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terça-feira, 29 de agosto de 2017

[bibliotequices] e por que não?!

Esse questionamento vem sendo meu mote desde agosto de 2013 em que assinei a papelada para retorno de graduação na digníssima universidade que não posso nomear. Já havia escrito sobre como os nãos podem atrapalhar a vida de estágio aqui nesse link.

Por que não deixar esse emprego sério, chatonildo, dentro de um cubículo de empresa de iniciativa privada com carinha de moderninha, mas concreto puro de exploração em sua execução? Por que não passar dificuldades, sair de casa, encarar vida solitária, ter um problema no miocárdio por conta de vírus invisível (paixonite agudis) e se livrar de uma crise ferrada de depressão? Por que não ser feliz?

Teve dia em que planejei meu funeral, mas sempre o por que não? me perseguia mais do que os pensamentos ruins.

Então fui lá fazer o por que não em outra graduação, porque sim, eu sabia que o ambiente acadêmico era meu lugar de pertencimento. O por que não me deu muitos presentes e me extraiu pedaços quando pipocavam. Aprendi mais com os por que não do que com as permissões silenciosas, as oportunidades de mudar as coisas aparecem bem no meio do caos, esse tumulto maravilhoso, meu favorito em todos os sentidos.

Loki abençoa bem quem segue o Caos. Firmão, hermanes!

O por que não inicial foi o de aliar e relacionar minha experiência na universidade particular dos Stormtroopers com essa inteiramente gratuita em que estou. O começo foi no modo mais intrusivo possível, falando mais nas aulas, inquirindo melhor meus professores, cobrando de quem era responsável por aquilo tudo ali funcionar, questionando Ranganathan e o mundo. O por que não me levou ao centro acadêmico.

O por que não me fez bater de frente com quem não queria que meus colegas se desenvolvessem como cidadãos plenos e críticos em um curso que forma gente assim quando tá lá no mercado de trabalho. O por que não me rendeu conversas de corredor, ali no cantinho e "vamos baixar a bola e aceitar as coisas como são" - o por que não me fez ficar 1 ano e meio em bibliotecas escolares, linha de frente, tendo a experiência do todo, e foi esse por que não que me moldou até agora.

Atuar como estagiário em escola pública não me era estranho, já havia feito estágio docência, projeto de extensão e dado aulas pingadas em diversas séries há anos atrás. Diferente da minha sede com a Biblioteconomia, na Letras eu fui com aquela sensação de culpado antes de ir pra guilhotina. Em cada sala que atendia ou aluno que lecionava, sentia que o por que não não era para ser usado tão assim na cara.

Pessoas não estão acostumadas em levar um e por que não? na cara. Ainda mais quando são pessoas que estão ali há anos fazendo o porque sim e não questiona. A dificuldade maior de se fazer essa pergunta é a consequência/Paradoxo de ter o porque sim e não questiona, mais o nutrir de emoções negativas no processo. Vai ter gente pra puxar nosso tapete, vai ter gente que vai descreditar e desvalorizar, vai ter erros, backlash, noites mal dormidas pela culpa também, por não ter feito o suficiente. Mas vai ter uma coisa muito legal que só quem é diretamente beneficiado pela pergunta (e a ousadia) vai saber: vai levar pra vida inteira.

Post grande, TL;DR como sempre, porque precisava escrever algo que consegui processar depois do evento sobre Empreendedorismo na UDEXQUI essa semana.

E POR QUE NÃO?!


O por que não em bibliotecas escolares foi crucial para melhorar um defeito enorme que tenho desde criança: eu costumo ouvir conversa alheia sem querer querendo. Só me finjo de besta quando o assunto não é de meu interesse (maioria das vezes não é, a não ser na tríade que conservo), mas de qualquer maneira, eu ouço e isso em balcão de biblioteca se tornou precioso para estudo de usuários.

Com essa habilidade social nada adequada, deu para fazer uns por ques não com mais precisão. Boa exemplos? Bando de adolescentes bagunçando canto infantil, não deixando os pequenos irem nas estantes para ver os livrinhos. Não precisa expulsar os manés dali, por que não fazer o bando ajudar o chuchuzinho que não sabe ler ainda e quer o livrinho de dinossauro? Deu certo na maioria das vezes, eles até conversavam entre si sobre coisas mirabolantes como desenho animado, comida e que o bairro em que moravam era ruim pra caramba de morar, não tinha nada pra se divertir na rua. A única biblioteca perto era da escola. eeeeeeita oportunidade de ouro, ali era a referência deles para qualquer coisa cultural durante a semana?

Por que não colocar a TV de polegadas suficientes com desenho animado, documentário bacana, curtas-metragens pra eles na hora do recreio? Então fiz do dia em que ouvi isso por tabela e o bando de adolescentes e a turminha pequenuxa ia visitar frequentemente a biblioteca. Não precisava pegar livro, estudar, era saber que ali eles tinham essa alternativa, entender que ali também era um lugar deles. No Halloween rolou esqueleto do laboratório de ciências emprestado para virar o Edgarzinho (Sim, esse mesmo que você pensou) dando boas vindas no balcão macabro e os filmes mais manjados da Sessão da Tarde e Cinema em casa na telinha. Teve Os Fantasmas se Divertem (BeetleJuice, classicão do Burton!), Convenção das Bruxas, Esquadrão Monstro e aquele episódio horripilante de Doctor Who da biblioteca. Se assustaram mais com o Besouro-suco que a Angelica Houston como bruxa, vai entender...

