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domingo, 5 de novembro de 2017

[conto com angie] a loja de quinquilharias de Madame Fabulária parte 1

Título: a loja de quinquilharias de Madame Fabulária (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feérico.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 5.974 palavras.
Status: Incompleta - PARTE 1 - PARTE 2 - PARTE 3.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feérico que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x] - sim, vai ter três partes e CROSSOVER! (Porque metade dos esquema já tá rascunhado)
Personagens: Angie, Madame Fabulária, Raine, Prince, Smithens, Nakitsumoto, Tobby, Emílio.
Resumo: A lendária Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária finalmente aportou na metrópole onde os caçadores de quimera vivem. Junto com as esplendorosas maravilhas que o loja pode trazer para os habitantes feéricos, há também certa tensão sobre quais intenções da enigmática e antiga dona do lugar. A regra geral da Loja é: somente entra quem Madame Fabulária quer que entre.



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Entrar na Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária era um segredo para poucos.
A Feérica milenar não deixava qualquer um ultrapassar o solado entre o último degrau da escadinha para o porão de um prédio qualquer da Metrópole. E os poucos escolhidos que entravam ali eram afortunados por algo que nenhum outro local na grande cidadela poderia oferecer: glamour dos tempos antigos, produtos exóticos, artefatos lendários de imenso poder ou apenas de enfeite.

Madame Fabulária era uma lenda entre os mais velhos, até entre os mais sábios lembravam em como ela havia chegado ali naquela mesma cidade, sem nenhum plano ou apresentação formal a hierarquia. Encontrou o porão de prédio ocupado por um empório de um turco falido, decidiu casar com o cara e pronto, se instalou como a "Madame que tudo sabia".

Poucos discordavam com essa versão da história. 
Era difícil ter uma versão verídica de como os Feéricos mais antigos chegavam na Metrópole justamente por não haver registros escritos na principal Casa dos Saberes sobre o assunto. Tirar essa história da pessoa em si era mais extenuante ainda (Se não, perigoso demais.).

A Madame continuava a mesma de quando chegou. 
Baixinha, um pouco curva no lado esquerdo do ombro, olhinhos puxados com aquele resquício de desconfiança da idade, cabelos volumosos de cor vermelho rúbio que jamais saíam do tom. As roupas traziam uma mescla de sua descendência feérica das terras desérticas e os exóticos apetrechos da cultura do oriente dos Filhos-mais-novos. Ela não escondia seu orgulho por pertencer a ambas culturas e por muitas vezes entrou em brigas políticas devido suas opiniões mais fortes nos Conselhos. Por ter esse privilégio adquirido por anos de experiência, Madame Fabulária sempre dava a última palavra em tudo que acontecia dentro de sua loja (Em outros lugares também, mas poucos comentavam). 

E os preços também. 
Devido a esse pequeno detalhe que fez Ângela Filha dos Ventos entrar pela primeira vez na Loja com passos apressados, apontar para algo na vitrine empoeirada e cheia de teias de aranha e exclamar com voz esganiçada:

- Tia, tá maluca de cobrar três mil pila por sementes de girassol flamejante?! - a reação da senhora atrás do balcão, lixando as unhas impecáveis e contando moedas douradas foi de desprezo fingido. Ela nunca havia visto aquela menina na sua longa vida e muito menos dado permissão para ela pisar dentro da loja. Essa era a regra primordial: somente entra quem Madame Fabulária quer que entre. A menina era a exceção. Por que depois de tanto tempo naquele lugar a regra criara uma exceção?

