigas, despregando clipes de amontoados deles, recolocando outros clipes em pilhas novas feitas sistematicamente. 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

[Feéricos - contos para sonhar] os escorregadios: Kristevá Todd

Título: Feéricos - contos para sonhar os escorregadios: Kristevá Todd (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG.
Tamanho: 471 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Diálogo entre alguém e a Morte de triciclo.
N/A: Um pequeno rascunho que veio e acabei deixando de lado. Mas aí depois ao pensar nele, fiquei: hmmmmm acho que vai me servir para a posteridade. [Editando: Atualizado 11/09/2016]
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Eis um corredor extenso de uma instituição qualquer.
Poderia ser de uma escola, universidade, hospital, escritório, o que for.
Antigo é o prédio, velhas são as edificações, enferrujadas são suas portas e janelas, há muita areia acumulada em muitos cantos e rastros por todo chão.
Nesse corredor extenso há uma única porta aberta.

Atrás dessa porta há um armário de limpeza qualquer, com estantes improvisadas com produtos de limpeza, algumas vassouras, esfregões e rodos já desgastados pelo Tempo. Uma enceradeira velha e descascada, galões de desinfetante de cheiro forte de limão, luvas de plástico amarelas penduradas em alguma estante. Sentada ao chão está uma pessoa que podemos identificar como "Visitante".

Do lado de fora desse espaço pequeno, no corredor sem porta alguma a não ser essa, está a Morte, personificada como a famosa ceifadora, vestida de grosso manto escuro, o capuz cobrindo a caveira angular, de protuberantes ossos em alguns lugares da bochecha e mandíbula projetada para frente com grossos caninos, não como uma caveira humana, mas de animal exótico. Sem olhos, ela observa, com sua foice pendurada nas costas, sentadinha em um triciclo infantil de cor rosa choque, encarando a porta como se estivesse ouvindo atentamente a pessoa visitante.
 - Você colocando dessa maneira parece bem mais fácil de entender... - continuou a pessoa visitante para a Morte de triciclo. Sua voz estava abafada por estar no fundo do closet de limpeza, mas isso não impedia do diálogo seguir normalmente. - Desculpe-me, mesmo... Tá tudo bem... O importante é que sei agora, né? - a Morte concordou com o seu capuz movendo para cima e para baixo no rosto cadavérico. - Agora sei o que fazer com o restante do meu tempo.
 - Apenas não se precipite. - avisou a companheira das últimas horas.
 - Não, não irei. Quero fazer direito, eles confiam em mim.
 - Não quer nem pensar em uma escapatória?
 - E por quê eu faria isso? Tem jeito? - a Morte de triciclo deu de ombros, a foice pendurada em suas costas mexeu um pouco.
 - Talvez dê certo. Alguns tentaram.
 - E foram felizes?
 - Infelizmente não sei. Apenas sei que tentaram.
 - Difíceis de pegar?
 - Escorregadios.
 - Não quero te dar trabalho. - um fio prateado escorregou do cabo da foice e foi serpenteando devagar até o fundo do armário, enlaçando calmamente a perna da pessoa visitante. Ela estremeceu sem entender o porquê ter tal laço frio.
 - Nem eu. - estremeceu a pessoa visitante sem saber o que falar. Suas memórias estavam ficando falhas novamente. Tinha pouco tempo agora. A Morte pega impulso em seu triciclo rosa-choque e pneus de plástico desgastados, mas antes que pudesse arrancar, a menina se moveu dentro do armário de limpeza no corredor de extenso de uma única porta.
 - O que acontece se um dos escorregadios conseguir?
 - Fica difícil de prever. Muitas coisas mudam, novos horários, pouco tempo para adaptar a carga-horária.
 - Se precisar de alguém... - a pessoa visitante deu de ombros ao dizer isso.
 - Com certeza não irei te chamar. - respondeu a morte de triciclo, apertou bem as mãos no guidão do triciclo, pedalando algumas vezes no extenso corredor de uma única porta. A menina colocou a cabeça para fora da porta, assistindo a ceifadora ir esvoaçante pelo corredor. Suspirou de cansaço, de tristeza, de impaciência.

Olhou para aquela porta que dava acesso ao corredor. Tudo parecia tão diferente agora que sabia o que fazer. Poderia tentar mais uma vez, não é?

Ser um escorregadio não estava nos planos dela.

Fez uma lista mental do que deveria fazer ao acordar:
Encontrar a bruxa solitária.
Conversar com a ninfa das árvores.
Socar o rosto do marinheiro.

Ia colocar algo a mais na lista, muito importante, não poderia esquecer, algo a ver com alguém que vinha das cavernas geladas quando sentiu a fisgada leve. O fio prateado em sua perna era puxado aos poucos, apertando seu tornozelo, aquilo estava certo? Era para ser... assim?

Seu corpo foi derrubado ao chão com violência e bruscamente, o fio prateado estrangulando o que tinha por dentro, levando o que tinha que levar, deixando apenas um invólucro vazio e sem memórias do passado, de sua missão e de seu futuro.

...

Kristevá Todd teve sua admissão no Hospital da Metrópole aos 9 anos de idade com um diagnóstico inconclusivo entre amnésia retrógrada e forte trauma infantil. A dosagem de remédios aumentou quando completou 13 anos de idade.

Esqueceu da lista.
Esqueceu da companheira das últimas horas.
Esqueceu de saber quem era.

Não sonhava mais.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

[Projeto Feérico] Trecho nº 1 - Kittie/Kristevá

[trecho perdido do Projeto Feéricos. A personagem LabGirl Kittie foi engavetada para o melhor fluir do enredo, aqui nesse pedaço há um pouco de como ela silenciava as vozes que ouvia quando entrava em crise de realidade vs o Sonhar]

A cadeira era confortável, a coceira atrás da orelha não. As vozes iam e vinham em intervalos longos como um eco de algo que não estava ali, ou talvez estivesse. Ela apenas não conseguia mais saber o que era real ou não.
- ...Orgulhoso de você, segundo-tenente... Orgulhoso.
" - Pode me dizer o que aconteceu com a minha esposa?"
" - Quantas pessoas você atende aqui embaixo? É difícil assim?"
" - Você sabe que é especial, não pode ir lá fora ficar mostrando o que faz. Eles vão saber."
" - Eles nunca sabem."
" - Eles vão saber."
" - Quem sabe de coisa alguma. Mude, destrua, reconstrua, continue."
" - Você poderia ficar bem aqui. É melhor para todos."
" - É melhor para mim que nós não conversamos mais."
" - É melhor para o mundo se ninguém souber o que você faz."
" - Você não faz nada, menina!"
" - Quantas vezes tenho que dizer para fazer o que eu peço???"
" - Tenente, isso não é coisa que se faça..."

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