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segunda-feira, 18 de maio de 2015

[contos] cobertas e regras - NSFW

Título: Cobertas e regras (por BRMorgado)
Cenário: Original/Cotidiano.
Classificação: 18 anos. (Cenas insinuantes entre mulheres, f/f, menções de BDSM).
Tamanho: 1407 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Algumas regras são acertadas entre as cobertas.
Disclaimer: Conteúdo abaixo do link NÃO É apropriado para menores de 18 conforme as tabelinhas de classificação indicativa de filmes/seriados/livros e tudo mais. Então se não gosta dos temas acima, esqueça, vá ler outra coisa, pule de postagem. Não me culpe de corromper vossa mente ou que fui uma má influência


(Voltando a escrever algumas coisinhas, isso é um bom sinal...)


sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

[conto] parceiros de crime

Título: Parceiros de crime (por BRMorgan)
Cenário: Original.
Classificação: PG.
Tamanho: 734 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Em uma noite improvável, dois estranhos encontram algo em comum.
Personagens: A menina e um senhor de meia idade.

===xxx===

Começa com um pequeno piscar de olhos, o foco obscurecido pela sala cheia de gente, luzes hipnóticas em todos os tons, o retumbar das caixas de som reverberando junto as batidas cardíacas, a ansiedade toma conta de suas mãos, o andar é apressado entre a massa de pessoas desconhecidas, logo não há escapatória, se isolar em um canto menos povoado é a única chance de se manter bem na saída à noite.

Muitas vezes tentar visualizar o público que a rodeava, como uma completa estranha no ninho, prestar atenção no ritmo das pessoas virara seu passatempo. Ninguém exatamente sabia o porquê de estar tão espremida a parede, bebida na mão, olhos fixos no chão. Às vezes não dá para aceitar as condições em que se vive.

Puro medo de viver? Ou medo de algo mais comum?

Um breve gole na bebida gelada talvez subisse mais rápido que a sensação conhecida de sempre. Já haviam recomendado algumas dicas para se manter em vigília, mas o relógio no celular que sempre vibrava marcava onze e dezessete. Não, não, não... o show nem tinha começado. Seus amigos de palco nem haviam chegado, não faria isso de novo, faria?

Fez um plano dentro de sua mente, esperaria até meia noite. Meia noite era a deadline. Meia noite poderia dar alguma desculpinha esfarrapada e escapulir para um táxi e ir embora o mais rápido possível. Meia noite era a hora. Checando seu celular a cada 5 minutos, o tempo não parecia passar, na verdade achava que tudo havia parado às onze e quarenta e dois. Exausta, sentindo os primeiros sintomas da fadiga, procurou um lugar para se sentar, mas não poderia fazer isso, pois obviamente cairia nas graças de algum deus menor. Praguejou internamente, virou a bebida já não mias gelada de uma vez só. Quase cuspiu parte por ver que o resultado de subir pelas suas veias e ir para a cabeça foi mais acertada desta vez.

Praguejou mais um pouco, certa de que nem deveria estar ali. A banda que prometera dez horas em ponto começar o show estava atrasada cerca de duas horas por motivos de: "Quanto mais tarde, mais enche a casa.", "Não dá tempo pra beber", "O povo precisa tá ligado quando começar, dançar e tal." e outras a mais. Ela apenas estava a lutar contra seu demônio favorito particular. Todo, santo, dia.

Ao seu lado, sentado em uma poltroninha fajuta estava um senhor, vestido para a ocasião, com uma mesma bebida como a sua na mão esquerda, o celular na outra, o olhar apreensivo para frente, o pestanejar inconfundível. O demônio favorito também gostava de aplacar outros poucos infelizes. Onze e cinquenta e três.

 - Esses caras não vão tocar não? - ele resmungou colocando um alarme para soar vibrante em seu bolso. Como uma lâmpada acendendo acima de sua cabeça (E subitamente caindo quase no mesmo segundo), ela entendeu.
 - Cê tá com sono também? - a pergunta dela não foi estranhada pelo desconhecido, mas uma confirmação triste acertou tudo.
 - Isso aqui faz acordar? - ele disse apontando para a bebida.
 - Não, não, já tomei dois desses e nada.
 - E esses caras marcaram dez, né?
 - É... - ela concordou tentando focalizar o palco, uma de suas pestanas estava cedendo pelo sono excessivo.
 - Hey, senta aqui. - ele disse apontando um lugar para ela ao lado.
 - Se eu sentar, você sabe.
 - É, eu sei... - ele retrucou afundando mais na poltrona. Ambos suspiraram ao mesmo tempo. A banda finalmente foi par ao palco, a amiga deveria estar ali na frente do palco, prestigiando os músicos, mas a troca de olhares foi única. Ela finalmente sentou-se pesadamente ao lado do senhor de meia-idade e barbudo.
 - Se um dos dois dormir... - ela sugeriu, ele completou:
 - Cutuca o outro?
 - Arram, isso aí. - os dois apertaram as mãos.

A primeira música estava já no fim, a plateia entoava o coro de músicas já bem conhecidas, o vozerio de conversas altas, a potência dos instrumentos, as luzes. Sentados, um ao lado do outro, um casal de completo estranhos, em sono alto, sem defesa ou tempo de se cutucarem para salvarem a noite.

O demônio favorito ganhara novamente.

Mas antes de seguir para o profundo sonho, a moça deliberou entre muitas imagens entre seus olhos e pálpebras fechadas: parceiros de crime

Sim, encontrara um parceiro de crime.


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

[Feéricos - contos para sonhar] os escorregadios: Kristevá Todd

Título: Feéricos - contos para sonhar os escorregadios: Kristevá Todd (por BRMorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: PG.
Tamanho: 471 palavras.
Status: Completa.
Resumo: Diálogo entre alguém e a Morte de triciclo.
N/A: Um pequeno rascunho que veio e acabei deixando de lado. Mas aí depois ao pensar nele, fiquei: hmmmmm acho que vai me servir para a posteridade. [Editando: Atualizado 11/09/2016]
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Eis um corredor extenso de uma instituição qualquer.
Poderia ser de uma escola, universidade, hospital, escritório, o que for.
Antigo é o prédio, velhas são as edificações, enferrujadas são suas portas e janelas, há muita areia acumulada em muitos cantos e rastros por todo chão.
Nesse corredor extenso há uma única porta aberta.

