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segunda-feira, 5 de junho de 2017

coisas produzidas pelos sonhos

Quando se é uma criança com uma imaginação fértil em uma época onde a tecnologia afetava timidamente o que poderia ser produzido depois, tive sorte de ter sido criade numa casa onde tinha quintal enorme.
Dreams, inconsistent angel things...

Já comentei das peripécias de viver na Tiago da Fonseca durante os anos 90, como isso me afetou na escrita e na produção de sentidos para as realidades em que estive inseride. Sonhos estão comigo tão vívidos desde pequene, felizmente muitos me dando inspiração para escrever e narrar histórias - nem que seja só para mim mesme, todo mundo precisa de um pouco de ficção pra não ficar insano - outros, os pesadelos, tem estado comigo também desde que mudei de estado ali na metade de 1994.

Coincidentemente meu contato com bibliotecas foram nessa mesma época. Perceber o mundo de um jeito mais crítico também. Mas os pesadelos estavam ali por algum motivo que não se dá para tocar quando criança, às vezes nem é bom, pois para digerir isso quando novinhe se faz um esforço tão grande que acaba ferrando com a cabeça depois.

Pra quem tem muitos pesadelos desde criança, até que tou bem quanto a eles. Não afetam mais como antes. Comecei a escrever o que lembrava deles após acordar em uma antiga sessão do primeiro Blog que tive (DelusionalWounded, geocities disse bye-bye, weblogger do Terra também, depois domínio próprio e aqui no Blogger pra virar esse que você lê agora), a tal da "Sonhos estranhos com detalhes"


My beautiful grief
Your dreams are my torture

Your dreams my relief



Depois de descobrir como se faz para manipular sonhos - o que chamam de sonho lúcido - durante meus 20 e poucos anos e entender que sonhos, sejam eles bons ou ruins, fazem parte da nossa criatividade querendo dar as caras para algo a ser produzido, transformei muitos sonhos/pesadelos em contos. Das melhores experiências no mundo onírico, consegui tirar um projeto de cenário para fadas - Projeto Feéricos tá devagar, mas tá indo - e mesclando com cultura popular, cinema, música e performance. Dos pesadelos intricados, dolorosos e traumatizantes, consegui compreender como a vida no mundo real, sólido e tátil pode ser uma dádiva a ser aproveitada a cada segundo. Deles também tirei inspirações para muitas histórias, questionamentos, pesquisas, realizações. Sonhar com a própria morte dezenas de vezes numa mesma noite não é saudável para ninguém, mas acabei percebendo que cada batida de cartão ao patrão Morfeu, uma lição era aprendida: nunca subestime o poder do ID, do subconsciente.

No Projeto Feéricos comecei a delinear algumas histórias que tomassem a narrativa desses sonhos, afinal tudo começou com uma menininha mendiga com um mochilão maior que ela, no meio de uma chuva torrencial, debaixo de um prédio cheio de escombros, me ajudando a lutar contra um monstro feito de vigas de ferro retorcido e pedaços de reboco e concreto. A Angie nasceu ali, de um sonho escabroso em uma noite de verão após chegada ao Rio de Janeiro, perto de um local onde uma tragédia aconteceu décadas atrás e que só vim saber depois quando contei o sonho pra uma pessoa da família que mora na cidade.
(Links para as notícias [x] [x] [x])

Com esse template de narrativa feita, e devorando o Manual Básico de Changeling the Dreaming, veio a confecção de um mundinho muito aproximado do nosso, com muita mistureba da nossa cultura com os diversos lugares que já estive/passei/morei. A Metrópole que é citada nos contos é uma mescla entre centro do Rio de Janeiro, centro histórico de Florianópolis e um pouco de Belo Horizonte. Cada pedaço ali descrito é meio que revisitar esses lugares que passei tanto tempo admirando ou correndo. O Posto 2 do Zé Ferreira, Dona Alcidez e Angie criança é total Avenida Rio Branco, desde a frente da Rodoviária com os hangares portuários, até lá o final chegando na praça dos Bombeiros, passando pelo antigo Hospital Psiquiátrico Pinel.

Mas pra quê isso tudo? porque acabei trombando com esse cara.

