Pesquisando

domingo, 19 de novembro de 2017

a imaginação alimentada - parte 1

A essa fase do jogo da vida (No hardcore) aconteceram 2 coisas emblemáticas para eu me dar conta do que tou fazendo tanto no curso quanto da minha vida de escriba: aulas incríveis com uma pessoa incrível que está me dando ideias mais incríveis ainda (Hellow! Projeto em andamento yoooohooo!), AND estagiar em um laboratório com uma pegada tipo makerspace.

Uma coisa vai ligando na outra, pois me exigem muita, mas muita abstração e sair da caixinha (~le effing caixinha que quase me moldei uns tempos atrás), como por exemplo voltar a montar Lego e jogar games que supostamente EU NÃO DEVERIA voltar a jogar.
(Mas a mente vazia é oficina para ideia errada de Wanderlei, então...)

A mente precisa de estímulos, sério.
Tem gente que encontra isso vendo Tv, fazendo terapia, praticando algum esporte, lendo um bom livro, mas aqui estou, mais de meia noite de uma sexta esperando o server de WoW voltar e catando pecinhas na caixa de Lego que consegui levar da casa de minha mãe (A hipster economista/contábil que adora me zoar...). Por quê? Por quê fazer isso no final do semestre, geeeeeezuis?!

Muito simples: a mente precisa de estímulos, e desde quiança viada em que me entendo, leitura (de todos os tipos, inclusive a musical), games e blocos de montar foram meus principais estímulos para quase tudo, inclusive alfabetização letrada e socialização empática com os outros.

Estávamos a discutir no laboratório awesome sobre como somos alfabetizados e como não lembramos de parte desse processo - o que para surpresa parece virar mecânico no subconsciente e não um processo de aprendizagem. Espero muito que a galera de agora esteja revertendo esse quadro.

Debaixo do link, uma relação entre memórias de alfabetização, blocos de montar, games, imersão e imaginação.


Bora começar com o óbvio nos anos 90?
Estrutura familiar perfeita é algo que nunca tive (minha família dos dois lados são pessoas realmente estranhas e uma parte deveras tóxica pra minha mãe, logo me atingindo indiretamente). Muito menos algum lado paterno pra justificar as teorias freudianas que tudo é culpa da minha mãe (ops!), mas não posso reclamar de o quanto mãe e irmã mais velha me estimularam a ser uma criaturinha sem noção.

E sem noção foi de não sacar muito bem o que raios a sociedade queria de mim quando tentava ser uma quiança viada. E gente, sempre fui uma criança viada, do tipo transviada, de não seguir as regras estranhas da escola, de passar mais tempo entretida com estórias fictícias feitas com amigos reais e imaginários para passar o dia.
(Sim, tive uma amiga imaginária por um bom tempo, aí resolvi tentar entender o que ela era e vamos dizer que supostamente é a minha intuição - ela anda ausente faz um tempo)

Sempre fui muito introspective na questão de inventar mundinhos só meus para compensar a vida incoerente que nos deparamos todos os dias ao acordar. Até para resolução de problemas e evitar discussões desnecessária, acabo inventando o modo de visualizar e encenar dentro da minha cabeça como é possível. A imaginação esteve sempre comigo como um fator de sobrevivência, não de dom ou talento especial algum. A ironia talvez tenha ganhado dos deuses, mas então...

O primeiro presente que ganhei foi uma caixa de blocos de montar de madeira que brotou na sala de casa um dia. Mas tava lá, um kit de construção tosco, pintado com cores primárias, sem manual nem nada, eu com meus cinco anos nem sabia direito o que era pegar em um giz de cera direito.


Ali meu destino mudou.

Porque quando você passa a construir aquilo que está idealizado em sua mente, tudo ao redor muda.
A forma como a Realidade se configura e se externaliza para você é completamente outra.
Mas isso pode acabar virando uma ação subconsciente e mecânica.
(Prometeu seu lindo e mito da caverna do Platão batendo forte!)

É a matéria sobre a mente, montar os blocos de madeira era meu primeiro pensamento de manhã e a última coisa ao ir dormir. Isso e futebol, mas futebol era por socialização compulsória com meninos de minha idade na rua (a competitividade era igual por mais irreal que pareça, eu jogava muito bem. No passado, porque sequer suporto futebol agora), em que as atividades externas eram mais legais que ficar indo em casa das três meninas da rua e brincar de casinha.

O faz-de-conta em brincadeira de casinha era um porre pra mim. Eu sequer conseguia pensar direito, mexer na construção daquele imaginário coletivo, por Nimb seja louvado, dar palpite era algo que a mais quiança nova não podia (E quiança viada? Eita!).