Atrás dessa porta há um armário de limpeza qualquer, com estantes improvisadas com produtos de limpeza, algumas vassouras, esfregões e rodos já desgastados pelo Tempo. Uma enceradeira velha e descascada, galões de desinfetante de cheiro forte de limão, luvas de plástico amarelas penduradas em alguma estante. Sentada ao chão está uma pessoa que podemos identificar como "Visitante".

Do lado de fora desse espaço pequeno, no corredor sem porta alguma a não ser essa, está a Morte, personificada como a famosa ceifadora, vestida de grosso manto escuro, o capuz cobrindo a caveira angular, de protuberantes ossos em alguns lugares da bochecha e mandíbula projetada para frente com grossos caninos, não como uma caveira humana, mas de animal exótico. Sem olhos, ela observa, com sua foice pendurada nas costas, sentadinha em um triciclo infantil de cor rosa choque, encarando a porta como se estivesse ouvindo atentamente a pessoa visitante.
 - Você colocando dessa maneira parece bem mais fácil de entender... - continuou a pessoa visitante para a Morte de triciclo. Sua voz estava abafada por estar no fundo do closet de limpeza, mas isso não impedia do diálogo seguir normalmente. - Desculpe-me, mesmo... Tá tudo bem... O importante é que sei agora, né? - a Morte concordou com o seu capuz movendo para cima e para baixo no rosto cadavérico. - Agora sei o que fazer com o restante do meu tempo.
 - Apenas não se precipite. - avisou a companheira das últimas horas.
 - Não, não irei. Quero fazer direito, eles confiam em mim.
 - Não quer nem pensar em uma escapatória?
 - E por quê eu faria isso? Tem jeito? - a Morte de triciclo deu de ombros, a foice pendurada em suas costas mexeu um pouco.
 - Talvez dê certo. Alguns tentaram.
 - E foram felizes?
 - Infelizmente não sei. Apenas sei que tentaram.
 - Difíceis de pegar?
 - Escorregadios.
 - Não quero te dar trabalho. - um fio prateado escorregou do cabo da foice e foi serpenteando devagar até o fundo do armário, enlaçando calmamente a perna da pessoa visitante. Ela estremeceu sem entender o porquê ter tal laço frio.
 - Nem eu. - estremeceu a pessoa visitante sem saber o que falar. Suas memórias estavam ficando falhas novamente. Tinha pouco tempo agora. A Morte pega impulso em seu triciclo rosa-choque e pneus de plástico desgastados, mas antes que pudesse arrancar, a menina se moveu dentro do armário de limpeza no corredor de extenso de uma única porta.
 - O que acontece se um dos escorregadios conseguir?
 - Fica difícil de prever. Muitas coisas mudam, novos horários, pouco tempo para adaptar a carga-horária.
 - Se precisar de alguém... - a pessoa visitante deu de ombros ao dizer isso.
 - Com certeza não irei te chamar. - respondeu a morte de triciclo, apertou bem as mãos no guidão do triciclo, pedalando algumas vezes no extenso corredor de uma única porta. A menina colocou a cabeça para fora da porta, assistindo a ceifadora ir esvoaçante pelo corredor. Suspirou de cansaço, de tristeza, de impaciência.

Olhou para aquela porta que dava acesso ao corredor. Tudo parecia tão diferente agora que sabia o que fazer. Poderia tentar mais uma vez, não é?

Ser um escorregadio não estava nos planos dela.

Fez uma lista mental do que deveria fazer ao acordar:
Encontrar a bruxa solitária.
Conversar com a ninfa das árvores.
Socar o rosto do marinheiro.

Ia colocar algo a mais na lista, muito importante, não poderia esquecer, algo a ver com alguém que vinha das cavernas geladas quando sentiu a fisgada leve. O fio prateado em sua perna era puxado aos poucos, apertando seu tornozelo, aquilo estava certo? Era para ser... assim?

Seu corpo foi derrubado ao chão com violência e bruscamente, o fio prateado estrangulando o que tinha por dentro, levando o que tinha que levar, deixando apenas um invólucro vazio e sem memórias do passado, de sua missão e de seu futuro.

...

Kristevá Todd teve sua admissão no Hospital da Metrópole aos 9 anos de idade com um diagnóstico inconclusivo entre amnésia retrógrada e forte trauma infantil. A dosagem de remédios aumentou quando completou 13 anos de idade.

Esqueceu da lista.
Esqueceu da companheira das últimas horas.
Esqueceu de saber quem era.

Não sonhava mais.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

[conto] ode ao desmemoriado sonhar


Tão cansada desses pesadelos.
Cansada pra caralho.

Dá para manter a concentração depois dessa? Sonhar no loop de imagens que NÃO se precisa realmente relembrar. Bem que poderiam inventar aquela pílula de dissolver memória, não me importaria nem um pouco em tomar um pote inteiro e esperar ficar babando em algum canto por aí.

Tão estressada.

Às vezes eles vêm, como sonhos comuns, diários, triviais, disfarçados daquele arzinho de que são inofensivos e então quase no final, BAM! uma palavra, um som, um cheiro, um registro detalhado de cada falha efetuada na sua miserável vida.

É assim que tem que ser, criança. Fez aqui, se paga aqui.
Bobagem do cacete.

Não vim pra pagar coisa alguma, vim pra aprender.

domingo, 2 de novembro de 2014

[Projeto Reverso] Como Andar de Bicicleta

Título: Como andar de bicicleta - parte 7/12. (por BRMorgado)
Cenário: Original - Projeto Reverso.
Classificação: 14 anos.
Tamanho: 1007 palavras.
Status: Incompleta.
Resumo: Alguém se deixa levar por muitos pensamentos em uma varanda de madeira de algum esconderijo do grupo.
N/A: Projeto novo na área, Reverso será uma compilação de 12 contos pequenos sobre uma mesma situação, ambientada em um mundo atemporal ao nosso com um grupo de pessoas tentando escapar de alguma catástrofe eminente, o básico de sempre, sabe? E viva os universos paralelos que os sonhos nos proporcionam! Sim, a ordem dos contos está toda embaralhada \o/

SEM TÍTULO [1] - MÁ REPUTAÇÃO [2] - SEM TÍTULO [3] - A GELADEIRA [4]
SEM TÍTULO [5] - SEM TÍTULO [6] - COMO ANDAR DE BICICLETA [7]
A CONTRABANDISTA [8] - SEM TÍTULO [9] - SEM TÍTULO [10]
SEM TÍTULO [11] - SEM TÍTULO [12]

