Pesquisando

terça-feira, 5 de setembro de 2017

[bibliotequices] as gentes que vão na biblioteca

Vejo uns rolê bem bacana na Biblioteconomia sobre tecnologias inovadoras, coisas awesome conceituais e vislumbres de um futuro próximo de pura magia informativa, mas sabe?
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra ler jornal procurando emprego sem saber ler uma palavra do que tá escrito.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra não ficar na rua pensando em como vai conseguir a próxima dose pra amansar o vício.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca com a esperança que prestem atenção nela e vejam que precisam de ajuda com um digitar de currículo, usar uma rede social, ver a foto da família que tá lá longe, escrever o próprio nome.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra escapar da infelicidade do mundo frio, violento e cruel.
  • Ainda tem gente que vai a biblioteca pra tentar ser cidadão, nem que seja o mínimo.


É neles quem tou pensando quando tou estudando.
Pros dados, pras datas, pros bytes e rebites deixo pra galera antenada. Cês tem um futuro brilhante.

Pra essa gente que citei ali em cima, nem tanto.
É uma grande parcela da população que nem vai chegar no terceirão, que passou dificuldades por todas as fases da vida, de aprendizado teve as ruas, a Educação precária, a negligência, o pouco da família desestruturada. É gente que sequer tem ideia do que é uma faculdade, de que podem ter chances de entrar em um curso superior, de que o Ensino de Qualidade é pra todos, tá lá na Constituição.

É neles quem penso todos os dias quando formulo alguma coisa.

E eu gosto das novidades tecnológicas, das ousadias biblioteconomistas, das iniciativas pra frentex de mentes brilhantes da nossa área. Mas a gente tá num local privilegiado, sacas?
Eu ouvia amiguinho de turma dizendo que só ia pra escola pra comer, porque em casa não tinha nada. 10 anos depois ouvi a mesma colocação em meu estágio supervisionado na Letras. No estágio em bibliotecas escolares ouvi a mesma coisa.
20 anos de intervalo entre a descoberta de que alguém muito próximo não tinha os mesmos privilégios que eu. Ainda me apavoro quando ouço essa de "vim pra escola pra comer", porque querendo ou não, ouço o mesmo nas filas do RU. 20 fucking anos e nada mudou. Não nesse requisito.

Aí ouço bambambam dando nos dedo de quem quer seguir pro social, pro humanitário, pro "assistencialismo". Porque elitismo higiênico nesse curso já não basta, tem que rasurar quem a gente serve. Pra quê que a gente serve, afinal? 

É isso que me deixa acordade às vezes quando vem a ideia pra um projeto que provavelmente estará escrito dentro da minha caixa craniana, mas não vou conseguir botar no papel. 

Improviso. Tudo no improviso.

Ainda tem gente que vai a biblioteca, porque momentos antes tava pensando se não seria melhor que não estivesse nem vivo, respirando o mesmo ar que a gente. Tem muita gente assim, acreditem. E a gente que tá atrás do balcão, entre as estantes, coberto e seguro por uma tela de computador, não vê. É neles que tenho vontade de sentar e conversar por horas sem dar a mínima para políticas, procedimentos, gestões ou planejamentos. Eles estão vivos ali por algum motivo, eu realmente espero do fundo do meu coração que a biblioteca, a presença dessa quimera que não conseguimos decifrar, seja uma razão boa para eles ficarem, permanecerem, serem.

Porque não vai ser a primeira e última vez que vou ter que lidar com leitores assim. Não vai ser a primeira nem a última biblioteca sem o mínimo de organização para existir. Não vai ser a primeira nem última vez que não haverá recursos, pouca mão-de-obra qualificada, omissão hierárquica, apatia, submissão.

Ainda tem gente que vai a biblioteca, porque é ali que se encontra como ser humano. 
Sem muita firula. 

É pra essas pessoas que tenho que pensar quando pegar meu canudo, fazer o juramento. E é estúpido, é antiquado, é ingênuo, sem graça, nada rentável, eu sei disso tudo, mas é neles quem penso quando pego um maldito manual acadêmico que só serve para eu interpretar e não quer dizer nada pro meu leitor. Muita coisa teórica a gente pode (E deve) deixar pra trás quando não traz benefício para o cidadão, o Amor não deixa pra trás não. 

Essa bagagem bacana, a empatia, a alteridade, a Ética acima de tudo, não deixa pra trás não.