- Se não vai levar, não critique. - a dona da Loja não quis perder tempo olhando para essa criança feérica de energia conturbada. Parecia uma pilha ambulante de tanta vibração!
- Claro que não vou levar esse absurdo! Consigo colher um punhado dessas por menos! Dou de graça pra quem precisar! Agora três mil pila?!
- Meus produtos são para clientes especiais, você não entenderia. - Deveria ser uma nômade... pensou a senhorinha deixando algumas moedas caírem na registradora que não mais registrava preços. Eles tinham essa energia estranha que a incomodava profundamente por trazer lembranças nada boas. Lembranças de quando era jovem, vivaz, um espírito livre desbravando o mundo dos Feéricos e além.
- Oh, então vai me dizer que esse pé de coelho aqui dá sorte? - disse a garota com uma jaqueta maior que ela, par de tênis trocados e cabelos bagunçados por passar muito tempo na creche onde voluntariava durante o dia.
- Não toque se não for comprar.
- Cê tá explorando dos outros, isso sim!
- Menininha insolente, como ousa falar assim com Madame Fabulária?! - a garota arregalou os olhos e abriu a boca, mas nada saiu. A troca de olhares foi instantânea. Uma de realização, outra de reconhecimento.
- Eita. - disse a menina.
- Você!! - o dedo ossudo e inquisidor da senhora ficou em riste na direção de Angie.
- Eu, nada!! - Angie jogou as mãos para o alto como se estivesse sendo assaltada. - Ele, não eu!!
- Você e seu clãzinho medíocre! - a Madame rosnava baixinho em passos lentos, dando a volta no balcão em direção da garota que parecia estar encurralada entre uma armadura xintoísta e um armário de vidros de conserva.
- Oh peraê que xingar a mãe vale! Xingar o Clã não! - Angie fazia um sinal de "não" o dedo indicador para a mulher baixinha que vinha em sua direção. O clima da Loja foi se modificando, como uma nuvem densa e inerte estacionando acima no teto e trazendo algo muito muito antigo e pesado para o recinto. - E-e-e eu não tou mais com... Ah você sabe, dona, madame, tia, sei lá!
- O que será que aconteceria se eu espalhasse os seus órgãos internos pela fachada da minha loja? Será que alguém iria vir resgatar a sua carcaça podre? - ameaçou a Madame, Angie franziu a testa e fez careta como se não reconhecesse esse tipo de insulto.
- Sério que milhares de anos lendários entre nós e é o máximo que você pode fazer pra assustar uma pessoa? - e com um sorriso amarelo e exagerado - Vai, tenta mais uma vez pra ver se realmente dá certo... Vamos lá mocinha..
- Insolente, crédula e simplista. Vou esmagar sua cabeça e colocar os miolos nessas conservas.
- Depende do preço. Não aceito lances acima desse absurdo que você cobra em coisas que deveriam ser de graça! - retaliou Angie. A mulher mais velha já havia chegado muito perto dela, em sua fúria cega não percebeu que a armadura xintoísta baixou uma parte pesada e ficou entre as duas. Angie presa pelo armário de conservas e a armadura, Madame a encurralando.
- Como entrou na minha loja, criatura medíocre do Clã do Caminho Prateado?
- Oh agora tá melhor nas ofensas... - resmungou Angie tentando tirar a peça da armadura do lugar. Estava ficando desconfortável ali.
- Desembucha!
- Sei lá tia!
- Madame!
- Tá... Madame... - corrigiu a menina deixando os ombros caírem, não adiantaria discutir de igual para igual com alguém que tinha séculos a mais em cada dedo. - Eu tava passando pela rua... Aí vi esse preço camarada seu ali... - apontando pra vitrine. - E sério, se quer que alguém entre pra comprar, dá um trato na fachada, tá feia demais. Botar umas miçanguinhas, uns cristais, sei lá, placa de neon sempre ajuda...
- Meus clientes são especiais, eles vêm até a mim, logo não tenho obrigação de...
- Eu não vi nenhum cliente até agora. - Angie olhava em volta e tentando bolar um jeito de sair de sua posição encurralada.
- Você é uma intrusa, metida a sabichona!
- Eba, aí sim! Voltamos pro parquinho de diversões! - debochou Angie pulando a peça da armadura com dificuldade e indo para a vitrine mostrar outro preço. - Cumé que cê quer ganhar clientes com esse tréco por esse preço?! - apontando para uma caixinha de música esquisita. - O que esse tréco faz?
- É uma pandora. Captura qualquer quimera em um raio de 200 metros. E espíritos também.
- Oh. - o cenho franzido foi substituído por uma expressão apática.
- Oh o quê? - a senhora tentou em vão botar a armadura no lugar, mas com um grunhido voltou ao seu balcão. Descontar a raiva de anos na aprendiz não seria o mais sábio. Não agora.
- Tipo, contêiner de quimeras e espíritos... Vocês acreditam em espíritos?!
- Você não? - o olhar cansado de olhos claros revistou toda a figura desastrosa de uma menina curiosa apalpando um crânio de um animal com chifres. Esse pequeno gesto fez com que a Madame trocasse o peso de seu corpo de pé. Conhecia aquele trejeito de eras atrás, antes de abrir aquela Loja naquela dimensão.
- Sei lá... Essas histórias aí de fantasmas e tals não me convencem não.
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. - o semblante da menina se iluminou em um sorriso largo e cheio de interesse, em poucos passos ligeiros e hábeis chegou no balcão novamente e ficou cutucando as moedas douradas, logo perguntando.
- E qual é a diferença entre um e outro? Espíritos são como? Fantasmas existem? Hein? Hein?
- Você pergunta demais.
- Perguntar é de graça.
- Não na minha Loja. - Angie fez uma careta de desaprovação.
- Ajuda a pequena gafanhoto aqui... Como é que quer que eu faça propaganda da sua loja, se não me fala de seu vasto e incrível conhecimento...
- Não me adule. Está se passando para conquistar minha confiança.
- E tá funcionando?
- Não. Nunca. - as duas se entreolharam, uma com seu olhar de desdém.
- Eu sou diferente.
- Notei.
- E você tá explorando dos outros.
- Os meus clientes...
- Que são fantasmas ou espíritos? Eu não tou vendo nenhum...
- Madame Fabulária, que prazer enorme em visitar-lhe em dia tão lúgubre! - um senhor muito alto, de cartola, fraque e sapatos lustrosos apareceu na loja, interrompendo a conversa desconexa. Madame Fabulária ajeitou seu pente de esmeraldas nos cabelos ruivos e aprontou sua melhor cara de vendedora. Angie deu um pulo no lugar ao ouvir a voz do recém chegado e ao olhar ao redor, viu mais clientes vasculhando produtos, preços e murmurando entre si.
- Mister Freeng, sempre bom vê-lo em minha humilde loja.
- Tá, pffffff humilde, conta outra... - uma cotovelada veio debaixo, um anão estendeu um produto para o balcão e reclamou o seu lugar na fila. - Hey tiozinho, tava na fila!
- Não comprou nada, na fila não está. - disse ele rosnando. - Madame Fabulária, meus sinceros agradecimentos em nome do Clã dos Mineiros Retumbantes.
- Agradeço eu por prestigiar minha Loja, Raufn. São 13 peças, sim? - Angie olhou para o anão, para o senhor, para os clientes, depois para a feérica de humor decadente atrás do balcão.
- Okay... Eu tou saindo... Assim, tipo... indo... embora... - ela disse pausadamente para evitar algo pior. Aos poucos os seus sentidos especiais foram detectando algumas pistas nas entrelinhas. Clientes de diversas etnias, línguas e essências. Translúcidos passando por ela, concretos esbarrando uns nos outros a procura de seus produtos. O Clã dos Mineiros Retumbantes tinha sido dizimado na Última Guerra entre os Clãs dos anões em Hibernia em 1789. Eles sequer chegaram a entrar no mundo dos Filhos-mais-novos. - Véi... Véi...! - um último esbarro antes de passar pela porta com um sininho de som nítido e musical.
- Oh perdoe-me. - disse a dupla-voz de alguém translúcido, tomou forma quando recuperou o objeto que caíra ao trombar com a garota. Era uma pessoa alta e também baixa, vestido com roupas de época vitoriana ao mesmo tempo com calças de caçada, jaqueta de couro rasgada e cheia de emblemas. A dupla-voz em timbres diferentes, falando ao mesmo tempo. - Primeira vez na Loja?
- Espero que não. - respondeu ela prontamente indo abrir a porta, mas a dupla-pessoa foi rápida, puxando a maçaneta prateada e dando lugar para ela sair. A situação estava ficando estranha.
- Uma dica: sempre venha com alguém do Clã do Profundo Inverno. Eles lidam melhor com a dona... - Angie deu um okay com as duas mãos e rapidamente saiu porta afora, sem olhar para trás, subindo as escadas de dois em dois degraus. Ao chegar na altura da rua, olhou novamente para a vitrine: a loja estava vazia.