Zdzisław Beksiński era um pintor polonês que passou a vida toda pintando sobre seus sonhos. e o que ele via lá eram coisas beeeeeem estranhas por assim dizer. Muito da arte dele é grotesca, vívida e surrealista, então para ter um pouco mais de atenção nas pinturas tem que ter um estômago mais ajeitadinho, uma cabeça mais acertada com certas temáticas. o surrealismo dele, onírico por assim dizer ultrapassa muito das nuances que a gente, meros mortais, consegue produzir com a imaginação.
Nem nos meus piores pesadelos eu tenho lembranças de material como esse.

Duas pinturas que me impressionaram pelo detalhismo e a semelhança tão f*** com o que eu imaginava para o cenário de Projeto Feéricos são essas aí abaixo:

'Dolina Śmierci do artista polonês Zdzisław Beksiński -  (Fonte: Carajaggio)

Essa pintura já havia colocado no conto que escrevi semana passada "Como pesadelos são construídos" ilustrando o feeling das andanças da Angie. Em termos de jogo - Changeling the Dreaming - a Angie tem as skills de passear entre Trods, é como se fossem passagens secretas entre tempo-espaço, poucas fadas conseguem fazer isso com segurança, e como a Angie tá enquadrada como Eshu no RPG, ganha uns pontinhos a mais... Tem todo um background de como ela consegue passear entre mundos, isso vai sendo explicado depois. Há esse rascunho mal processado que escrevi na época em que o cenário tava tomando forma, problemas de bloqueio vieram depois, aí não produzi tanto quanto queria.




A imagem do ônibus abandonado é perfeita para a quimera-ônibus que surgiu depois de um sonho esquisito com caçadores de pokémon que eram fadas (?!) e eu participava do grupo com o sarcasmo e o lolz. Até hoje esse sonho norteia qualquer mudança que eu vá face no cenário de Feéricos, por conta de ser como visualizei primeiro como seria a dinâmica entre os personagens. Tudo bem que Angie não tava lá, mas a forma dos personagens estavam, a motivação também.

O ônibus-quimera é uma daquelas alegorias de pesadelos estáticos que volta e meia visitamos de tempos em tempos, arruinado, enferrujado, pichado e trazendo ferro frio em sua constituição traz todo o pavor possível para qualquer feérico que seja obrigado a estar perto dele. A quimera se manifesta silenciosa, na forma do ônibus e levando seus passageiros para um lugar onde os sonhos estão paralisados.

Vi um ensaio de fotografias de exploração urbana na cidade de Pripyat, onde fica a usina nuclear desativada de Chernobyl, Ucrânia e não sei se vocês sabem, mas lá é inabitável pelos altos níveis de radioatividade no solo, na água, e até no ar respirável em alguns pontos. Tem uns malucos que fazem turismo por lá com todas as precauções feitas pelo governo para não haver contaminação radioativa, aí nas fotos, uma me chamou atenção: o parque de diversões da cidade.

O parque foi para Engel, o ginásio foi a ponte para introduzir a Angie no grupo, já que a menina é ligada ao caos e ao vazio. A desolação de Pripyat mais essa peça do polonês dão um tom para a trama da Angie que me fez questionar algumas coisas na personalidade da personagem eternamente adolescente:
- Como ela chegou ali? 
- Por que ela está ali? 
- Paradas de tempo são possíveis em sonhos? 

O ônibus-quimera respondeu a tudo isso, além de dar um adicional pra Angie, ela sabe o que é ficar entre o Sonhar e o Limbo, ela compreende o que é perder o Glamour para algo tão banal quanto ao tempo.

Ou a minha primeira reação ao ver um quadro dele: "That's the real stuff made by nightmares." e saiu em inglês mesmo dentro da minha cabeça, porque não consegui traduzir isso direito pro português: "Coisas bisonhas produzidas por pesadelos" e aí bati o olho no Manual de Changeling e pimba! Tá lá os Pesadelares como descrição disso mesmo que tive a primeira impressão.

