Pesquisando

sábado, 28 de outubro de 2017

enrustid@s

Quando acha que não vai acontecer, aí tem dia que dá todo o motivo para continuar uma postagem como essa abaixo.






¯\_(ツ)_/¯







Debaixo do link: Já avisando, se serviu a carapuça, o problema NÃO É mais meu.





Tenho simpatia por enrustid@s. 
Simpatia, empatia. O peso das palavras...
Aliás, tenho até amig@s que são - eu que era, na verdade ainda estou - pois lembro de como era ser enrustide há uns tempos atrás.

E não há problema algum ser enrustid@, gente. O problema é a breve noção em que a pressão social é tanta, mas tanta que você jamais terá coragem de sentir outro corpo, além do seu, te tocando. Que talvez o único contato em que seja satisfatoriamente exato com o que seus desejos mais reprimidos estejam esperneando, nunca vai acontecer. Esse breve momento de sufocamento em autoflagelação pode transformar uma pessoa comum, de fina educação, trato e status em uma criatura altamente afetada e seriamente questionável em suas atitudes (E se tiver em uma situação de hierarquia maior, vixe).

Porque o pecado da carne é tênue, a sociedade patriarcal nos obriga a sermos habitados por outros corpos ou invadir outros corpos como forma de legitimação cultural. O binarismo de gênero é mazomeno isso, você nasce com essa fisiologia de requisito de sistema, um sistema que do lado de fora da barriga de quem te concebeu vai te obrigar a ocupar outros corpos, abrigar outros corpos ou se abster de ser um corpo que ocupa/abriga.

E tem papéis sociais bem definidos para essa última parcela ali, aliás dessa parcela não irei tratar muito, porque não tenho vivência, logo não é meu lugar discorrer sobre. Sobre enrustid@s sim, oh esse lugar de fala era meu e não tenho medo de creditar boa parte da minha criação cristã-protestante nessa. 

Porque ser protestante fez bem para minha cabeça até certo tempo em que me percebi como também corpo e habitado de desejos e sonhos e ideários e recalques. Sim quiriduns, recalquinho freudiano na rodinha. Não adianta espernear: todo mundo sabe, todo mundo perfeitamente normal (pffffff) sabe que ser enrustid@ é uma luta diária para NÃO dar muito na cara pra sociedade de como o status quo fere essa carcaça que carregamos por aí. E dói. Fisicamente dói.

Porque a natureza deu cromossomos a menos ou a mais e o hardware que veio junto é socialmente doutrinado a realizar apenas uma função nessa vida: enfiar ou receber. Se isso irá se concretizar, não sabemos exatamente. Há a certeza de que quem ocupa corpos (enfia) com seus pré-requisitos de cistema tem mais privilégios de se autoproclamar padronizad@ na função da procriação sem gerar descendentes. Já quem abriga (recebe) apenas sobra alguns comportamentos domesticados, fragilizados, assegurados que nada vá sair fora do normal-costumeiro adotado pela sociedade. Enrustid@s entram aí nessa noção. 

Nada de pudores aqui, afinal estou indo pro assunto que está no meu topo de lista de assuntos que ninguém gosta de tocar.

Ser (ser, não o estar, essa diferença explico no próximo post) enrustid@ detona com muita coisa na nossa cabeça, como uma eterna campainha emperrada tocando freneticamente até os ouvidos produzirem um zumbido longo, distante e constantemente enganando a sua força de vontade com sua fraqueza moral. Yep, rola moral nisso tudo. A gente não quer perder a moral assim desse jeito. Não sem uma batalha épica antes, não sem argumentos vazios, mãos e braços para o ar, risada histérica para disfarçar a vergonha, seriedade/credibilidade sendo testada a cada segundo.

