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quinta-feira, 12 de outubro de 2017

[bibliotequices] e onde vão nossos sonhos fagocitados?

Tem essa música do Tom Zé que não saiu da minha cabeça o dia todo. O nome é em homenagem a atriz francesa Brigitte Bardot. A letra pode ser interpretada de diversas maneiras, mas quando eu tava pensando sobre o bendito curso que decidi seguir e fazer minha vida, então se mudar o nome dela dali e colocar como "Biblioteconomia", fica perfeito.

Essa música ficou polêmica não só pelo fato de ser do álbum "Todos os Olhos" com a capa mais polêmica que passou pela censura da Ditadura pelo viés ambíguo, mas por Tom Zé mexer no áudio na gravação para suprimir a palavra proibida daquele tempo (E do nosso também) para efeito dramático. Ele ainda faz isso nos shows.



Tem uma parte nessa música que me remete como a nossa profissão graduou uma premissa de todo sonhador, com grandes planos de fazer o mundo melhor, como fracassada:

Biblioteca não salva ninguém.

(Biblioteca não dá dinheiro)

Escola, por exemplo, pode produzir dinheiro e garantir a manutenção do sistema dominante, pode até ser a medida mais ousada de "talvez um ou dois nesses 50" vai ser alguém na vida. Professor sofre esse dilema diariamente, aqueles que colocam o sonho/vontade de mudar acima de seus próprios necessidades.

As crianças são o futuro da nação.

Eu gosto dessa frase, me dava um senso de missão com a minha vida de poucos anos, pois era como se eu e meus coleguinhas de sala pudéssemos realmente efetivamente fazer diferença no mundo. Bem sonhador mesmo, conseguir a paz mundial, igualdade social, ninguém passa frio, fome e sede, aquelas coisas que concursos de miss gostam de perpetuar nas nossos inconscientes. E eu cresci, meus coleguinhas também. E a gente não fez/faz diferença alguma pro sistema. 

Na Educação tem esse Paradoxo quase imediato de você ser o agente de mudança (e ter instrumento para tal), mas também manter os cordeirinhos dentro do cercado. Se dentro de sala de aula existe a autonomia do professor sobre o que fazer, dentro de uma Biblioteca deveria ser da mesma forma, não? Porque bibliotecas são espaços culturais e educacionais, não? Porque é lá que as pessoas vão estudar, certo? Não? É muito louco pensar em bibliotecas dessa forma?

É aí que quero chegar: a nossa área não tem grandes sonhos pra implantar na cabeça dos graduandos. A gente não sai de lá com utopias pra mastigar, mas sim algumas certezas que o sistema adora fazer a gente engolir. Se na área da Educação há aquele senso de igualdade em tudo quanto é canto, a gente na área de Informação quer só fazer algo pra se manter em um emprego precário em um sistema falho pra sobreviver.

Ou produtivismo.
Mas aí nessa cova eu não reviro nem a pau Juvenal.

Debaixo do link tem mais considerações.
E mais sonhos fagocitados.

Não temos muitos sonhos implantados em nosso consciente coletivo, a gente começa o curso já sabendo que não vai ser tão emocionante, que no máximo é comparar o contra-cheque das instituições que nos aceitam como profissionais e ver qual próxima prova de concurso. Não há aspirações grandiosas para "mudar o mundo", pensar fora da caixinha, ser o diferencial para uma comunidade, cuidar de seres humanos, garantir o direitos básicos de uma pessoa a cidadania.

Nah.
Necas.

As promessas grandiosas que ouvi durante a graduação foram:
1) 6 mil de salário em empresas privadas.
2) se estudar direitinho e seguir a cartilha, uma vaga na pós é possível.

Mas não pensa tão alto, tá? Nem precisa falar nada, apenas acene e sorria. Deixe que os Outros se lasquem com essa ideia megalomaníaca de trazer cidadania e justiça social a todos, sem exceção. Tem idiota pra fazer esse trabalho sujo, a gente? Não, nós ficaremos com o produtivismo e status elitista de área mais tradicional de manutenção de capital intelectual. Deixe para as áreas da Saúde serem o controle de corpos, ficamos com o controle de mentes não-pensantes.

Fagocitaram nossos sonhos.
A nossa Brigitte Bardot citada na música do Tom Zé nem existe. Não há Musas inspiradoras, sonhos a serem construídos juntos, não há motivadores educacionais para continuar nessa área.

Bibliotecas não produzem retorno rápido ao sistema econômico infalível. Livros em estantes também não. Notas máximas em agências de fomento (Fomento de fomentar, gente. Fome, não temos fome), Ministérios, estrelinhas em plataformas de troca de moeda intelectual. Não valemos o prato ralo que comemos.

Nossos sonhos são fagocitados, pois nem chegamos a aprender a sonhar com um lugar épico e incrível para encaixar nossos esforços de uma Biblioteconomia unida, uníssona, coerente, ética.

Será que Calíope ou Clio estão esperando algum de nós ligar para elas no meio da noite, segundos delas se...?

Aquele ideal na infância de ser o futuro da nação continua tímido, muitas vezes enterrado por motivos pessoais (não tão da esfera privada, mas interferência da esfera pública em relação ao que sou no privado), mas ali, realimentado e regurgitado a cada dia entendendo meu papel no mundo.

Quero a Biblioteconomia forte e presente e fazendo diferença em uma economia, política e cultura de uma comunidade. Quero sim chegar ao patamar dos yankees que levam a carteirinha da biblioteca junto com a identidade como documento simbólico do poderio intelectual que podemos conseguir ao ter acesso a informação. Quero muito que bibliotecário pare de ser otário pro sistema e se torne um profissional pleno, politizado, atuante e respeitado não por uma lei ou quantas vezes conseguiu citação entre pares.

Eu quero meus sonhos de infância de volta. 
Quero voltar a acreditar nessa profissão como sendo um Messias desgarrado do sistema. 
Fazendo mais diferença que advogado, engenheiro, médico. 

Mas fagocitaram nossos sonhos e desejos e não expeliram nada de volta ainda.