Pesquisando

domingo, 1 de outubro de 2017

[bibliotequices] os blocos da pergunta que não quer calar

A pergunta que segue a apresentação formal de alunos nos primeiros dias de aula costuma ser: "Por que escolheu esse curso?"

E nas oportunidades que tive nesses quatro anos de cursar disciplina com a primeira fase as respostas se dividiam em três blocos:

1) gosto de ler e de livros, logo... 
2) queria entrar em curso tal, mas vim pra esse pra conseguir transferência semestre que vem. 
3) realmente quero ser bibliotequero, parece legal!

O bloco número 1 me é interessante, pois há 2 destinos previstos pra eles: continuar a gostar de ler e de livros e fazer um trabalho incrível lá fora no mercado de trabalho. Ou descobrir que odeiam livros é não aguentam mais ler coisas da área que não condizem com suas vidas.

A incidência de evasão dessa parcela é meio a meio dependendo do destino pré programado. Tem gente que continua mesmo odiando livros, ler e atender pessoas. O que fazem exatamente após o canudo é desconhecido. Talvez se contentem em outra profissão, menos a que se formou, talvez voltem pro mestrado e doutorado e deem aulas pros pobres iludidos que um dia foram. 

Aqui é uma roleta russa de emoções.
Talvez o parágrafo acima tenha sido escrito em cima de um sarcasmo barato ou seja aquela pegadinha da arte imitar a realidade e vice-versa.

No bloco 2 há o desejo escancarado de que ali não existe um pertencimento ou prospecção de futuro. A pessoa já taca na lata que só queria entrar na federal e pronto.
Talvez consiga pegar a tal transferência, talvez seja fisgado pela profissão através de esforços contínuos dos professores, profissionais, alunos, aqui é o 8 e o 80.

A mea culpa rola, pois se o curso não fisga esses alunos, a transferência, desistência são certas. Às vezes quero abraçar muito essas pessoas e dizer: "Mas não desiste do curso, mizifie... Dá uma chance!" - mas sejamos sinceres aqui: esse trem de 4 anos aprendendo a arrumar livro na estante não é pros de coração fraco. 

No bloquinho 3 tem o máximo de expectativas e inúmeras decepções que vão acumulando conforme o tempo vai passando. A esses, peço paciência e um colete salva-vidas. As lágrimas são constantes, o ranger de dentes também.

E já que é nesse bloco que me encaixo, devo dizer que que assim como a Letras na universidade dos stormtroopers, a Biblioteconomia vem sendo um poço imensurável de situações fail para a Sanidade e de seus amantes. Pois é tanta coisa pequena pra pontuar e tentar dialogar que meu cérebro não é mais capaz de lutar por alguma coisa que seja substancialmente bom. Eu tento, às vezes encontro alento (rimou?) com professores que me inspiram, pessoas que trabalham duro todos os dias po ruma biblioteca melhor e cidadã, mas ninguém é de ferro.

Bom parece impossível. Razoável é o único caminho.
Dentro da universidade, gente. Lá fora o mundo é completamente diferente, tá?

E como niilismo miguxis é aqui mesmo, creio que um pouco de fatalismo seja necessário pra acordar. Nem que seja eu, achando que dá pra salvar o mundo cursando esse curso, com o conteúdo que já absorvi e com certeza a experiência em estágios fez mais diferença que o conteúdo em sala de aula.

Isso é decepcionante.

Porque são poucos os professores que nos inspiram e se importam com o que estão ensinando, poucos os colegas que trabalham em conjunto pra um curso melhor, poucas condições psicológicas sadias de ter uma conversa construtiva com gente engessada. A paciência já foi embora na quinta fase, o colete salva-vidas eu uso de colete a prova de balas, porque é tenso. É mais que o obviamente saudável mentalmente poderia suportar.

O que desgasta mais alguém do bloquinho 3 é ver seu desejo pessoal ser pisado pela inconsciência da massa que forma após semestres tentando encontrar algum tipo de coerência entre currículos e vida real. Se vocês não leram sobre simulacros e performances, melhor começar pra poder entender que o universo paralelo da academia pode e vai acabar com suas esperanças de um mundo melhor.

Aí entendo a quantidade de gente que se presta a fazer concurso público, passar, sentar numa cadeira, a boca cheia de dentes e esperando a dona Muerte chegar. Por Rangs, como entendo vocês agora!

É pra chorar.
Ou não.

Ultimamente estou sendo extremamente mala com quem não faz nada pra ajudar esse curso melhorar, pra essas cabeças a cada aula terem noção o que fazem é importante pra sociedade. Serem mais protagonistas do que exibicionistas, acionistas, consumistas. E pelo jeito vai continuar, porque já aprendi que infelizmente não dá pra conviver com o peso na consciência e vergonha alheia de ver o barco afundando.

A evasão no curso tá aumentando. As reclamações aumentando. A incompetência na mesma proporção. Autonomia em sala de aula virou emburrecimento e quintal de casa, ou divã de terapeuta. É o barco afundando. A maré levando. Ninguém se importando.

Então bloco 1, continue otimista até onde der.
Bloco 2, muda de curso logo pelamoooooor de Otlet.
Bloco 3, pra quê dar conselhos se eu nem sigo o que digo?!