E eu entendo essa estrutura engessada agora, toda a repreensão cultural, sócio-histórica de manutenção de um sistema patriarcal moldado em uma brincadeira singela de casinha, com papéis bem estabelecidos e imaginação não sendo explorada. É como vejo quando crianças brincam de "polícia e ladrão", é literalmente esfregar na cara do adulto que observa que "Olha! É isso que o Estado se sustenta como tirânico: ou obedece ou vai pro xilindró".

O alívio era ir pra casa, sentar no chão, blocos de montar, cabeça a mil com imagens e falas e estórias e improvisos. Eu devia falar sozinha pra cacete, mas meus parentes me chamavam de bicho do mato pela timidez e o silêncio. Lembro de observar mais do que exatamente falar. Só vim saber que podia falar em voz alta pra expressar meus pensamentos depois de estar alfabetizada.
(Aí eu não calei mais a boca...)

A poda ocorreu justamente aí, de me jogarem pra uma turma de alunos mais velhos por saber mais coisas. Se tinha amigos na sala? Nope, mas os blocos de montar estavam lá esperando por mim. E os amigos da rua.

O primeiro conjunto de Lego foi em um Dia das Crianças, um bonequinho meio esquiador glacial que era um astronauta em um planeta de gelo. Ainda tenho o bonequinho comigo (Tá ali na foto de cima, 25 anos atrás). Isso e a coleção de Lego que mantive durante anos e doação generosa de amiga de infância.
(a obsessão em querer ser astronauta foi alimentada com isso também)

O Lego se manteve na minha infância e construiu muitas formas de colaboração que eu mal tinha ideia que podia fazer, como o vizinho do lado que passava as tardes na casa da avó e não se misturava com os meninos da rua por medo de chacota (ele era descendente de pai indígena), Lego era nossa abstração conjunta, entre o se sentar ao chão, pano velho pra abrigar as pecinhas (era mais fácil juntar todas as peças e jogar na caixa), decisão do que montaríamos naquela tarde (o tempo era pouco), brincar e desmontar para no outro dia fazer de novo.

O que o Lego me proporcionava a era o momento de trocar estórias com essa criança, a gente inventava nomes, paisagens, montava casas e carros e fazia projetos de cidades com papel de caderno e giz de cera, canetinha. No Natal rolava de deixarem a gente usar os pisca-piscas meio falhos para iluminar o interior das casas ou as ruas com postes feitos com palito de sorvete religiosamente lavados, secados ao sol, presos em uma placa de isopor. Improvisation!



Montar, trocar estórias, aventuras bobas de um cotidiano de cidade grande (eu andava com meu astronauta glacial sem me importar de ser chamado a atenção por não ter coerência na estória toda), desmontar, colocar tudo na caixa, voltar pra casa e fazer lição de casa e dormir.

Mantive o hábito de "brincar de Lego" até meus 17 anos, tava na pilha com estudos, confusões existenciais, vontade de gritar e não poder?! Abre pano velho, coloca o conteúdo todo da caixa no chão, começa a garimpar as peças, constrói algo que era só ideia na tua cabeça. Ficar satisfeita com isso, desmonta, recolhe, guarda. Não precisava brincar exatamente, encenar, já na construção já dava pra criar estórias. O caderno de 10 matérias, 500 páginas e lápis na mão continuava a aventura da minha cabeça no papel. Funcionou bem por muito tempo. 

Então em 1993 (Sim, eu lembro das Olimpíadas) abriu a locadora do Márcio no final da rua. Locadora de cartuchos de games e três máquinas de arcade, uma para Super Nintendo (essa trocava de games com mais frequência, mas Street Fighter II era unânime), uma de Mortal Kombat do Mega Drive, outra de NeoGeo com Samurai Shodown.

Sim, eram cartuchos. E não, não tinha sistema pra "salvar" o progresso.

Minha mente pirou ao ver que poderia controlar um personagem animado para comandos especiais e superpoderes. E a música?! Saca só essa trilha sonora véi!!


Samurai Shodown me chamava mais atenção por ter estórias embutidas entre uma luta e outra, MK e SFII você apertava o start e pulava a história do game. Yep, ruim pra caramba - só vim saber que tinha finais diferentes para cada personagens quando comecei a jogar em console em casa de amigos.

E aí veio a outra forma de socialização construtiva.

Nem todo mundo tinha dinheiro pras fichas, então combinávamos durante o futebol que o time que ganhasse ficava com a vez no arcade, fazíamos uma vaquinha modesta de duas ou três fichas no dia (durava até quando você perdia na luta, outras era por tempo, meia hora, quinze minutos) e revezávamos quando dava pra jogar todo mundo.

Eu era socializada menina entre meninos, então tinha regalia sei lá o porquê. Podia frequentar a locadora sem ser admoestada por isso (Mas vamos dizer que minha mãe ficava bem irritada), mas não apreciava muito ficar em golpes mecânicos no arcade. Foi por isso que Samurai Shodown era mais interessante, além do modo story, era colorido pacas, e tinha muitos elementos da cultura nipônica.