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A regra era geral: só entrava quem Madame queria.
E assim foi quando Raine recebeu um recado embolado pelo telefone de uma Angie verdadeiramente apavorada. A menina não parava de tagarelar sobre uma loja de maravilhas que brotou do nada no meio do centro com gente morta caminhando dentro (Talvez ela tenha feito piadinhas com certo filme sobre um garotinho que via fantasmas) e que a dona era uma velha sarcástica, ranzinza e altamente psicopata. Para depois mudar a história dizendo que entrou por coincidência na loja ao ver sementes de girassol flamejante pelos olhos da cara. Aí a narrativa foi para como a tal senhora, agora Madame , havia a reconhecido como aprendiz de Gaimer, e a ameaçou de expor seus órgãos na loja. Raine deixou a querida nômade terminar de desabafar sua experiência e com o pouco que conseguiu coletar de informações já sabia onde Angie havia entrado: só poderia ser a Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária.

A última vez que Raine teve notícias da mais antiga dos Feéricos fora de Hibernia fora uns 60 anos atrás, antes da Crise atingir os mais velhos. Muitos dos antigos sábios pressentiram que o mundo dos Filhos-mais-novos estava mudando rapidamente para eles poderem se acostumar e em uma medida preventiva migraram aos poucos para locais onde a magia e os mistérios ainda continuavam pairando sob o senso comum. A Metrópole era um lugar de concreto, aço e motores, abrigar almas tão antigas poderia provocar algum tipo de problema maior que quimeras rancorosas da nostalgia dos dias de antes.

