Pesquisando

sábado, 9 de setembro de 2017

[conto com angie] o velho índio

Título: o velho índio (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 1.083 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Angie, o senhor índio.
Disclaimer: na vida real passo por eles todos os dias e imagino, imagino de vez em quando o que se deve passar por eles. Adivinha qual música tocou no repeat pra esse pequeno conto?!



A rotina arrastada de sair da creche comunitária do morro, no arrastar do corpo cansado de carregar criança no colo, correr pelo pátio, pular corda com a garotada, fugir da inspetora, fazer exercícios pra manter o pique dos pequenos mais energéticos, uma travada na coluna. O lugar poderia ser feito de concreto, vigas de ferro, azulejo frio e pintura medíocre sem imaginação, mas a alegria de estar naquele lugar era de partilhar o Sonhar com as crianças tão parecidas com ela. Sem passado, presente no limite, sem futuro de acordo com os educadores. Gente que nem ela, sem nada a perder. Vestidos como acidentes de carro, chinelos gastos, fome de viver intensamente com tão pouco. O descer asfalto, pedir aquele pingado no boteco que conseguiu ajudar o dono a pegar o alvará e afastar os milicos ideia errada. Entre o boteco e o terminal interminável de ônibus na rua mais movimentada da Metrópole, um calçadão. 

Percebeu no velho índio imóvel na frente de um instrumento grosseiro eletrônico de propagação da voz. Odiava microfones e caixas de som e coisas tecnológicas que reproduziam som de forma sintética. Era como matar a Musa da música ao se atrever a fazer isso. O velho índio e sua flauta exótica de vários nós de cipó, gasta pelo tempo, buracos irregulares, fissuras nas bordas. Um monumento fantasmagórico para o mundo inquieto. 

Com seu cocar plumoso de penas encardidas e sem cor, as roupas modestas, amassadas pelo tempo, a mancha de suor nos cotovelos e em volta do pescoço, um tesouro esquecido sem mapa para descobrir. Tocava uma melodia que ela conhecia como uma canção manjada de rádio de gente mais rica. Aos pés, um cartaz com erro ortográfico pedindo dinheiro e comprar um exemplar do CD velho que estava ali a mostra. 

Na primeira vez desacelerou os passos arrastados para o sinal e o observou longamente. Não sabia se tinha que fazer algo, cumprimentar, dizer que era coragem dele trazer essa ancestralidade para a selva de pedra dos mais novos. Orador dos Sonhos, era como chamavam esse tipo de prodígio, e deles morria de medo e curiosidade. 


Na segunda vez bateu palmas com o ritmo da flauta. Parecia o mais certo a fazer. Não deixar a magia musical ancestral esfarelar com a poeira do asfalto escaldante da Metrópole. Sabia que não podia ficar muito tempo ali na presença de um prodígio dos filhos mais novos, a lei entre os Feéricos era categórica: os mais perigosos eram os que controlavam os sonhos. Ou seja, podiam a controlar em um piscar de olhos.

Mas a música, a música tão serena de flauta exótica, notas musicais lambendo os dedos invisíveis e ensopados de gotas de orvalho em madeira oca. Pura magia musical que encantava gerações desde que o mundo era mundo, gente era gente, escorrendo aos poucos no ritmo das palmas que ecoavam surdas aos ouvidos dos transeuntes da rua mais movimentada da cidade, meros espectadores de uma triste inércia da história, pouco perspicazes em diferenciar o real do ideal.

Ali naquela pequena bolha mágica musical, deixava o corpo cansado se movimentar conforme a melodia, a canção sem letra atropelava as batidas de seu coração acelerado, acalmando, revigorando, acalentando, como som distante de uma notícia feliz.

Esquecia toda a dor, o engasgo, o nó na garganta, a acidez no estômago, as noites mal dormidas. As palmas, o ritmo, a madeira oca, as notas assoviando como passarinhos mansos, o roçar dos fios prateados que só ela via, acariciando seus pés cobertos por botas pesadas, uma vaga lembrança do que deveria esquecer. A emoção daquela canção era de uma esperança em vão. 

Como sua vida agora. 

Contando os dias para o final de seus dias como quem pensava querer ser. E iria até onde aguentasse, derrubada levantaria, leve como aquela música, mancaria se fosse necessário, até onde aguentasse. A lembrança distante de tempos em que não havia cidades, barulhos, ruídos, suor, sangue pulsando, ossos quebrando, apenas água cristalina jorrando, vento assoviando, terra revolvendo vida, a canção a levava para seu lar. Antes mesmo de ser que era antes. Um vulto etéreo sem destino, uma sentença a cumprir, um juramento a julgar, uma foice a cortar o ar, findar o que a Grande Danuu criava com tanto amor. 

Ali, naquele calçadão no meio da rua mais movimentada da Metrópole que a acolheu quando criança nova e renovada, tudo ao redor estava parado. Na pequena bolha mágica musical o descendente dos antigos encantadores das matas e dos sonhos fazia sua parte. A parte que quase todo mundo esquecia que deveria fazer. 

Em uma auréola pálida de folhas pequeninas, via. 
O momento era único sim, não se repetiria. A sensação de vazio a atraiu para aquela atração de uma pessoa só. O vazio sempre a chamaria onde quer que ele estivesse. O vazio que levava a dor, a mágoa, o cansaço, o ódio embora, para um lugar que nunca iria conhecer viva, esse mesmo vazio a abastecia aos poucos quando encontrava quem o universo ditava quem iria ser o próximo. Não era sua decisão ver os fios prateados, sentir a música subindo pelas veias, anestesiar seus pensamentos, iria até onde aguentasse, era esse seu destino do momento em que abriu os braços para a terra, deixou o manto nevoento cair, abriu as mãos de dedos nodosos, a máscara ossuda que guardava um rosto que ninguém veria e abriu seu coração para ser quem poderia ser. 

A música morreu com poucas palmas, um dinheirinho de moedas em uma caixinha de madeira, aos pés do índio, o CD com faixas de covers interpretadas com a flautinha que ninguém dava a mínima. Tocadas para garantir o ganha-pão, não para inspirar. A última sim havia sido para chamar atenção de quem queria receber a mensagem através da linguagem universal da música: "Aguente mais um pouquinho, mais um pouquinho, mais um...

Deixou a única coisa que tinha nos bolsos: cartão do Hotel dos caçadores de quimera. 

Dias depois recebeu o recado de uma ligação de um posto de saúde na periferia, sobre um velhinho, sem identificação, que deu entrada na manhã e a noite falecera. Pneumonia, disseram. Descobriram o cartão na mão dele quando removeram o corpo pro rabecão. Queriam saber se iam se responsabilizar pelo enterro ou podia botar na imensa lista de indigentes.

Entendeu o vazio, as entrelinhas, o apelo através da música, os fios prateados, o final de uma existência. Seu trabalho jamais terminava entre os filhos mais novos, iria até onde aguentasse, essa era a meta.