Escrever com algo que está posto na realidade é gostoso, gosto de moldar mundos como se brincasse novamente de Lego - só que com as palavras né? - o que é mais intricado em fazer é adicionar os elementos dos sonhos nisso tudo. E é aí que comecei a escrever esse texto: encontrei o artista perfeito para ilustrar algumas passagens das minhas escrivinhações.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

[Projeto Feérico] Trecho nº 3 - Estrelas estão no chão

A conversa não era tão amena como costumava ser. Havia aquela sensação de urgência disfarçada, às vezes palavras escapavam sem poder se conter. Na maioria das vezes era melhor respeitar o maldito silêncio que pregavam do que ter uma conversa amigável.
 - Andas muito quieta. Aprontando alguma? - a voz ao seu lado a fez sair dos pensamentos difusos que tinha para o próximo plano. Não era tão arriscado, mas precisava ter certeza que nada sairia errado. Não desta vez. Havia muita coisa nas entrelinhas para alguém perceber no que realmente aquela caçada a quimera-ônibus-escolar realmente significava. Ela fora o começo, e pelo jeito seria o fim.
 - Não que eu saiba... O clima não tá muito bom pra travessuras... - respondeu apenas abanando a cabeça com uma das mãos enluvadas.
 - Perdes um pouco do brilho quando o Inverno chega.
 - É esse vento frio chatonildo... Não gosto de ficar tremendo que nem vara verde... - o homem ao seu lado riu baixo, como se estivesse esperando aquela exata resposta. Tudo com ele parecia ser tão esperado e constatado, ele sabia de absolutamente tudo sobre ela, e ela apenas sabia que seu Dom da Sina não adivinhava nada sobre ele. Deu de ombros, não poderia reagir de outra forma. Quando criança ainda tinha fôlego para discutir sobre os encantos e adivinhações enigmáticas do Mestre, agora que passava para a vida adulta aprendera a escolher bem as palavras com algumas pessoas. Os dois mirando a escuridão do céu limpo do Inverno na Metrópole era como um ritual de entendimento solidário e solitário. Cada um em sua forma de se expressar carinho. A aprendiz cobriu a cabeça com o capuz felpudo de seu casaco, soltou um suspiro de frio e viu a condensação do ar formando em volta de seu rosto pálido, gostou do que viu. - Cê acha que vai nevar?

quinta-feira, 4 de abril de 2013

[Projeto Feérico] Trecho nº 2 - O Caminho do Fio de Prata

[começo da saga dos Eshus Dançarinos das Estrelas - Ângela e Stardancer - para uma breve apresentação da interação dos dois viajando em um Trod desconhecido, esse foi um exercício de escrita muito bom para mostrar os lados emocionais e racionais de cada um. Angie tem no máximo 11 anos e Stardancer está cuidando dela por 2 anos]

A trilha no meio do nada era escura e nevoenta. O calor que subia da terra escura e fina fazia com que seus passos ecoassem de maneira assustadora. A mão que pousava em suas costas miúdas demonstrava que era para ela seguir a frente, mesmo que não houvesse luz alguma para orientá-los. O fio de prata que surgia aqui e ali era a guia temporária para que pudessem fazer um percurso seguro e sem problemas e sempre havia problemas em caminhos como aquele.

A cada barulhinho diferente, um chiado esquisito, uma pedrinha que era chutada sem perceber, tudo era razão para que seu Mestre Stardancer sair do modo enigmático para desferir um olhar feroz para a escuridão. Mas nada acontecia de fato, apenas o fio de prata, a estrada vazia e os dois caminhando cuidadosamente. Ângela se sentia inquieta. Não por estar na presença de alguém tão sábio e aventureiro como Stardancer, mas sim por estarem tanto tempo em silêncio. O Mestre não falara nada para onde iriam e como chegariam seja lá qual fosse o destino, Ângela não estava acostumada a isso, não em sua pouca idade quando era a Fome que se encarregava de guiá-la em praticamente tudo em sua curta vida.