Trilha sonora:

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Como é sentir que vai morrer?
É como andar em uma bicicleta após anos sem praticar.
Sério, não é tão difícil assim. Apenas sentir que todas suas forças se esvaem de seus poros, deixando marcas no chão, nas coisas em que toca, nos outros que estão ao seu redor, tudo retorna ao pó quando se vem do pó. Extrema-unção nunca fez tanto sentido para mim.
O pequeno livrinho preto de capa rasgada está em meu bolso do jaleco, não atingido pela torrente suave que vai tomando conta do deck de madeira, o que importa agora as palavras sábias de antigamente? Quase nada, a não ser que minha mão tremendo está involuntariamente querendo alcançá-lo desde que me deixei vencer pelo cansaço, pela fome, pela hemorragia interna sistêmica.
" - Vai melhorar, você só está cansada" - eu convenço o meu corpo dolorido com essas palavrinhas mágicas, logo delibero o porquê não sentir mais meus dedos dos pés e minha visão estar turva. Algo errado está ocorrendo e eu só consigo sangrar até morrer aqui nessa varanda.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

[conto] Projeto Feéricos - Nomes

Título: Nome (por @_brmorgan)
Cenário: Original - Projeto Feéricos.
Classificação: 14 anos.
Tamanho: One-shot ( + 3K palavras)
Status: Completa.
Resumo: Às vezes nomes não fazem diferença na vida das pessoas.
Personagens: Mirela Gauthier, Monique (Mona) Gauthier, mendigo do Arges, Walter McDougal, Philippe Gauthier, Christopher Gauthier.
N/A: Quis imaginar um pouco do cotidiano da família Gauthier da querida feérica Mona e veio dessa forma. O primeiro encontro entre família e enamorados.

Estranho era essa, a criatura humana.

Sentiam pena de si mesmos o tempo todo e quando pecavam à mostra dos outros, precisavam de permissão para conseguir atravessar a humilhação. Indivíduos de todos os tipos de pensamento, conceitos e credos, às vezes lembravam que existiam coisas além deles mesmos e o visitavam na estação.

Os poucos hóspedes de grande risco.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

[conto] arrumando o quarto


Título: Arrumando a cama (por @_brmorgan)
Cenário: Original/Cotidiano.
Classificação: 18 anos. (Angst & sorta of Pain, como sempre, um bocadim de insinuações, linguagem inapropriada).
Tamanho: 2.552 palavras
Status: Completa.
Resumo: Diálogo simples ao se arrumar uma cama.
N/A: Fui embalada pelas vibes Nova Orleans e aproveitei o cenário que já tenho (Felicidade Adormecida, em breve um link prestável) para colocar essa pequena peça de diálogo.

===xxx===
A festa de "reinauguração" foi um sucesso.
Bem se sucesso pudesse ser descrito como um bocado de gente entulhada no andar debaixo, com música improvisada com qualquer coisa que estivesse a disposição, então sim: a festa foi um sucesso.

Motivos para chorar todo mundo tem, para sorrir bastava ter essa turma por perto. No meu caso para me lembrar que eu poderia viver mais um dia debaixo daquele teto sem ter um ataque de pânico fodido e me atirar da ponte da interestadual pra terminar de logo de vez com essa vida de merda que vivia.

(Bem, se pensar melhor, todos nós vivíamos uma vida de merda, sem exceção.)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

[conto] conversações debaixo do viaduto

A direção era controlada e bem calculada, já dentro de sua cabeça o mundo girava em milhares de ideias que nem ela mesmo sabia como freia-las (E não seria enfiando o pé no pedal de aceleração que faria aquilo melhorar). Resoluta de sua decisão nada planejada, no impulso da tarde quente coberta por nuvens escuras e o clima de mormaço caraterístico dos pântanos ali perto, ela deu a volta no Hospital e mais outra volta, e mais outra, e uma última para se certificar que estaria bem a vista de seu "alvo".

As teorias paranóicas dos amigos borbulhavam em seus ouvidos, o amargor na lingua para querer tocar em assuntos que as duas não tratariam em longos anos de amizade, a vontade de simplesmente deixar o fluxo de informações e palavras saírem de sua boca e acabar logo com aquele desconforto interminável de "o que poderia ser" e "o que não deveria ser". Impulso por impulso, ela estava certa (Pelo menos isso ela havia calculado muito bem a sua parte, estava certa, correta e ninguém a dissuadiria disso),o que poderia ser era maravilhoso, vantajoso, incrivelmente novo e surreal em certos pontos. O que não deveria ser era o que pesava mais: não queria estragar amizade de anos desde os tempos do colégio.

Como dar a notícia então? Não dar nenhuma pista? Mas a criatura era péssima para ler pessoas, ótima com os mortos e investigações bizarras, mas nada de saber exatamente o quê o outro pensava, nem quando os sentimentos e todos os sinais estivessem bem ali na sua frente. Isso foi subindo pelo seu pescoço, preenchendo boa parte de sua cabeça com a simples constatação de que ela não daria a mínima caso soubesse.

Esperou no carro, a chuva torrencial antes do turno da madrugada caiu sobre todos com surpresa. Enquanto o resto do mundo se protegia, ela deliberava o porquê de nunca conseguir NADA com a dita cuja, o do porquê de se sujeitar a acordar de madrugada e ir atrás de uma pessoa tapada emocionalmente ainda vestida de pijamas. Será que esperava por um abraço verdadeiro, um beijinho de agradecimento e por Deus... "Oh por Deus, me mostra logo onde é tua cama?" era o que ela pensava no exato momento em que viu a figura desengonçada, emaranhada em cabelos ruivos enormes, uma capa de chuva maior que seu corpinho e a bolsa tira-colo que sempre carregava. Era como se o mundo houvesse acabado ali naquele instante. Um breve instante em que se esquecia o que raios estava fazendo na frente de um Hospital se tudo lá dentro estava tranquilo...