Massageou a têmpora e ajeitou o rabo de cavalo bem rente a nuca. Perguntou algumas vezes se Angie estava bem, se conseguia voltar para casa e sem precisar pedir, recebeu um aceno de Tobby puxando suas muletas e indo ao resgate de uma nômade afetada pelo glamour inconstante da Loja mais antiga de toda História Feérica. O lado bom: agora poderia recuperar muitas das relíquias que precisava para estabilizar o Hotel. O lado ruim: se lembrava bem de Madame fabulária, seria um páreo duro negociar com a mulher. Esfregou os olhos e xingou baixinho para si mesma. A questão nem era negociar, era comprar. Madame Fabulária jamais iria deixá-la comprar nada na Loja.

Voltou para a sala de estar, sua leitura de relatórios espalhados pela mesa de sinuca, um cigarro na mão e outro segurando uma grossa brochura sobre quimeras que quebravam espaço-tempo. Se tudo indicava conforme as provas, relatos e o que tinha visto no Metrô na última segunda, aquela quimera que caçavam era algo do tipo. Agora quem havia conjurado tal entidade poderosa e sem consciência? Apenas um sonho muito forte faria com que isso acontecesse. O cigarro nos lábios e a baforada para cima trouxe um pouco de tranquilidade para sua mente anuviada com as lembranças que iam se movendo aos poucos. Esticou as pernas e percebeu que suas botas estavam desgastadas nas pontas. Deveria trocar. E metade de seu guarda-roupa, se quisesse ser respeitada de novo.

Bafejou novamente para cima e entre as lembranças de uma vida na Corte onde o que aparentava ser era mais importante que o que realmente era, foram para a sensação inquietante de estar sucumbindo aos poucos na vaidade dos seus. Que as botas ficassem desgastadas, que os vestidos pegassem traças, que as roupas trouxessem conforto e não admiradores. Oh sim, admiradores. Última coisa que queria lidar nessa vida de "líder".

Admiradores vinham e iam, não iria mentir para si mesma, sentia falta de alguém para compartilhar atividades debaixo de seus lençóis, apenas não apreciava muito o que acontecia após. Os Filhos-mais-novos tinham a tendência de se apegar muito rápido e não poder revelar o que era para eles era o pior nessas situações. Prince sabia lidar tão bem com as escapadas amorosas que sentia receio em perguntar qual era o segredo, até não pensar muito além: Prince era homem, aparentava tudo que as pessoas queriam, usava isso ao favor dele. Raine apenas tinha a beleza, o porte altivo e tristes histórias de encontros amorosos que não iam para frente. E um título que a afastava de praticamente qualquer um.

Outro cigarro. 
A garrafa de bourbon pela metade. 
Papelada. 
Nem era cinco da tarde.
Resolveu fazer o mais racional a fazer nessas horas: levantou em um movimento rápido, pegou seu casaco atrás da porta enorme do Hotel e verificou se as chaves estavam em seus bolsos. Abriu a porta com um pouco de esforço (Lembrar Tobby de colocar óleo nas dobradiças quando voltasse), tirou os óculos escuros do outro bolso e encarando o sol de final de tarde deu passos firmes para a Loja de Quinquilharias de Madame Fabulária.

