Pesquisando

sábado, 9 de setembro de 2017

[bibliotequices] fichas catalográficas da salvação (ou não)

Descobri um jeito de voltar no tempo, exatos vinte anos.

Decido então voltar aquela biblioteca enfurnada de livro didático, escura e cheia de livros que provavelmente nos próximos anos irei ler.

E voltei.
Como é que vou explicar pro meu eu de onze anos como uma biblioteca é organizada, qual é a importância dela pra minha vida futura e de muitos e que Dewey é um piiiiiii?

Simples! O próprio livro que tou lendo!
Vai ser esse aqui do Edgarzinho, porque ler O Gato Preto aos 10 anos de idade deixou um trauma lindo de se cultivar, inclusive a constituição desse ser que vos fala.

O diálogo imaginário de um futuro distante em que máquinas do tempo sejam capazes de realizar tal proeza:

- Hey, eu-de-11-anos, como você procura o que quer ler?
- Eu pego o primeiro livro que tá na prateleira que alcanço com a minha altura.
- E você sabe se é esse livro mesmo que vai gostar de ler?
- Não bocó, preciso ler o trem primeiro, né? (Eu era folgada assim mesmo aos 11)
- Mas como você sabe antes que é esse?
- Pela capa.
- Só isso?
- Eu abro a última página e leio.
- *eu de agora com cara de apavorade*
- Você é uma criança estranha, eu-de-11-anos !
- Valeu, velhaca. Por isso você conseguiu voltar no tempo, li o spoiler maior de A Máquina do Tempo e é por isso que você é assim... Mais estranha que eu.
- Ah, aliás! Você tinha razão ao pensar aquilo uns minutos atrás.
- Que vou gastar mais dinheiro com passagem de ônibus quando começar a trabalhar?
- Ah, isso também. Isso também.

A ideia aqui é convencer o eu-de-11-anos que me pertencia a saber procurar livros de forma mais rápida e fácil para não perder tempo. Como fazer isso sem consultar fucking manual algum?

Ficha catalográfica do livro.

Confiável?
Óbvio que não!
Acessível?
Na maioria das vezes sim.
Compreensível?
Possível. 

Vamos botar essa ideia no rolê da vida real.
O uso da ficha catalográfica era extremamente importante em bibliotecas devido o armazenamento delas em grandes armário de gavetas que a geração dos anos 90 pra baixo pegou para recuperar a informação. Nada de internet, nada de gerenciadores de software, apenas você, o armário de gavetas, a fichinha de papel datilografada conforme a necessidade - costumava ser um armário para assunto, autor e outro pra título.

A organização das bibliotecas também se dava nesse esquema.


Quando dominei melhor o uso dessa "tecnologia" na biblioteca pública do vilarejo brejeiro onde vivia, desisti na mesma semana para pedir arrego aos atendentes no balcão. Mais outro arrego, porque ninguém dava informações legais pra uma criança que perguntava demais, logo decorar as estantes que mais usava (literatura principalmente e a de referência) era inevitável pra mim. Eu gastava muito tempo atrás de livros novos e a tarde era feita para ficar entre as estantes de madeira do local nada feliz. Chegava exausta em casa, tanto pela ida (era em outro bairro distante do meu bairro, e eu ia a pé pra não gastar dinheiro da passagem e ir comprar bala de maçã verde), quando pela frustração de não achar o que queria ler às vezes.

Na escola não havia isso, eram apenas as estantes e os títulos ali dispostos à sorte de quem fosse procurar o que queria ler. A tia Vaninha pedia pra deixar em ordem de título da capa, mas eu sentia uma aflição ao ver que livros do mesmo autor ficavam separados um dos outros. Eu não tinha noção de como isso afetava a leitura dos meus colegas de escola, mas o hábito era que se você gostasse de um livro de certo autor, ia atrás do mesmo cara - e aí já sabe né? Se perdia nos esquemas das prateleiras sem organização ou classificação.

E pensando isso agora, em escolas em que tem pouco apoio tecnológico ou que realmente não dão a mínima para a biblioteca ou o que os alunos fazem lá, veio o estalo.

Fichas catalográficas, essa malditas que eu não entendia como eram feitas e para o quê.
(Obrigade aulas da 3º fase!!)

Peguemos a situação de escolas onde não há bibliotecários ou profissionais capacitados em organização de acervo e circulação. A maioria na rede estadual passa por esse aperto e muitos estudantes não usufruem desses espaços como queriam por diveross motivos. A má vontade da hierarquia é uma delas, porque se todo mundo se unisse e botasse a boca no trombone na Assembleia Legislativa quando tiram direitos dos professores ou fecham escola, as bibliotecas deveriam ser impostas como prioridade na questão.

Mas não tem bibliotecário com culhão.
E não tem atuação ou comoção.
Bem simples.