Afinal de contas ser enrustid@ também pode ser culturalmente aceito como alguém bem dotado de Razão. Sem tempo para Emoções. Algumas religiões pedem por isso, outras exigem, o caminho da salvação, pureza e vida eterna às vezes perpassa por essa noção do não pecar contra a carne. Sua própria carne, essa carcaça ambulante que carrega o invólucro que é supostamente sua alma. Lá do Outro Lado acertamos as contas, mais um pontinho por manter a sobriedade de pensamentos, a castidade no corpo, o enrustimento compulsório beirando a loucura.

Porque nos recusamos a ceder à aquilo que já está posto à mesa para degustar (E não é isso que a sociedade quer? O tempo todo na mídia, no discurso comum, nos padrões de beleza, na incessante buscar de poder, prazer e possuir?). Dar e receber, enfiar e meter. Como Tântalo, titã mané que sofreu um castigo de sede eterna e a viver preso a um lugar com esse lago e uma macieira por perto. Toda vez que Tântalo quer beber água ou comer da macieira, as duas coisas escapam de seu alcance.

Pelos deuses, quão trágico!
Ter sede e não poder saciar. 
Ter fome e não poder comer. 
Que castigo caprichado esse. 

Ser enrustid@ é ter a perspectiva única de que qualquer tentativa de alcance àquela água do lago ou maçãs são sentenças de morte as convicções morais ou desestabilizar o status quo supremo que você pregou a vida toda como norteador de valores. Porque nós enrustid@s nos sentimos superiores às vezes por termos essa vontade de ferro, esse não desvio padrão de mamíferos primatas idealizados somente para "crescei e multiplicai". Isso sobe para a cabeça, sabe?

Sobe tanto que esquecemos o que realmente incomodava em primeiro lugar. O poço e o pêndulo, a bola e a corrente, o pedestal e a cátedra, o morto e o vivo. A lucidez e a insanidade. A bainha e a espada. E quando esquecemos o que nos aflige tanto, essa não-realização do ato consumado, tudo se modifica na ótica do enrustid@. Primeiro que não há obrigação em seguir regra alguma por já seguir as regras demais. Segundo que são seres raros, é uma sorte o mundo ter como antagonistas de uma narrativa pré-determinada pelo determinismo histórico e científico.
Aguentar por tanto tempo é de longe o esforço mais hercúleo que se pode realizar em uma sociedade de consumo e extremamente sexista. 

Em experiência própria, o lugar de fala que posso ocupar sem me sentir mal é de enrustide compulsória para fins de sobrevivência física-psicológica. Até os 21 eu tava num armário de ferro, com um muro de de concreto em volta, arame farpado, gansos de guarda, negação da cabeça aos pés, uma família ausente que se afunilava em presença de alguém extremamente metódico, territorial e possessivo. Eu queria ser essa pessoa, queria morrer por essa pessoa. Faria qualquer negócio para ser aceita e receber tapinha nas costas pelo bom trabalho. 

Não é pra meter o bedelho, mas eu era/sou submissa. 

Sabe o quanto é difícil manter os pensamentos em coordenação quando há laguinhos por todos os cantos, culturalmente incumbidos de serem bebidos, mas não sendo um direito meu?! E quantas maçãs!! Quantas maçãs nesse jardim!! Isso acaba com todos os argumentos prontos que temos para justificar a desfeita com o que é socialmente normal e aceitável. 

Em especial a@s enrustid@s, é pra esses sujeitos pós-modernos que deixo minha simpatia, pois entendo perfeitamente bem bem beeeeeem lá nos fundilhos do meu coraçãozinho rude como vocês funcionam por dentro quando se há a trava emocional/social/patriarcal/dominical de dar cabo de suas emoções engarrafadas. Até me sinto mais alívio ao entender vocês dessa forma, como eu fui antes, uma versão do meu eu-passado. Tipo revisitar o armário super fortificado e ver que só restou as marcas de unhas que deixei nas paredes contando os dias em que eu poderia me sentir mais leve e feliz. 

Enrustid@s, seja lá onde estejam, vocês tem a minha simpatia...
(Não empatia)