Outro olhar feroz para o nada quando ouviram um arrastar na terra escura. Um escorpião quase transparente, de cauda pulsante passou por eles como se nem os visse. A curiosidade infantil e inocente fez o corpo de Ângela trocar os passos e seguir o caminho do escorpião. A mão antes guiava a deteve com uma força sobrenatural. Ela não exprimiu a surpresa e a pequena dor que sentiu ao ser puxada de volta para o caminho do fio de prata, mas lançou um olhar de estranhamento e questionamento para o Mestre.
- Não desvies de teu caminho, little girl... Somente os teus passos é que desvendam o Caminho de Prata... - após isso o silêncio se restabeleceu novamente, mas agora a sensação era diferente da confusão de não saber para onde estavam indo: Era a notória provocação que a impulsionava a perguntar coisas que não deveria.
- Para onde vamos?

terça-feira, 19 de março de 2013

Projeto Feérico: Ângela (sem nome)



Durante os meses de hiatus, tive alguns insights devido a aproximação com o cenário de Changeling - The Dreaming. Claro que despertou minha curiosidade, já que o pouco que eu conhecia antes de realmente jogar era um vasto cenário de fadas no Mundo das Trevas, mas nada de concreto para se começar uma crônica ou conto.

Aí veio a Ângela.

Um esforço em conjunto para parir essa menininha confusa, moradora de rua (Minha obsessão com moradores de rua tem se mostrado forte desde o Ano Novo de 2011), perdida e extremamente arrogante. Angie é uma criança feita dos sonhos do mundo moderno decadente, cheia de idéias espalhafatosas que podem dar errado caso sejam aplicadas em lugares errados. Sem nome, sem casa e sem destino, ela vaga pelo mundo em suas andanças na companhia de seu Mestre Stardancer (Atualmente desaparecido) e reinventando a Realidade onde vive.

A 1ª concepção de uma personagem mendiga veio de um sonho enquanto estava lá no Rio de Janeiro, lendo ávidamente o livro de referência e curtindo a densa chuva de verão do final do ano. No sonho, uma menina mendiga saía de um prédio abandonado que tinha perto de onde meu primo mora e conseguia viver bem como indigente e salvando o dia de jovens indefesos socialmente como ela. Uma Robin Hood sem causa e sem muitas convicções, a menina mendiga só tinha um objetivo instantâneo: nunca ficar com fome.

A sensação de ter um vórtex no meio do estômago já me era conhecida ao escrever sobre a ladina Lady Annie de Shindu Sin'dorei, a menininha anarquista, cria de Chronalis (Filho de Nozmordu) e que vagava pelo mundo atrás de aventuras aleatórias e de experimentar comidas diferentes. Tudo, literalmente, no mundinho da Lady Annie era voltado para a apreciação de comida. Até seu vocabulário era influenciado por essa vontade primitiva de se alimentar (#zombiefeelings). O curso natural foi transferir essa habilidade bizarra de comer, se empanturrar até dizer chega e nunca estar quieta no lugar. Sim, é minha versão da Magali, já que o Maurício decidiu tratar da Compulsão Alimentar.

Em um primeiro sketch feita em uma ficha improvisada, a Ângela (Que não tinha nome ainda) era uma menina de rua, sem ninguém para cuidar dela, com poderes esquisitos florescendo enquanto crescia e uma fome insaciável. Como escritora masoquista, quis dar um background de vida passada sofrida para ela como uma criatura evoluída de alguma Corte Changeling, mas que estava tão obcecada com seu próprio poder adquirido que a única forma de se manter viva e sã deveria ser devorar o Sonhar de outros Changelings. Creepy stuff né? Mas eu estava em passos iniciais ali.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Projeto sem título no Planner 5D - Térreo do Hotel

Projetinho de planta baixa para ambientação de aventuras de Changeling - o Sonhar. Comecei anteontem e já está tomando forma no Planner 5D. É um hotel abandonado, sombrio e de esquina em alguma metrópole qualquer aí desse mundo nosso, tem muito espaço e coisas entulhadas nas paredes, estantes de livros everywhere!

Os protagonistas do conto vivem aí e é o quartel-general para o grupo de caçadores de Quimeras costuma ser ali na cozinha ou na sala de estar com a sinuca. Indo agora para o 1º andar com os quartos vazios ver o que sai. Mais info sobre esse conto postarei posteriormente com um perfil resumido de personagens.


Depois de um belo tempo sem escrever, finalmente consegui a inspiração perfeita e a beta incrível e paciente para indagar e aguentar longas descrições de situações xD Apreciando cada momentinho que tenho nesse projeto, mesmo que seja apenas exercício literário, quem sabe algum dia não aproveite para uma grande aventura em um compêndio como um livro, ahn? Ahn?

Não custa nada Sonhar... (Ah custa sim, custa glamour e o meu é bem temporário lolololol)
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