Ninguém falava inglês, adivinhávamos o que raios tava acontecendo na tela, o que acontecia com os personagens, o que era estória. Tudo isso na fila para usar o arcade. 

Apenas para lembrar posteriormente, só escolhia o Scorpion porque sabia que ele era um morto-vivo, tá? E no SFII era fã número 1 do Blanka por ser um experimento genético que deu errado. Era ÓBVIO que meu futuro em survival horror estava traçado né?

Os games chegaram como consoles domésticos ali entre 1993 e 1994, aí surgiu algo muito interessante: o socializar na casa dos amigos da rua. Tinha todo um ritual, quantas horas entra, quantas sai, quais jogos podiam jogar de dois controles ou alternando o único controle. Um Master System foi lá pra casa com uma inovação incrível nossa que estupendo! o game ERA o controle e sem fios, urrum 1994 um videogame sem cabos. É, esse trambolho aí de 1994.

Esse jogo tinha 7 fases que nunca consegui zerar.
A Tectoy continua entre nós, mas o Master System não, pois foi incorporado em outras empresas.

Alex Kidd era o carro chefe deles, tinha história e OMFG TÁ EM PORTUGUÊS?! Quer dizer que posso ler enquanto jogo?! Cabeça de quiança viada explodindo?
Urrum. Pode apostar que sim.
(E aprendi a jogar jokempô)

Sonic da SEGA no Mega Drive virou concorrente de Super Mario Bros da Nintendo, mas não conseguia jogar muito devido a restrições de idas a casa de amigos, até que meu vizinho do outro lado - que não costumava sair de casa por ser de família religiosa - ganhou um Mega Drive com esse jogo.

Entendam pessoas, eu tinha 8 anos e não conhecia o que sarcasmo, ironia e piadas toscas significavam na comunicação humana, ao jogar esse bendito jogo fui saber realmente o que era o meu destino para o resto de minha vida de escriba.
Em Toejam and Earl , o enredo é sobre dois aliens funkeiros (Sim, você leu isso certo) que caíram em uma Terra cheia de gente pirada e sem noção que atrapalhava a empreitada de recolher os pedaços da nave espalhados pelo mapa.

UM FUCKING MAPA PESSOAS!!!!!!!!

VOCÊS TEM IDEIA DO QUE ISSO SIGNIFICA PRA UMA QUIANÇA VIADA QUE IMAGINAVA ESTÓRIAS EM TERRAS DISTANTES E DESENHAVA MAPAS TOSCOS COM PAPEL CARBONO?! É LINDO!!

O gameplay completo tá aqui [x], gente, vale a pena pelo nonsense e pela tela partida ao meio para dois players. Isso que era inovação naquela época! A jogabilidade era linda, dois controles, três botões, as "armas" contra os terráqueos estão dentro de presentes (Que podem ser bons ou ruins), diálogos como quadrinhos o tempo todo, em inglês. Aí meu amigo me apresentou a algo incrível que a família dele havia dado pra ajudar nos estudos. Não, não era a Bíblia, era um dicionário básico em inglês.


Tinha essa tela antes de começar o jogo que dava pra fazer um funk apertando
botões diferentes, aí mudava a tela de fundo e mais birutices aparecendo.

Como o mundo bizarro de Toejam and Earl era aberto até certo ponto (Tem como você abrir o mapa e ir descobrindo novos lugares), a gente podia pausar o game e tentar decifrar as palavras da tela. Comecei a traduzir tudo que vinha, até em games no meu Master System (Jogos de Verão, obrigade por traduzirem!). Essa socialização via obra de referência foi meu contato com a língua inglesa e dali tudo foi ladeira abaixo, porque meu ingreis defeituoso é tudo culpa dos games que jogava, dos filmes que via e das letras de músicas dos Backstreet Boys.

Se aprendi rapidamente que o enredo de Mario era sobre o resgate da Princesa Pêssego do castelo do Bowser? Yep, e repassar a informação era importante, pois dali saber que o Doutor Robotinik na verdade não era médico e sim um cientista louco foi um pulo. E sacar que ser astronauta poderia ser mais legal se fosse com o combo cientista louco. Gostava das roupas dele. E dos robôs gigantes. Só não concordava com a ideologia de tecnologia dominando geral.

O recurso de aliar a imaginação nesses espaços de interação virtual era algo que me prendia por horas a fio?
Yep.
Se isso continua até hoje?
Urrum.
E é por isso que pra escrever sobre World of Warcraft, terei que fazer OUTRA postagem.
(Sim, gente tou super na empolgação, não estraga minha vida nerd!)