Pesquisando

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

[Felicidade Adormecida]

Título: Felicidade Adormecida (por BRMorgan)
Cenário: Original/Nova Orleans.
Classificação: 18+.
Tamanho: ??? palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Essa fanfiction foi feita sob o desafio "Escreva sobre sua bisneta" e acabei indo para um enredo totalmente diferente. Depois de quase 2 anos enfurnando as páginas na minha gaveta, resolvi mostrar. Ps: Leiam Trainspotting de Irving Welsh caso se interessem pelo tema.
Personagens: Sarah Irina
Resumo: Felicidade adormecida. Heroína é o nome nas ruas. Felicidade adormecida é o que diz o meu coração.

Apaixonada por algo infantil.

Um singelo piscar de olhos que enlouquece qualquer criatura, é tudo que você precisa e menos o que você quer. Devo estar aqui há 2 dias, gastei o dinheiro todo de um mês de trabalho forçado. Consegui mais que queria, 50 gramas a mais da dosagem permitida que meu corpo agüenta. Um belo jeito de se começar um feriado. A música lá embaixo, muito distante. As batidas de meu coração, incrivelmente perto. Me sufoca, entope meu nariz e faz minha garganta arder, mas depois a sensação de prazer absoluto. Nem preciso mais de tentar ou me forçar a fazer algo que talvez elas gostassem. Heroína é o nome nas ruas. Felicidade adormecida é o que diz o meu coração.

A música continua e me dá vontade de dançar para sempre, até meus pés doerem, mas é minha cabeça de novo. E eu quero aliviar essa dor, preciso de mais. Não muito, pois sei que mais um pouco do desejado, eu morro. Como seria bom...

Então me deito na cama e estico o braço. Não sei como a agulha consegue achar o lugar confortável, levar o meu encanto secreto direto para meu coração, veias, sangue, água, ossos... Minha cabeça dói. Repito o processo e o pacote parece diminuir, o quarto está vazio e eu não estou mais aqui...


– Você precisa parar... – diz alguém e eu balanço a cabeça desaprovando a sugestão absurda.
– Pra quê? – alguém fica em silêncio
– Isso ta te destruindo... Olha só pra você...
– Pra quê?
– Porque essa porcaria corrói teu cérebro e você nem ta vendo! Não me olha assim!
– Seu nome tem jeito de música...
– Ta delirando? Essa porcaria ainda ta agindo!
– Sei lá... Foi uma idéia, é legal o seu nome... Um compasso de ¾...
– Interna essa guria...?
– Pra quê? – mesmo silêncio, mesma negligencia...
– Vai ser melhor, ela melhora e sem problema pra gente, que tal? – aponto para algum lugar no meu cérebro e minha querida bisnetinha responde:
– Nietzsche acabou com sua vida, não é?

– Você tá me ouvindo...? – diz alguém na rua movimentada. Estou sentada. Realmente meu corpo está sentado, mas meus olhos dançam nas ruas movimentadas da maior festa de Nova Orleans. Vejo marchinhas de 4/4, ¾ e às vezes 6/6 quando estão correndo atrás do moleque trombadinha, ouço Dó sustenidos em vozes de homens e Fá maiores em mulheres, crianças são Lãs desafinados e velhos casais cansados da vida são como um quarteto de cordas de Jazz... Aqueles que ouviam em cada esquina da Seventy Street em Nova Orleans. Sentia falta de minha vida na cidade velha... – Hey, guria! Acorda!
– Não tou legal... – e meu corpo tomba no colo de alguém.

– Já pensou em morrer...? – diz alguém nos fundos do barzinho famoso do bairro chique dos franceses. Eu respondo que não, mas minha língua está enorme em minha boca. Mordi-a ao errar a mira da colher na vela. Foda-se, vai na perna mesmo...
– Tá doidona, a guria... Legal...
– Vai lá e mexe com ela... – diz alguém malicioso e meu alerta sonoro ressoa na minha mente. Sinto alguém me apalpando asquerosamente. Pego a primeira coisa ao meu alcance e bato em sua cabeça. Cano de ferro de velho encanamento. Sangue fresco em meu casaco surrado, um dente quebrado no meu tênis, um grito agonizante no meio de uma noite de sábado na velha cidade...