Respirou fundo uma vez e mais vezes até sentir que seu sangue ia ferver seu rosto, pegou o retrovisor frontal e ajeitou o que deveria ajeitar, busto, blusa de pijama, lábios ressequidos, cabelos um pouco elétricos pela correria. Baixou o vidro do carro velho e assoviou com certa intensidade:
 - Hey você! - exclamou a mais nova surpresa com a visita não usual às 4h20 da manhã. - Tá fazendo o quê aqui?
 - Quer carona?
 - Não precisa não, tou beleza... - por um momento achou que verteria fumaça pelas suas orelhas.
 - Entra no carro. - disse seriamente, a criatura tonta não percebeu na gravidade da situação. Havia algo ali em jogo e era o seu coração.
 - Tou bem, darling... Vou a pé mesmo ali pro centro... Tá uma chuvinha tão boa né? - abrindo o guarda chuva distraidamente.
 - Entra-no-maldito-carro. - respondeu a mais velha entredentes e pausadamente. A mais nova a olhou com uma sobrancelha erguida.
 - Cê tá bem? Se estiver com porte de arma, não entro nem a pau... - a porta foi aberta com um empurrão rude da motorista e a chuva pesada ameaçou encharcar o banco do carro.
 - ENTRA LOGO!
 - Tá, não precisa gritar... - retrucou a mais nova entrando com todo cuidado para não molhar o assento e não fazer muita bagunça com suas coisas atrapalhando a passagem. Em um engalfinhamento entre bolsa a tira-colo, cabelos revoltados e capa de chuva transparente, a doutora conseguiu parar no lugar e colocar o cinto de segurança. Não mirou a motorista quando ela deu partida no carro, mas percebeu que algo estava errado.
 - Precisamos conversar.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

[contos] Trust - NSFW - Rating +18

Já avisando, post NSFW, Rating +18,
classificação indicativa +18.
Título: Trust (por @_brmorgan)
Cenário: Original/Cotidiano.
Classificação: 18 anos. (Cenas insinuantes entre mulheres, f/f/f, femdom, leve BDSM, já avisei!).
Tamanho: One-shot (Curtinha)
Status: Completa.
Resumo: Confiança é algo que se conquista com o tempo, mas pode ser destruída em poucos segundos.
N/A: Tive um sonho, resolvi ficcionalizar. Não, não vou falar quem eram as protagonistas (Tá, falo se houver tequila no meio). Don't blame me, blame my pervyness...

Okay, um conto pequeno para testar algumas teorias e tocar algumas superfícies intocadas há alguns tempos. Fazia muuuuuito tempo que não escrevia smut-fic assim do nada, aconteceu que no Ano Novo tive um sonho - ahem - muito confuso e resolvi dar uma recalibrada nas cenas. Juntou isso e o povo do The Rabbit RPG soltar o verbo no grupo e pronto, deu até para fazer um plot legal. E sim, sou fui bem boazinha no enredo para poder exercitar melhor a escrita. 

Então avisando pela ÚLTIMA VEZ, conteúdo abaixo do link NÃO É apropriado para menores de 18 conforme as tabelinhas de classificação indicativa de filmes/seriados/livros e tudo mais oh internet fode tudo, literalmente! então se não gosta dos temas acima, esqueça, vá ler outra coisa, pule de postagem. Não me culpe de corromper vossa mente ou que fui uma má influência. BTW faço isso (o escrever smut-fic, pow!) desde os 13 e ninguém nunca reclamou até agora, então...

Oh pode apostar que há coisas que você não deveria
ler no trabalho ou em locais públicos.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

[conto] breathless

Esse é baseado em um cenário meu e do Oto Guerra sobre alguns apanhados de Drácula de Bram Stoker e História Mundial (E vampiros envolvidos nisso). Com mais calma explico o contexto todo do Colégio Carmim (Ou Rosenrot, yeaaaah Rammstein!). Anyway: eles são caçadores dotados de "superpoderes" (Hunters), a maioria treinado em Rosenrot se especializa em alguma coisinha pra sair debulhando os sanguessugas e é até divertido - se a própria fundação do colégio não fosse amaldiçoada. 

===xxx===

O eterno jogo de gato e rato. Como uma brincadeira infantil encenada nas noites tempestuosas de Bucareste, a emoção da perseguição, o momento entre uma estocada e outra, aquele golpe bem dado, às vezes o sangue espirrando veloz nas paredes dos casarões tombados, a corrida de sempre nas ruas escorregadias de pedras tão sólidas e tão velhas quanto a própria cidade. A rotina do jogo se tornara vício e o vício trazia mais consequências do que imaginava.

O alvo era sempre o mesmo, a caça (que se fingia muito bem de caça, mas estava longe de ser), espreitava nas sombras, esperando o momento decisivo entre o atacar ferozmente e o provocar sofregamente, seu prazer em tudo aquilo era tirar proveito da "caçadora", pois nenhum outro hunter que conhecera tinha tal obstinação quanto aquela jovenzinha de descendência turca, pele escura pelo sol com um aroma persistente de areia do deserto e olhos tão ferozes. Não necessitava de palavras, insultos ou gestos maiores, era apenas se apresentar onde ela estava, caninos salientes, mandíbula pronta para uma mordida destruidora. A caçadora sempre "mordia" a isca, largando tudo que estava fazendo no momento - até cancelar o assassínio de outro vampiro - e correr atrás dela sem pausas.

Estava acostumada a ter atenção exclusiva de seus súditos e de seu gado, mas nunca recebera devoção tão fervorosa em forma de ódio por alguém. Aquela jovenzinha estrangeira ali a surpreendia pela selvageria, pela ausência de medos e pela urgência de alcançá-la e debater-se em uma frenética luta corporal que durava alguns minutos, até a "caça" cansar de brincar com o rato (Ou quando alguém se machucava de forma preocupante).

Não entendia o porquê do clichê estúpido de querer aparecer bem no final da noite, perto do amanhecer, apenas para atiçar o instinto de sobrevivência e vingança da pobre caçadora tão bem instruída em seus ofícios , os dois lados se apaziguavam, seguiam seus rumos e voltavam a se enfrentar na noite seguinte. Era patético.

[conto] rootless tree

Quantos rascunhos de contos deixei na inbox? Tou apavorada! Bem, postando sem terminar!
Sim, em inspirei na homônima música de São Damião dos pseudos-irlandeses pra escrever essa.

===xxx===
Abriu os olhos, pequenos olhos, de perninhas curtas e dormentes, de respiração ofegante já no começo da manhã, do retumbar ecoante dos passos no assoalho de madeira forte, mas que às vezes parecia frágil. Seguiu em passos trôpegos até a mesa do café, não havia nada para seu estômago: "Uma pena" pensou sem sentir as palavras, mesmo que sua Fome estivesse ali presente ao seu lado (Como um espectro amarelado cutucando seu corpo), a diversão lá fora era mais atraente.