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 - Para de zoar véi... - pediu a menina nômade se estirando na bancada de alumínio do Dogão do Emílio, debaixo do viaduto.
 - Cê quase se mijou toda uai! - exclamou Tobby se divertindo com a situação.
 - Cê ia pirar na soda também se tivesse visto o que eu vi! 
 - Ele provavelmente não veria nada. Lupinos não enxergam esse... Ahn... Vamos dizer que em uma gama de cores, vocês ainda são daltônicos pra manifestação de glamour em seu rosto esplendor. - explicou Prince ajeitando a gola de seu terno alinhado e acariciando a barba recém aparada.
 - A loja está velha, acabada e cheira a mofo! Glamour não é pra ser tipo, cheiro de padaria depois que saiu pão?! - o gesto dramático de Angie fez com que o anão robusto Smithens balançasse a cabeça em impaciência. 
 - Por isso defendo veemente em não incluir infantes nessas reuniões.
 - Oh atarracado, fica quieto aí que cê nem acredita nesses trem de alma penada, morô? 
 - Ela tá certa. - respondeu Emílio ligando a chapa de seu trailer de sanduíches e colocando a touquinha para preparo dos lanches.
 - O que faremos então? Aliança? Parceria? - opinou Raine com um princípio de enxaqueca que estava durando desde o começo do dia, e aliviada com os cigarros e o bourbon.
 - Manter o mais longe possível daquele lugar? - Angie deu o palpite. Prince sorriu para si mesmo ao verificar seu telefone.
 - Sem medidas drásticas, Angie... Creio que uma boa xícara de chá não resolva. - disse ele com confiança.
 - Oh sim. Aproveita e pede pra ela sentar no seu colinho. 
 - Então eu fico aqui? - perguntou Emilio, Tobby o olhou com cara de súplica, o garoto lupino não estava gostando muito da narrativa de loja lotada de fantasmas.
 - Irei com Prince e um especialista. Se ela cobra um preço acima da média do ofertado em outros distritos, podemos ter algum argumento para... chegar a alguma negociação...
 - Afinal de contas: por que precisamos da múmia ruiva? - Angie tapou a boca após falar isso, fechando os olhos. Ninguém entendeu o porquê do gesto. Raine sentiu uma pontada no estômago que a avisava de apenas uma coisa: Angie não havia contado a história toda.
 - Que desconfiança é essa? Nunca vi você tão irritada assim... - ela se aproximou tentando deixar a menina mais confortável com a situação. 
 - A tia tem negócios não resolvidos com aquele-que-a-gente-não-cita. - disse ela baixinho e um tom apavorado no sussurro.
 - Oh o...
 - Cês tão falando do Dança-com-espadas? - perguntou Tobby de ouvido atento na conversa paralela.
 - Véi, a gente não cita, porque não pode mais, sacas?! Caraca, cê é muito sem noção. E não, é com aquele "outro" pedaço de mim, verdadeiro e ruim, lalalalala?
 - Oh aí complica. - Tobby decidiu deixar a conversa d elado. Ele sabia muito bem de quem Angie falava e de como aquilo a angustiava quando os mais velhos traziam à tona.
 - Darling, o Menino-Inseto vai com a gente. Nos encontrará na esquina da 34.
 - Levar o cuspidor de chamas?! Eu sou mais sabido que esse pulha! - resmungou Smithens indicando a si mesmo com força. - Se é mesmo a Loja de Quinquilharias que já ouvi meus antepassados contarem, consigo embromar a velhinha na boa.
 - Naki, estaremos aí em meia hora. Não se atrase. Leve alguma espécime com você, podemos fazer uma troca simbólica, hospitaleira, se é que você me entende. Sim, certo. Até breve. - Prince desligou a ligação e antes de botar o celular no bolso interno de seu paletó, Angie levantou as mãos.
 - Guenta a mão aí? Tenho que ligar pro meu velho! Ele tá pra fazer prova hoje. - ela pediu o telefone para o feérico pomposo. Prince olhou para Raine que estava com um meio sorrisinho de aprovação para o chão. Ele rolou os olhos com impaciência e bufou para demonstrar sua contrariedade.
 - Deixa que eu disco. - ele avisou, antes de dar o telefone de última geração para a menina quase fazendo uma dancinha apreensiva perto dele. A ligação foi feita, Angie pegou o celular e roendo uma das unhas esperou alguém atender.
 - Hey, deseja boa sorte pra ele! - disse Tobby com empolgação.
 - E cê devia seguir o exemplo, sabe? - opinou Emilio. - Vocês dois! Voltar a estudar não faz mal a ninguém.
 - Cala a boca aí, tou tentando ouvir aqui! - Angie disse com a voz firme. 
 - A delicadeza em pessoa. - Prince franziu os lábios. 

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 - Estou impressionado com a qualidade e variedade dos produtos, minha linda Madame... - Smithens praticamente estava na ponta dos pés de suas botas grandes e grossas para encarar bem a dona da Loja. Madame Fabulária sorriu de volta com gentileza.
 - Um elogio vindo do mestre armeiro sempre enche meu coração de orgulho. - os olhos miúdos do anão brilharam de modo nada sutil. - Gostaria de ver as armaduras do começo do século XV? Há exemplares mais robustos nos fundos da loja... 
 - Adoraria. 