– Sarah Irina... ahn... que porra de nome é esse...?
– É húngaro... – respondo para o delegado da noite.
– Por que bateu no pobre garoto, menina?
– Ele não é pobre, senhor delegado...
– Você entendeu!
– Ele não é pobre... – sono nas pálpebras, falta de mais alegria, meu sangue quer dizer “olá” para alguém.
– Olha aqui, criança. Vou te manter aqui essa noite pra não arranjar mais confusão com os franceses, okay?
– Aqui tem comida boa?
– Deve ter, te mando alguma coisa no final do expediente.
– Pode me arranjar um absorvente? – silêncio do velho delegado tão dedicado a ficar sentado em sua cadeira fofa. - Ele não era pobre, delegado... – sendo arrastada para uma cela escura, alguém está ali dentro na mesma sina.

– Tá chapada...? – diz alguém na cela.
– Ahn...? – respondo sem certeza, acho que não.
– Crack? – nego com a cabeça – Cocaína...?
– Não uso essas porcarias...
– Heroína...? – e meu sorriso abre em meu rosto inchado e pálido. – Uma viciada em heroína... Parabéns... Quantos anos tem guria?
– 16 anos e 6 meses e meio e... umas horas aí...
– Que merda você andou fazendo hoje pra parar aqui?
– Mandei Johnny Stenfield pro Hospital, acho...
– O safado queria te agarrar, certo?
– Sei lá... Fiquei com raiva porque atrapalhou minha música...
– Música...? – ouvi uma risada debochada.
– Fá sustenido...
– O quê...?
– Nada... – e me escondo para não mostrar que estou chorando.


Tudo começou naquela tarde estranha de setembro.

Cercou o gringo atrás dos becos da French Street e catou logo a mochila do riquinho. Quis espancar o coitado, ver ele sangrando e implorando por misericórdia, mas a raiva era deixada de lado ao lembrar do sofrimento do irmão mais novo em algum lugarzinho medíocre do bairro mais abastado, lavando roupa, secando chão, servindo aqueles que os deixavam com os restos do jantar.

O guri fugiu assustado com a força de sua mão, sempre disseram isso pra você, a sua pegada forte de direita, as mãos firmes no bastão, a bola certeira para bem longe da demarcação do campo de jogo, os dedos calosos de tanto ajudar a namorada do pai a lavar as roupas dos irmãos mais novos. Maggie passava muito tempo no Hospital com o velho beberrão, e Dylan sujava mais meias que ela própria. Jogava futebol nas segundas-feiras.

O rapaz recém-chegado na cidade fugiu assustado porque não tava acostumado com a vida normal da periferia de Nova Orleans, só estava prevendo as festas tradicionais, a bebedeira, a facilidade e o abuso de substâncias ilícitas. Roubo, morte e sobrevivência, isso ele não estaria acostumado.

– Hmmm, chocolate! - sorriu com satisfação e engoliu o doce com vontade, revirou o conteúdo da mochila cara e espaçosa, daria pra guardar as roupas do irmão Timothy ali, ou talvez ajudar Dyan levar seu material escolar.

Pegou a carteira e riu com a quantidade de dinheiro do estrangeiro. Bastante pra botar carne de verdade na mesa, nada de restos mal passados dos ricos, nem as sobras do açougue comunitário na Quarter Street, hoje jantaria como uma realeza e deixaria o pai orgulhoso.

– Caramba... - assoviou baixinho ao ver que um celular moderno estava cintilando na palma da sua mão. Venderia pro penhor e conseguiria uma bela grana pra pagar os remédios de Maggie, já as carteiras de habilitação, identidade e passaporte foram pro bueiro. Ah foda-se que vá entupir o ralo, eles jogam mesmo os dejetos em cima de vocês, não?