Desceu as escadinhas de madeira, deu uma última olhada para a casinha tão humilde que habitava em suas horas de não-vigília e suspirou fundo. Hoje iria saber como era ser grande.

Em muito segundos incontáveis cruzou o quintal dos fundos, tênis surrado nos pés já grandes para prender com cadarços, calças amassadas pelo tempo que passou dormindo na cama improvisada da casa humilde, a blusinha de tecido fino balançava solta em seu corpo miúdo que não engordava nunca - falta de nutrientes, falta de tudo, falta de nada - ajeitou a touca rasgada entre os cabelos negros tão desgrenhados pela falta de banho e se aprofundou na Grande Floresta da Adultice.

[conto] elementos: água e fogo

Maaaais outro na fila (Como é que deixei isso acontecer?!), conto sobre um personagem novo do Projeto Feéricos. Resolvi dar um background mais leve pro coitado, porque ele tava sofrendo demais pro meu gosto masoquista de ser.

===xxx===
Era começo de verão, lembrava disso, muito calor nos Portos, muito suor, suas roupas grudavam não só de suor, mas de água salgada do Mar, do esforço de descarregar mercadorias, por ajudar os companheiros puxar as macas com os feridos, suor em seu rosto, impregnando seu paladar olfato, ardendo seus olhos, essa sensação não iria sair nunca de sua mente.

Depois haveria o suor da festança, da multidão de diversas cores no Carnaval europeu, das raparigas afoitas pelo seu pouco dinheiro e boa aparência, dos brutamontes em querer se aproveitar de sua força e seu gancho de esquerda, dos pequenos levianos que investigavam delicadamente sua cintura e bolsos a procura de moedas para roubar, nunca achavam e decepcionados e assustados ficavam quando ele percebia no delito. Não os repreendia, apenas sorria. O maluco galês é como o chamavam quando o encontravam andando sozinho no começo da manhã após passar uma noite inteira em algum taverna ao porto, os pequenos (Ele sabia) tinham algo de especial em seus olhares, talvez fossem como ele daqui algum tempo, ou fossem de uma outra geração do olho aberto na testa, mas os pequenos nem desconfiavam do quanto ele sabia que não eram tão pequenos assim.

Os brutamontes beijaram o chão quando o provocavam e o chamavam de demônio irlandês - aí sim acertavam parte de sua origem, pois não tinha nada de demônio em seu corpo e constantemente se purificava nas águas do Mar pedindo aos deuses infinitos que trouxessem paz para sua mente turbulenta e seu corpo ansioso - o pouco de dinheiro que ganhava era fazendo trabalhos sujos nas tavernas ou lutando com aqueles homens de corpanzil enorme, mas pouco entendimento da Realidade maravilhosa que os cercava. Alguns ele conseguiu dar uma pequena amostra, um truque aqui, uma coincidência ali, uma prece atendida, uma doença fatal curada, era assim que demonstrava o seu carinho com os filhos mais novos.

Já as raparigas, bem... Elas o deixavam confuso. Se a ganância por dinheiro era a prioridade, porque em noites de luar quente, escondidas debaixo dos lençóis demonstravam tanto que queriam Amor, carinho, atenção, devoção? O marinheiro - era como elas o chamavam - podia entender a complexidade de uma fórmula química eficaz para disparar um canhão sem desperdiçar tanta pólvora ou misturar o rum com água destilada de forma tão equilibrada que não virava grogue na mão dos outros marujos. Mas o marinheiro não entendia a complexidade das mulheres, seres tão abençoados pela natureza, tão divinos em sua existência, tão agraciados com suas maneiras e poucas sabiam como usar isso ao seu favor (Bem, algumas usavam o corpo e os sortilégios femininos, mas havia tanto mais!). A confusão que elas causavam aumentava quando sentia que a linha tênue entre o entendimento científico e a cegueira da paixão parecia sumir debaixo de seus pés tão ligados a Terra. Era nessa hora que ele decidia pegar outro navio e desaparecer dali o mais rápido possível.

O Mar o acalmava, desde criança nas praias do Oeste do Eire, olhar para o Grande era relaxante, sedativo, quantas vezes não adormecera só ouvindo as ondas do Mar batendo contra as pedras perto da choupana onde morava com a família? Mas sabia que o Mar era traiçoeiro e impiedoso, fora descobrir isso também pequeno quando a fúria da Natureza arrastara a choupana localizada há centenas de metros da praia em terreno firme e varreu todos os vestígios de sua família. Separados pela miséria, pela discórdia e principalmente pela ganância. Foi vendido por poucas moedas para uma família abastada do Norte sem nem verem seus dentes, logo descobriria que o ditado encaixaria muito bem em sua vida.

O suor sempre presente em seu corpo, ou no trabalho árduo nos estábulos cuidando de cavalos, puxando carroças com as mãos, deixando os filhos mais novos o fazerem de montaria. A terra tão presente debaixo de seus pés começou a lhe dar raízes fortes, tomou gosto pela vida rotineira da grande fazenda, apreciava cada refeição rala dada pela criadagem como se fosse a última, corria pelas campinas no meio da noite a procura de lobos e criaturas diferentes (E como as encontrou!), insetos de diversas formas, tamanhos e composições eram seu passatempo favorito para estudar e pesquisar e perguntar aos mais velhos. sabia de cada picada, cada lesão, cada peçonha, cada bater de asas, cada roçar em sua pele de noite enquanto dormia. Os vagalumes o fascinavam inteiramente, vê-los sobrevoar as campinas misturados a névoa fina era como estar conectado a algo superior que ele não compreendia. E a única coisa superior que ele havia visto em toda sua curta vida fora a onda enorme que o Grande Oceano baixou sob a praia onde vivia quando criança.

As chuvas torrenciais que ajudavam a colheita crescer, os pés descalços afundados em um charco lamacento recuperando as batatas que brotavam pra cima do solo, a terra debaixo de seus pés, isso sim o fazia querer ter raízes, ter uma vida ali, seja onde fosse, com o mesmo que tivera antes, com o mesmo que os outros diziam que era digno de se ter, queria ser como os outros rapazes e seus sonhos férteis de vida domiciliar, queria uma família para cuidar, nutrir, sustentar, aprender, ensinar, queria ser comum. Mas ser comum não era para estar em seu livro da vida.