 - Impressão minha ou o atarracado tá de charminho com a dona? 
 - Não me interessa isso agora, quanto mais ele amaciar ela pra gente conversar com o mínimo de civilidade, melhor. - sussurrou Raine de olho em alguns artefatos menores para imbuir magia feérica.
 - Não sei por que a doidinha ficou toda fora de si quando entrou aqui. - Opinou o acompanhante especialista, o feérico do oriente, Nakitsumoto do Clã das Serpentes de Fogo. - Não me sentia tão em casa faz tempo!
 - Bom que gostou, Naki... Viu algo de interessante para aquele nosso caso? - o rapaz de mãos rápidas e atento as estantes de conserva, vidrinho sminúsculos e estante de cristal do outro lado do balcão balançou a cabeça.
 - Náh. Ainda nada. Se ela tiver algo do tipo será lá nos fundos.
 - O jeito é deixar o Smithens conquistar o coração da Antiga... - Prince gracejou, recebeu uma cotovelada discreta de Raine nas costelas.
 - Respeito com os mais velhos e não seja sexista. Ainda mais com quem você não sabe o que pode fazer em uma Loja assim.
 - Tá, foi mal darling... - Prince pigarreou para recuperar sua postura, na vitrine do balcão haviam as joias mais preciosas da Loja. - Que cheiro tem pra você? 
 - Floresta após chuva torrencial de verão. Orvalho da madrugada ali perto do armário de bijuterias... - Raine complementou apontando para o local perto da vitrine principal da Loja.
 - Que não são bijuterias nem aqui nem no outro plano, minha querida... 
 - E você?
 - Como um recém banho de lavada, rosas e uma bela taça de champanhe.
 - Obrigadão por me trazerem aqui!! - o Menino-Inseto abriu os braços com vigor. - Um transferidor!! Um transferidor!! - apontando para uma redoma pequena com objetos variados como réguas, compassos e peças de laboratório. - sabe quanto tempo não vejo um transferidor no mercado?!
 - Não fala muito alto, senão ela sabe e aumenta o preço rapaz... - disse Prince dando tapinhas no braço fino do cientista.
 - Naki, não precisa mais agradecer... - a voz amena de Raine fez com que o Menino-Inseto se sentisse mais à vontade em sua empolgação. - Você é nosso aliado, a oportunidade veio e espero que esteja aproveitando tudo. 
 - Tá brincando?! Consegui tudo que precisava e mais um pouco. A ideia de espirrar bálsamo nas quimeras miniatura foi uma das melhores que já tive em anos. - e com um olhar estranho para a redoma - E eu IREI LEVAR esse transferidor... Nem que seja a última coisa que eu faça na vida...
 - Okay, sem risada maléfica cientista-maluco... - Prince o cutucou nas costas, a Madame Fabulária voltava com Smithens, tagarelando em uma língua antiga que Raine só conseguia pegar alguns trechos. Deveria ter trazido Emílio junto, ele era mais sábio nas linguagens que qualquer um ali. - É melhor que tenha dinheiro pra pagar isso tudo aí. A gente tá no zero faz tempo.
 - Oh sim, minhas economias estão todas aqui! - o Menino-Inseto apontou para sua mochila enorme no formato de um besouro amarelo com desenhos intrincados em diversas cores.
 - Não te disseram que não é prudente gastar tudo que tem em um único lugar? 
 - Oportunidades, amigo. Pego as com ambas as mãos. - Naki gesticulou de forma maníaca para a redoma.
 - Opa campeão, não quebra nada antes da hora. - Prince virou para Raine - Vai levar alguma coisa? 
 - Você não tem nem dinheiro pra pagar seu aluguel, Prince... 
 - Mas tenho algo aqui dos antigos que vale como moeda também. 
 - Não preciso de nada, grata pela atenção. - ela sorriu como de costume.
 - Tão formal. Vou levar essas abotoaduras, combinam com meus olhos... 
 - Você me choca com sua simplicidade... - ela respondeu com um sorriso mais provocador, ele respondeu com uma piscadela. Raine pressentindo a aproximação da dona, decidiu entrar nas prateleiras altas lotadas de livros, objetos e rolos de pergaminho mais adiante. Não queria travar diálogo com a senhora sem estar preparada.

 - Ora, ora, ora quem vejo aqui em minha humilde Loja... - disse a mulher ruiva aceitando o cumprimento cordial de Prince e um leve beijar o anel verde-esmeralda que se destacava na mão ossuda. - Quanto tempo não vejo um herdeiro da Casa de Liam... - a voz da senhora abaixou de tom com certo prazer em nomear a ascendência de Prince. Ele estufou o peito com graça, mas não com orgulho. Já sabia o que iria ouvir devido sua fama no mundo dos humanos e a desgraça na família em Hibérnia. - Espero que tenhamos negócios muito prósperos à frente, Liam III...
 - Busco isso ansiosamente, Madame Fabulária... - ele respondeu em seu melhor modo galanteador. Smithens levantou uma sobrancelha e o olhou com desprezo.
 - O seu amigo Smithens tem um vasto conhecimento de meu estoque mais robusto... E comentou o quanto gostaria de matéria-prima para algumas...? - a senhora virou para o anão que estava distraído com o desprezo ao seu companheiro de equipe.
 - Oh sim, sim! Armadilhas, caixas de cobre, algumas fornalhas. Tenho planos para reutilizar a Estação com os engenhoqueiros de Maxuel.
 - Ah Maxxy continua aqui? Aquele tratante de uma figa... - disse a senhorinha não mais transparecendo a animosidade, mas sim uma satisfação em direcionar seu olhar e gestos para Prince. Raine observava de longe, entre as prateleiras, cenho franzido, punhos cerrados, canalizando qualquer tipo de atividade fora do padrão normal de uma Loja criada através de glamour de centenas de anos. Tudo estava mutio ordenado, compacto, conciso. Deu alguns passos para averiguar a coleção de trás e o encontro foi de repente.