Desceu a rua de pedras esfolantes para o tênis barato e rasgado na sola, cruzou a avenida principal sem se preocupar se algum carro atropelasse seu corpo miúdo e entrou nos domínios do bairro negro e pobre da mística Nova Orleans. Pulou a cerca que separava os pobres do resto do mundo e viu que o céu daquela tarde estava meio diferente do normal... Sem nuvens e aquela calmaria estranha que só a cidade do Jazz tem às vezes. Os prédios Habitacionais imponentes na decadência do cinza-amarelado do tempo.

Tinha medo desse silêncio, talvez fosse por estar em constante movimento e a gritaria e o choro e a dor, mas mesmo assim o silêncio era algo que parecia perturbar sua consciência.

Viu o negro Bishop ajeitando as calças pra atender alguns clientes, não podia entrar na loja dele porque era proibido pra menores, mas bem se a namorada do pai entrava sem problemas pra pegar aquele pacotinho todo final de semana pra vender pros seus colegas de sala, então ela poderia...

– Tá fazendo o que aqui? - Bishop já pegava a vassoura pra enxotar a menina miúda.
– Quero um pacotinho que nem o da Fabian.
– Pra quê guria? - ele disse olhando pro celular reluzente e absurdamente caro na mão dela. - Tá afim de ficar como teu pai é? Já não basta ele ter sido preso?
– Quero o pacotinho pra vender, ajudar nos remédios da Maggie. - ela disse com firmeza, olhou o mostruário nas estantes, armas de todos os calibres, munição e facas artesanais. Bishop vendia de tudo. Ele estendeu o pacotinho e pediu o celular.
– Isso dá uns 20g... E esse dinheiro aqui guria, é pro remédio da pequena. É muita grana, falou? Não seja estúpida e não vá gastar com outra coisa...
– S-sim senhor. - Ela respeitava mais Bishop do que o próprio pai.
– E vê se passa essa branquinha aí longe dos olhos dos otários do Distrito. Quase pegaram teu irmão daquela vez...
– Sim, senhor.
– E pára de me chamar de senhor, porra... - ele sorriu para a menina fragilizada a sua frente. - Vai cuidar da tua vida e volta aqui depois com o lucro disso aê, falou? - ela concordou mal sabendo como funcionava o esquema de tráfico do Bishop. A namorada do pai Fabian já sabia, estava nessa desde pequena, e não era entregando ou repassando dinheiro, mas Sarah achava que era outra coisa. Um pózinho branco sem significado, mas que nas mãos da namorada do pai parecia que era algo muito importante e ajudava muito nas despesas da família.

Sentou no parquinho da última esquina até o Ferro-velho dos Drennan ocupar o resto do terreno. Não havia muita gente ali, uns rapazes lá curtindo suas namoradas, uma delas com um pacotinho igual ao seu e ao invés de esperar alguém pra poder vender, ela simplesmente abriu e espalhou o conteúdo na mão. Riu um pouco e apertou a narina direita e inalou o pó profundamente. A rodinha riu novamente e continuou com o ritual. Então era assim? Era assim que deveria fazer e depois vender? 'Que coisa mais idiota' ela pensou aos seus 12 anos e 7 meses de vida. Repetiu os mesmos gestos, cheirou um pouco o pózinho pra ver se podia mesmo, tinha um gosto adocicado no paladar quando inalou pela 1ª vez. Gostou. Corrigindo: Amou. Deleitou-se na 2ª inalação. Na 3ª e última sentiu que suas pernas tremiam. Não de frio ou de temor, era diferente e deitou-se ali na areia do parquinho enferrujado, peito arfando como se estivesse correndo por quase 5 quarteirões sem parar. Sensação boa e amedrontadora ao mesmo tempo. Tinha medo de não sentir mais ela e não ter como conseguir mais daquele pó açucarado.

Lembrou da música nova do neto do Bronx, falava de uma donzela adormecida que ao acordar viu que o mundo todo era belo e maravilhoso, com paisagens paradisíacas e emoções fortes de felicidade. Lembrou também que essa música era difícil de tocar no cello quando não se tinha um arco de 1,20m e quando não se sabia muito bem a clava de Fá.

Sorriu e gemeu. Mal percebera que entrara na adolescência.