[conto] Forgiven: as consultas na madrugada

Mais outro conto que não finalizei, mas não posso ficar com nada na fila do final de ano. Esse é do cenário de Forgiven Jojo Ulhoa, um conto enooooorme e velhaco que fiz em 2007 sobre uma criaturinha que perdura no meu trato digestivo (Não, não andei dando uma de Cronos e comendo meus filhos, mas se é pra dizer que o ego trágico da Jojo costuma estar emaranhado perto do meu baço, aí sim).

Como o incrível resumo do NYAH! Fanfiction diz: A vida de uma legista hipocondríaca e com problemas de aceitação. Com vocês, Joanne Ulhoa, a louca.
(Jzuis, preciso atualizar esse bichinho ano que vem!)


Nunca fui de acreditar em contos-de-fada, muito açucarados para meu gosto, muito exagerados nos detalhes fantasiosos, pouco consistentes com a Realidade que eu constantemente via e vivia. Contos-de-fadas serviam para aliviar pessoas de sua trágica existência, confortavam crianças despedaçadas pela sociedade e às vezes... às vezes, eles costumavam povoar meus sonhos como um enxame de pensamentos aleatórios que ocupavam minhas manhãs mesmo após acordar.

Com o tempo fui aprendendo que contos-de-fada são construções simbólicas de determinações morais de nossa modernidade, algo que a burguesia capitalista instituiu em nosso meio para padronizar comportamentos, taxar aspectos moralistas, vincular o status quo com a existência humana. Muitos filósofos e pesquisadores desprezavam tal literatura para instruir seus discípulos, mas as massas, elas adoravam contos-de-fada.

A vida nos ensina que contos-de-fada não são reais, não há "Era uma vez" cada manhã que se acorda, não há "Final Feliz" no final do dia, não há príncipe encantado de armadura reluzente em seu alazão, nem beijo apaixonado no final da tarde com o sol a se pôr, os mocinhos se dão bem, os vilões sempre se dão mal. Nada disso acontece realmente. Não há extremos na vida que vivo, apenas borrões entre os termos. Como odeio isso.

Arrasto-me para mais outro plantão, minha cabeça pulsando mesmo com o gosto amargo da aspirina em meu paladar, o cochilo na sala dos internos não adiantou muito para remover os resquícios de uma bebedeira na noite anterior, jamais deveria ter pedido o turno de final de ano, sabendo o quanto de álcool poderia ser consumido pelos meus amigos (o que raios a Tracy não me ligou até agora? Coloquei a guria no táxi e ela nem para dar notícias se tinha chegado bem?!), jamais deveria ter enfiado meus pés pelas mãos ao tentar me aproximar novamente do meu projeto científico mais interessante em todos aqueles anos.

Aperto o botão para o subsolo e sou seguida pelo senhor da manutenção, um homenzinho mirrado, grisalho, com cheiro de água sanitária, desinfetante floral e uniforme mais desgastado que aquele prédio. Ele sorri em silêncio, respondo com um breve aceno de cabeça, não sei se meus lábios estão preparados para arriscar um sorriso amarelo (Não quero tentar igualmente), esperamos até o elevador chegar ao seu destino e a porta abrir com um rangido esquisito. Agradeço-o por manter a porta aberta para mim e me preparo para o pior: as macas no corredor para o necrotério do Hospital.

Essa rotina maluca de visitar o sujeito de pesquisa não estava fazendo bem para minha cabeça. Tudo bem lidar com os problemas dos outros, lares destruídos, casais com problemas, insegurança de homenzarrões do Exército, mas nada superaria o impacto que eu tinha toda vez que saía daquele elevador e dava de cara com aquele corredor vazio, gelado, de iluminação absurdamente alta, com zumbidos de maquinário funcionando para manter a temperatura ideal para retardar a decomposição dos cadáveres esperando nas macas enfileiradas, apenas esperando a próxima rodada. Odiava mais ainda o que teria que lidar quando entrasse na sala de atendimento, era como revisitar o Katrina e ter todo o tipo de lembrança ruim que aquele lugar perturbado trouxera para a gente. Eu felizmente conseguira me manter sã e salva com muita meditação, aulas intensivas de pilates, limpando bem meu corpo com uma nova dieta saudável e bem formulada, e felizmente tendo alguém para conversar quando o pânico e os pesadelos chegavam. Já o meu sujeito de pesquisa se enterrara em um PhD maluco em outro estado, achando que iria espantar seus demônios com trabalho de campo e estudos.

Como se a Ciência pudesse salvar a gente.

[conto] parada pra breja

Comecei a escrever, não terminei, vou postar assim mesmo.
(Aí sou obrigada a terminar porque postei, lalalalala)