Um desvio pouco calculado que resultou em um som estridente de uma peça de latão cair no chão. As desculpas mútuas segundos depois, o tocar de mãos ao recolher o objeto mágico do chão. Os olhares se encontraram devagar, com receio de perceber com quem estava se desculpando. 

Livros, muitos. Enfurnados dentro de uma grossa sacola de lona à tira-colo, mais um grosso tomo debaixo do braço. A pessoa era menor que ela, rosto coberto por um capuz de um moletom encardido. Os olhos não apareciam, mas a ponta do nariz tinha marcas de tinta preta (Nanquim?!) e lábios feridos em muitos pontos por talvez morde-los demais por ansiedade, medo, vergonha. 
(Em seu íntimo, Raine sentia vergonha. humilhação, exposição.)

 - Se quebrou, vai pagar! - gritou a dona da loja lá do balcão sendo bajulada por ambos os homens da equipe. 
 - Tá tudo bem, Madame Fabulária. - a voz do capuz disse em um tom nada masculino e tampouco feminino. - Foi só um adorno de porta esquisito... - explicou olhando para o objeto para depois abrir a boca em espanto. - Estou segurando o protótipo de mouse feito nos sonhos de Ada Lovelace. - e olhando a etiqueta para ter certeza da relíquia. - Yep, é só o protótipo de mouse da...
 - Oh! A programadora inglesa?! - completou Raine com um entusiasmo que não sabia de onde viera. Sua voz ecoou no espaço onde ocupavam e ela fechou os olhos ao saber que traíra seu lugar para a dona da Loja saber que ela estava ali. 
 - Sim! Ela mesmo! - a pessoa disse, colocando o objeto em seu lugar com todo o cuidado. O moletom encardido esticado no esforço do braço alcançar uma prateleira acima revelou pedaço de um tronco de pele repuxada e chamuscada com algo negro e coberto de cicatrizes. A troca de palavras foi interrompida quando um cliente passou por ali. Alto, curvado, longas pernas e braços, rosto apático, olhando preços e coçando o queixo quadrado e macilento. Um soturno do caminho vazio. 

O desvio de olhar fez com que perdesse o outro cliente de vista. Continuou a caminhar cautelosa entre as estantes, atenta em verificar se encontrava a pessoa novamente na próxima virada. Nada. Não havia ninguém lá. Encontrou tomos de sua infância em alguns lugares, folheou algumas páginas do decano sobre artes de ervas especiais para redes de captura para animais de grande porte, deu a volta para o nada. De cara com o balcão.

Apenas sua dona lixando as unhas impecáveis e contando uma pilha de amostras de tecidos em pequenos quadrados costurados nas pontas um no outro. Os rapazes estavam no fundo da loja, em uma discussão sobre fornos, churrasqueiras e afins. Aprontou a postura e o tom da voz, verificou internamente sua disposição em recitar palavras mais longas ou se iria ser curta e grossa.