Mas voltando as fichas catalográficas: como é que vou ensinar a minha versão de 11 anos de idade a organizar as prateleiras para que Agatha Christie nunca mais vá parar lá do outro lado? Ou livros sejam erroneamente colocados em outros lugares? Como é que posso capacitar uma criança a encontrar a informação quando não há ninguém ali para dar a assistência?

Fichas catalográficas podem ser um caminho para essa ponte entre capacitação do usuário e noções básicas de processamento técnico para os estudantes de Biblioteconomia.

Ingênuo?
Sim, basicão aqui, gente.
Simples demais?
Tem que ser, estamos tratando de pessoas que NÃO PRECISAM decorar as habilidades que temos/fazemos.

Usando a ficha catalográfica do livro podemos tirar algumas informações para os seguintes tipos de capacitação do usuário:

1) Organização de espaço através do número sugerido ali para a CDD ou CDU, ou as alíneas de assunto, não vai ser exato, mas vai dar uma ideia ao aluno onde aquele livro pode ser possivelmente alocado na estante.

2) Noções de uso de referências bibliográficas em trabalhos escolares. Normas da ABNT. Preparação para escrita de trabalhos acadêmicos.

3) Noções de autoridades (nome do autor ou instituição, também ilustrador, organizador, tradutor, etc) com pesquisa voltada para o repositório nacional legal - site da BN, olá? - até uma aulinha básica do surgimento das bibliotecas escolares no Brasil e sua importância.

4) Noções de constituição física e conservação do livro, dimensões, nomes das partes, processos de conservação básicos, dá até pra enfiar matemática com figuras geométricas nos esquemas.

E o mais importante: dar autonomia do aluno recorrer a esse artifício ao se sentir com dúvida sobre os procedimentos aí em cima.

Parece antiquado né? Sim, eu sei, mas lembram das bibliotecas que frequentávamos quando crianças? Pois então, muitas delas CONTINUAM a mesma coisa, com o mesmo sistema de empréstimo no papelzinho, bolso de última página, processamento técnico e registro feito em caderno de ata. porque sim, povo! Nada de negar a realidade, cacete!

Já passei por escola com mais de 350 alunos nessa, mais de 500 e pasmem, escola com 1.200 alunos tudo no modo manual. Falta de investimento do município? Não, o buraco é mais embaixo. Gerenciadores de software são usados de bibliotecários para bibliotecários, não há o cuidado de capacitar o usuário para autonomia dentro da biblioteca escolar, os espertinhos que gostam de vasculhar cada canto que ganham vantagem aos alunos esporádicos que aparecem uma vez por mês para pegar livro. É neles em que tou pensando.

E vamos pensar além?
E se essa capacitação for feita para alunos e mantida por alunos?
Oi? Dar poder aos próprios estudantes da escola em terem a organização da biblioteca da escola por conta deles para eles?
Nossa, aí sim estamos falando a mesma língua.

Autonomia e empoderamento é isso.
Pelo menos é essa a premissa que gostaria de levar adiante no projeto que está se moldando aqui na cachola e que foi incrivelmente pedido por demanda de estudantes de uma escola estadual em que irei dar um pulinho semana que vem para ver o estado da biblioteca.

Vai ser tudo voluntário, com paciência e perseverança, porque eu vi nessa galera que veio falar comigo a mesma chateação de encontrar um espaço bacana que eu poderia ter usado quando mais nova com mais afinco e objetivos acadêmicos mais interessantes. Eles querem renovação e entenderem a organização para eles mesmos tomarem conta do lugar.

O que adianta equipar a biblioteca com computador no balcão se o sistema de gerenciamento não vai servir de nada pro estudante pesquisar? Por que não dar esse pedaço de conhecimento nosso por estudarmos exaustivamente na graduação? Por que não compartilhar conhecimentos dessa maneira e oportunidades para eles se estabelecerem como usuários críticos e responsáveis e a gente aqui na universidade ter um campo bacana de treino da prática?

Ideia de jerico?
Pode ser.
Mas pelo menos tou tentando levar um pouco do que aprendo diariamente nesses 4 anos de Biblioteconomia para quem algum dia pode estar aqui nessa mesma carteira da sala de aula da graduação.

Vai ter updates do planejamento e do desenrolar das ações. Tenho que ainda fazer muitos ajustes, consultar algumas pessoas e tentar exercer aquele papel irritante de "liderança" de grupo - coisa que não quero pelamooooooor - até chegar esse momento, construindo coletivamente, com os alunos da escola, com os voluntários que surgirem, com os professores que toparem a empreitada para legalizar como projeto de extensão ou quem sabe? Projeto coletivo na comunidade escolar?

Sei que meu eu-de-11-anos ficaria feliz de ter tido essas noções de organização de acervo quando ficava enfurnado na biblioteca escura entupida de livros didáticos.