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A criaturinha miúda arrastando os pés descalços, vestida como um acidente de carro, totalmente de preto e maquiagem pesada, parou na frente do balcão do trailer, deixando seus sapatos de salto agulha impossíveis no chão e pousou o queixo redondo na superfície de madeira pintada.
 - Baixa uma breja, monsenhor! - pediu ela levantando o dedinho mindinho e fechando os olhos com um longo suspiro. O homenzarrão que atendia dentro do trailer, alternando entre a preparação de um cachorro quente e uma leva de batatas fritas virou-se para ela com um hambúrguer lotado de recheio.
 - Chica, você sabe muito bem que não sirvo bebida alcoólica pra criança... - e batendo os dedos na travessa de alumínio com condimentos, ele chamou: - Mesa 42... - Angie pensou que o hambúrguer era para ela, mas levou um belo tapinha repreensivo do cozinheiro, indignada em seu estado de exaustão no meio da madrugada ela o olhou com revolta.
 - E-eu não sou criança! Tenho mais de 18 anos! - Emilio virou-se de novo para a chapa e continuou o preparo de mais um prato rápido para os poucos clientes da madrugada.
 - Apresente um documento de identidade válido e aí libero a bebida... - ela procurou nos bolsos inexistentes de sua saia frufru em fiapos e cheia de cintas de couro, rolou os olhos para o lado. A mesa 42 estava vazia. - Mesa... - Toby chegou esbaforido, ajeitando o pano de prato no ombro e sorrindo largamente para a cliente de sempre.
 - Boa noite, Angela...
 - Buenas noches, doguitozito... - ela disse sorrindo cansada para ele e o cumprimentando com o toque de mãos que haviam ensaiado tanto durante as reuniões no Clube de Caça. Toby pegou o hambúrguer e foi para a mesa 42. - Oh seu Emilio Santiago, não tem ninguém na 42, posso comer no lugar do cidadão faltante?
 - Tá maluca, anjinha? - questionou Emilio olhando para a mesa e acenando seriamente.
 - Tou vendo ninguém ali... - e realmente não havia ninguém sentado na mesinha de plástico barato com banquinhos de alumínio, o sanduíche entregue sumiu assim que tocou a mesinha. - Eeeeeeeita, o que é isso?! - exclamou a menina acordando de seu estado letárgico, seu corpo reagiu na hora com o sumiço do sanduíche. Toby veio andando com um gingado diferente no andar manco. - Tá soltinho aí por quê, oh Toddynho? Cê acabou de ver...
 - Os parentes do Toby finalmente estão frequentando o lugar...
 - O quê?! - Angie perguntou boquiaberta.
 - Alguns não gostam de aparecer para os humanos, então só dão um pulinho rápido por aqui e somem pro outro lado do véu... - explicou o menino-lobo endireitando a postura dela com uma puxada de leve nos ombros dela para trás. A garota feérica o olhou entediada.
 - Alguém pode explicar para eles que isso não é elegante? Tipo, confraternizar com a comida é algo sagrado nas minhas bandas... E não fazer sanduíches sumirem não é lá... muito... perigoso para um filho mais novo ver? - a pergunta foi feita para Emilio, mas quem estava ao lado de Angie era o mendigo do Arges, devorando silenciosamente as batatinhas fritas e sorvendo todo o refrigerante escuro que Angie detestava colocar na boca. - Okay, aparições como essa também assustam os clientes... Por isso você não tem caixinha no final do turno, Emilio. - ela tentou desconversar, olhando o mendigo de cima abaixo.
 - Bom ver você, Willian... - o mendigo grunhiu uma resposta positiva e continuou comendo sem parar.
 - Por Danu, olhe só você... Mal saiu lá do subterrâneo e está engordando com comida saudável e o líquido corrosivo do capitalismo... Parabéns...






sexta-feira, 29 de novembro de 2013

[conto] conversações com alguém em particular


Os biscoitos delicados se esparramaram do pratinho decorado com entalhes prateados para o chão de cascalhos, pétalas de ipês roxos e areia fina e perfumada. As mãos desajeitadas que deixara cair o complemento daquele chá costumeiro antes do anoitecer não conseguiram alcançar o chão e limpar a bagunça feita, o nervosismo aparente da pessoa mais alta, suja e de aparência maltratada pelo tempo não deixava sua coordenação motora muito boa.

Quem apanhou os biscoitinhos delicadamente foi sua eterna musa, donzela tão afável e fagueira que o acompanhara desde criança quando ainda era uma pequena criança inocente no velho Eire. As mãozinhas delicadas da ninfa recolheram os fragmentos dos biscoitos finos e os colocaram de volta ao prato de onde haviam caído. Após um breve momento de silêncio constrangedor, o gesto convidativo da ninfa para o pratinho decorado foi aceito com um rápido gesto, mãos desajeitadas que trituravam o alimento, levando todos os biscoitos diretamente a boca. De boca cheia e mãos descoordenadas por muito tempo atadas às costas, mãos que não serviam mais para fazer absolutamente nada que prestasse quando era vivo, apenas o agarrar grotesco e trêmulo em cima do alimento que o serviam para aliviar sua doença.

A ninfa, graciosa em seu jeito de ser, perfumada naturalmente com uma fragrância de morangos e vinho branco, sentou-se a frente dele, serviu uma xícara de chá para si e em um pote de madeira entalhada serviu o de seu convidado inesperado. O suspiro satisfeito dado pela linda filha da Grande Floresta chamou atenção do mais alto - desconfiado do jeito que sempre fora - agora tentava se lembrar como era o comportamento de um gentleman que fora antes. Seu rosto quadrado e muito desfigurado dos séculos de castigos corporais, sol, tempestades de areia e destroços tombou para um lado, decifrando aquele suspiro vindo dela, a pessoa que mais confiava dentro de seu coração.
 - Não seja tímido... Vamos, beba... - ela anunciou indicando o chá servido no pote. Ele titubeou na resposta corporal, poderia estar delirando novamente como muitas vezes delirara em sua prisão. Poderia ser uma armadilha e aquele pote fosse o seu passaporte para o tormento temporário de muitas dores infligidas e que seu corpo cansado jamais se acostumava. - Ou poderia ser só chá de morango, Annami... Vamos... Beba…
 - O nome é Willian... - ele resmungou pegando o pote como conseguia e surpreso ao ver a mágica feérica tomar conta daquele objeto emadeirado se encaixar exatamente nas curvas nodosas de suas mãos atrofiadas. O segurar na mão esquerda estava firme pela primeira vez em 125 anos, um sorriso surgiu debaixo da barba espessa e irregular, lábios ressequidos alcançaram a borda do pote e beberam todo o conteúdo sem derramar uma gota fora, um risinho amigável vindo da ninfa encheu seu coração de novas energias.
 - Você pode mudar de nome, de rosto, até de corpo, mas para mim sempre será Annami... - ela bebericou o seu chá com uma fineza impecável, ele recuperando um pouco das forças, forçou os ombros para trás para ficar ereto na postura, mas os ossos doloridos de estar sempre nessa posição no cativeiro, o fizeram mudar de ideia. Curvado ficou, mas entendeu que deveria se portar como um moço de família, como um cavalheiro, estava na presença de uma melíade, não poderia se envergonhar com suas maneiras primitivas. - Você pensa demais... - ela disse pegando um morango açucarado e retirando um pedacinho da pontinha. Com a destreza de uma elemental da terra (E mais por ser uma criatura travessa), apontou o fruto no nariz do homem turrão a sua frente e o acertou em cheio.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Revista Pacheco: Café Literário: Testamento de Uma Mendiga

Revista Pacheco: Café Literário: Testamento de Uma Mendiga: Aos meus pais, deixo meu desprezo, tamanha é minha revolta pelo abandono; Para as madames de nariz fino, deixo o odor de minha carne a de...

Esse conto é um #AngieFeelings do dia.
O Roe Mesquita foi uma criatura linda que conheci na FIQ de 2011, com uma cabeça feita tão boa e mente aberta tão expansiva que não há o que comentar aqui o quanto ele é FODA no que faz.

domingo, 8 de setembro de 2013

[conto] nunca duvide do zelador

A madrugada se estendia quando sua vida era cercada de códigos para se desvendar, segredos para se criptografar, mensagens para se codificar e reter mais líquidos para hidratar o corpo curvado e cansado que a maioria de seus "colegas" de profissão.