 - O estojo de pontas de flecha está disponível...? 
 - Paciência é uma virtude, Vossa Majestade. - cortou Madame Fabulária escolhendo um tecido das amostras. Um verde musgo intenso de textura veludo.
 - Gostaria que não me chamasse por esse título quando estou em sua loja. Afinal, aqui é sua casa. - Raine tentou as palavras mais cordiais, firme, mas não tanto.
 - E eu chamo quem eu quiser de como eu quiser, Vossa Majestade. - a voz da dona era fria como geada.
 - Oh sim, claro. Okay. - desconcertada pela resposta tão brusca, repensou a estratégia. Já havia tratado com os Antigos há tempos atrás. Toda a reunião de Conselho precisava se preparar sumariamente em todos os aspectos. Odiava as reuniões com todas as forças.
 - Onde está o desastre ambulante que vocês carregam como chaveirinho? 
 - Quem?! - não entendeu de imediato a pergunta tão incisiva.
 - Aquela menininha intrometida que definitivamente não dei convite algum para vir aqui. - Angie?! Estaria falando de Angie?!
 - Ela não está conosco na visita a sua cara Loja. Não queremos indispor a senhora a um argumento acirrado com ela, você sabe, infantes... - apaziguar, mediar, palavras mais suaves, sorriso, lembrar-se sempre do sorriso gentil.
 - Vossa Majestade tem tato e confiança em seus servos. Fico aliviada por isso. 
 - É bondade sua em palavras tão... - foi cortada novamente com a voz fria.
 - Modéstia também nunca levou nenhum Herdeiro da Casa de Fiontainn pra frente. - silêncio ficou entre as duas como uma muralha de concreto. Raine decidiu fazer o que achava correto, encarar a lendária nos olhos e mostrar suas reais intenções com a visita. A senhora não levantou os olhos dos tecidos, a amostra de tecido em veludo foi colocada de lado, assim como uma lista  em papel amarelado em caligrafia artística e no alfabeto feérico. A mais nova não conseguiu decifrar nem a primeira palavra. A barulheira de objetos metálicos caindo nos fundos fez a senhora transparecer seu tédio. - Se quebrou, vai pagar! - gritou sem cerimônia alguma.
 - Mil perdões, milady!! - a voz de Prince soou distante, mas fez a senhorinha suspirar. Raine desviou o olhar rapidamente para a esquerda ao ver uma sombra similar ao cliente das estantes.
 - Eles entram e se vão. Essa é a vantagem de estar alocada em uma Transição. - a mais nova foi obrigada a engolir em seco pela revelação. - O estojo estará em suas mãos na próxima terça. 
 - Não há necessidade de... - Raine tentou responder rápido, mas novamente foi interrompida.
 - Vossa Majestade esquece que há um compromisso Real em fornecer qualquer produto de minha humilde loja em caráter sigiloso? Não irei deixar esses plebeus verem que Vossa Majestade admira pontas de flecha da 1ª Era, não quero burburinhos sobre guerra civil comecem por aqui. Já tenho que lidar com esses humanos intrometidos que conseguem entrar... 
 - A senhora faz as regras, por que deixá-los? 
 - Exatamente isso que gostaria de conversar com Vossa Majestade em caráter particular. - finalmente Madame Fabulária encarou a monarca renegada, olhos que atravessavam qualquer escudo de proteção. Raine se sentiu um pouco invadida no começo, mas entendeu o porquê da inspeção. - Outros como você já me enganaram com suas promessas e títulos. Não posso me dar o luxo de perder novamente o meu lugar...
 - Eu não tenho pretensão alguma de me meter com o que você faz ou deixa de fazer... - a resposta de Raine foi automática, os lábios seguindo seu coração e não sua mente que preparara um discurso ameno e nada desafiador. Nunca se deveria desafiar um lendário.
 - Agradeço a sinceridade, Vossa Majestade. Além do estojo, há algo mais que procura?
 - N-não... Sim! - a confissão fez com que a mais nova arregalasse os olhos em terror. Como isso acontecera? E o que mais queria além do estojo? Não queria mais nada! A não ser botas novas. E roupas, metade do guarda-roupa renovado, sem traças, sem roupas de época, sem golas altas e corpetes estranguladores e vestidos frívolos.
 - Espero que não se importe de uma visita na terça que vem? Irei tirar as medidas.
 - Medidas do quê?! - sibilou Raine tentando se desvencilhar do poder feérico que a senhora empregava para arrancar seus desejos ocultos. Então esse era o modo dela manter o lugar? Saber o que intimamente as pessoas queriam e extrair?
 - Hey! Achei essência incorr aqui! Quanto é que é? - perguntou o Menino-Inseto abrindo um alçapão no chão, perto das estantes de livros.
 - Pra você é 3 peças.
 - Opa! Vou levar tudo! Faz entrega? - perguntou ele esperançoso. Raine respirou aliviada por se livrar da influência da mais velha. Deu a volta nos calcanhares e partiu para a porta sem dizer tchau.
 - Diga-me onde que estará lá na terça-feira.
 - Brilhante!! - o Menino-Inseto disse saindo do local escondido e apontando os dois indicadores para a mulher mais velha - Você é demais!! Mais que demais!!
 - Okay nerdizinho, vamos lá que estamos incomodando demais a preciosíssima Madame Fabulária... - amenizou Prince com alguns objetos já comprados pelo cientista.
 - Oh tudo bem... Quanto mais tempo aqui, mais gastam no meu estabelecimento.
 - Cadê a Raine? - perguntou Naki, Smithens veio atrás com um carrinho de madeira cheio de peças de cobre e estanho.
 - Acho que ela decidiu ir na frente... - Fabulária comentou enquanto fazia as contas das compras. - Dinheiro ou itens? - os rapazes se olharam.
 - Dinheiro. - respondeu Naki entregando sua mochila de besouro.
 - Itens.
 - Tão cuidadoso com o patrimônio da família, Liam III... Aprecio isso em um homem: desapego. - a Madame deu tapinhas amigáveis no rosto quadrado e firme do feérico. Ele levou o comentário como um ultraje em seu orgulho já destroçado. Mas não transpareceu rancor. Negócios eram negócios e Madame Fabulária era agora oficialmente a fornecedora da equipe de Caça-Quimeras.