Ser a programadora júnior do laboratório de banco de dados de uma grande universidade não era algo que ela almejava em sua curta vida. Era um emprego bom, pagava as contas, mantinha sua dieta fraca e nada saudável, conseguia ter mais acesso a lugares mais distantes do que ao fazer sozinha em casa em seu modem mixuruca impregnado de limitações dos Tecnocratas, ali na universidade o poder de alcance era explorado ao máximo, para que assim ela pudesse estar conectada a Realidade Virtual sem ter o incômodo de ter alguém espreitando pelo seu cangote ou ter a Polícia Secreta batendo na porta dando voz de prisão por "crime virtual".

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

[Projeto Feérico] Trecho nº 3 - Estrelas estão no chão

A conversa não era tão amena como costumava ser. Havia aquela sensação de urgência disfarçada, às vezes palavras escapavam sem poder se conter. Na maioria das vezes era melhor respeitar o maldito silêncio que pregavam do que ter uma conversa amigável.
 - Andas muito quieta. Aprontando alguma? - a voz ao seu lado a fez sair dos pensamentos difusos que tinha para o próximo plano. Não era tão arriscado, mas precisava ter certeza que nada sairia errado. Não desta vez. Havia muita coisa nas entrelinhas para alguém perceber no que realmente aquela caçada a quimera-ônibus-escolar realmente significava. Ela fora o começo, e pelo jeito seria o fim.
 - Não que eu saiba... O clima não tá muito bom pra travessuras... - respondeu apenas abanando a cabeça com uma das mãos enluvadas.
 - Perdes um pouco do brilho quando o Inverno chega.
 - É esse vento frio chatonildo... Não gosto de ficar tremendo que nem vara verde... - o homem ao seu lado riu baixo, como se estivesse esperando aquela exata resposta. Tudo com ele parecia ser tão esperado e constatado, ele sabia de absolutamente tudo sobre ela, e ela apenas sabia que seu Dom da Sina não adivinhava nada sobre ele. Deu de ombros, não poderia reagir de outra forma. Quando criança ainda tinha fôlego para discutir sobre os encantos e adivinhações enigmáticas do Mestre, agora que passava para a vida adulta aprendera a escolher bem as palavras com algumas pessoas. Os dois mirando a escuridão do céu limpo do Inverno na Metrópole era como um ritual de entendimento solidário e solitário. Cada um em sua forma de se expressar carinho. A aprendiz cobriu a cabeça com o capuz felpudo de seu casaco, soltou um suspiro de frio e viu a condensação do ar formando em volta de seu rosto pálido, gostou do que viu. - Cê acha que vai nevar?

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

[conto] defiance - o grupo sem nome

[o grupo sem nome] por: @_brmorgan.
Cenário: Defiance - jogo e parcialmente alusão ao seriado.
Classificação: 16 anos (morte, distorção de convenções morais, violência)
Capítulos: 1/?
Resumo: Na nova Terra de 2046, um grupo distinto e sem nome vaga pela Paradise (Antes território de San Francisco, EUA) combatendo o Exército Mundial de Coalisão - EMC - por motivos não tão nobres assim.

N/A: Era pra ser um one-shot direto, só com diálogos, acabou sendo transformado nessa contextualização chata aí. Mas sempre é bom, entendo que muitas pessoas jamais viram ou jogaram o game e conhecem pouco do seriado. Então não sejam bobinhooooooos, tira o atraso e vão ver Defiance!

Capítulos: [1] - [2] - [3] - [?]

===xxx===
A dinâmica de línguas não era comum a todos na pequena comunidade nômade em que viviam. As pessoas de fora os chamavam de outcasters, favelados, madrugueiros, ladrões, sequestradores de crianças, roovers, e outras palavras em diversos idiomas que talvez eles não tivessem nunca ouvido na vida. Eram poucos, de algumas raças, votanis e humanos, de idades variadas e especialidades múltiplas, todos com o mesmo objetivo: proteger as pessoas do EMC - Exército Mundial de Coalisão.


domingo, 18 de agosto de 2013

[conto] o banco e a conversa

O primeiro encontro foi por acaso, algo como estar na vendinha 24 horas e "coincidentemente" topar com a pessoa assim sem saber como. Apesar de muitos anos terem se passado entre as duas, o primeiro olhar trocado depois de tanto tempo mostrava que a distância não havia mudado muito o que sentiam uma pela outra. Sorriram uma para a outra, trocaram algumas palavras triviais sobre a rotina e ao abrir a porta de vidro da lojinha, cada uma tomava sua direção.

Algumas vezes isso acontecia no meio da tarde, outras vezes no meio da madrugada, poucas vezes a "coincidência" se mostrava genuína, porque sempre havia ali um pequeno carrinho de emoções a ser segurado por uma das duas. Era muito tempo sem se falarem direito, uma distância conhecida quando não se conhece mais com quem está conversando, mesmo se uma delas fora a primeira pessoa a jurar a outra que iria passar o resto da vida ao seu lado.

As compras foram poucas, para uma as sacolas com comida eram incógnitas sobre uma indecisão do que comer quando chegasse em casa (Nunca sabia o que alimentar os filhos sem se repetir), já para a outra era uma simples distração do que poderia fazer agora que voltara para casa (Nem fome sentia direito). Antes da porta de vidro abrir e fechar automaticamente, a mais velha lançou uma pergunta simples, mas que incomodava bastante as duas:

 - Quer conversar um pouquinho?
 - Conversar? Já não estamos? - respondeu a mais nova esperando que a mais velha desistisse da ideia. Conversar estava fora da sua esfera de sociabilidade, não enquanto pudesse consultar o conselheiro novamente e perguntar se era necessário restabelecer algum contato, qualquer contato com pessoas de seu passado. Tudo era muito delicado naquele novo mundo desde que voltara do outro lado do globo terrestre.
 - Tudo bem se não quiser, eu...
 - Não, beleza... Bora conversar então... - a mais nova se ofereceu para carregar algumas compras, a mais velha recusou, uma argumentação sobre peso de compras e estatísticas de problemas de coluna na família da mais velha foi o pretexto para dividirem as sacolas. Uma conhecia bem a outra para recusar um gesto de gentileza.