Mas aí chiaram porque não pegavam livro (especificamente isso, porque de acordo com alguns mais assim influentes, gibis, revistas não era contado como algo digno de ser interpretado como empréstimo literário), só ficavam no celular, falando alto, rindo, e por que não? Recreio gente. Quem ia estudar era 1% e com eles tinha negociação amigável de "Dude, recreio, dá uma descansada, vai lá comer merenda, estar as pernas, deixa teus trem aqui comigo e volta quando terminar, beleza?"

Beleza, por que não, não é?

O uso intensivo de celular me rendeu boas risadas, era meu argumento contra aqueles que diziam com toda rebeldia: "Eu não gosto de ler!!", atá e por que tá aí de celular na mão lendo menu do Android, rede social, comentando foto dozamiguinho? Isso não é ler, não? Dali dava pra convencer que não era pra renegar o processo de leitura, mas de se adaptar a ele. Prefere isso do que aquilo? Tudo bem, eu odeio paçoquita e amo Nutella, não é sempre que vou ter Nutella pra comer. Por que não dar opção pra paçoquita? Muitos entenderam isso, até porque os professores reforçavam essa lógica (e pessoas de bibliotecas escolares, SEMPRE se apoiem e ajudem os professores, é sério, o retorno é incrível).

Um deles insistia, todos os dias, em perguntar a senha da WiFi da escola (E devia um livro do Percy Jackson há 3 meses). Expliquei que era contra as normas passar essa informação, já que na escola ele deveria supostamente se concentrar mais no conteúdo em sala de aula e deixar a Internet de lado por um tempinho para isso. Pensei melhor, por que não apresentar o único PC da biblioteca pra ele? Sistema operacional open source defasado, velocidade na Internet capenga. Em menos de uma tarde descobri que o guri programava jogos com os amigos em uma plataforma compartilhada. Tinha déficit de atenção na ficha escolar, um tempo depois de passar seu tempo livre à tarde ali naquele PC capenga, se comprometeu a prestar mais atenção nas aulas. Um mês depois tava lá ele todos os dias na biblioteca com o time de Olimpíadas da Matemática, chegaram as semifinais do Estado. Ninguém mais chiou.

Zé Bocão do bando de adolescentes falava muito alto, demais, os professores não aguentavam pelas perguntas fora de hora, as conversas nada a ver. Poderia ser os hormônios, poderia ser uma necessidade de chamar atenção, poderia ser surdez parcial. Ouvi numa das conversas paralelas que ele tocava guitarra, corri no depósito atrás de um violão velhaco que tinha lá, duas cordas arrebentadas, tarraxas meio soltas, tampo de boas, braço intacto. Deixei em uma cadeira perto de onde eles sentavam. No final do recreio havia saído uma versão dedilhada do hino nacional que não o deixou satisfeito: "Vou trazer as cordas novas amanhã, tia!" - beleza, se quiser traz o que quiser, o violão tá aqui pra vocês usarem. Mais outro colega dele sabia tocar, muito bem por sinal.

Por que não falar do festival de talentos da escola que estão planejando pra daqui dois meses? Se empolgaram na hora e foram atrás da diretoria pra saber de mais detalhes. Levei xingo por dar spoiler do evento antes mesmo de ser planejado. Valeu a pena, por que não? Eram dois passarinhos músicos esquecidos num mar de cerca de 360 e poucas cabecinhas comandadas pelo município. Ia fazer o quê? Deixar isso de lado, sendo que minha paixão imensa é música? Tem coisas no e por que não que precisam vir de nosso egoísmo. Essa de aproveitar o talento deles no violão foi crucial para eu compreender a relação entre equipe pedagógica, quadro do magistério e biblioteca. Coisas boas aconteceram a partir daí.

Semana passou com o bando de adolescentes retirando músicas daquele violão velho. O Zé Bocão trouxe o kit de violão que tinha, botou o trem quase novinho, combinou as músicas que iam tocar no festival de talentos, perguntou se eu não podia esconder o instrumento pra só eles usarem. Disse que não, esse trem aí é de todo mundo e alguém vai precisar algum dia. Teve cara feia, teve argumento de "Mas vão estragar!", mas nope, se é pra todo mundo, é pra todo fucking mundo. Sem exceção.

Foi o que aconteceu no final do estágio por lá. Imigrante da América Central, pouco português na fala, dificuldade para interagir com as outras crianças. Veio de longe, tava frio demais em Floripa, a biblioteca é mais quentinha com os tapetes colocados no chão com peças de madeira para montar, tabuleiros de xadrez nas mesas, livros didáticos fazendo pilha que eu cobria com TNT (o tecido, não a dinamite!) e convidava quem quisesse sentar em cima (não havia cadeiras suficientes quando precisávamos). O menino quieto pegou o violão, tocou por quase 1 hora sem parar, em espanhol, na língua nativa, recreio passou e ele não parou, estava ali na biblioteca porque a supervisão mandou, o bando de adolescentes começou um diálogo básico com ele, um tentando entender o outro, cada um de sua maneira. Criança socializada sem saber. Por que não?

"Essa biblioteca é sufocante de tão cheia de coisas inúteis!" Ouvi falar outra vez, resolvi investigar que coisas inúteis eram essas. Oh sim, Dewey. Tudo classificado na CDD obviamente, o que mais interessava estaria lá no fundo, inverti a ordem. As sextas eram livre de trabalho de empréstimo nas salas, bora lá tirar TODO O ACERVO e reorganizar tudo! E na 800 chutei o pau da barraca, por que não? Pedi permissão antes. Literatura Catarinense misturado com tudo, por que não? Mais oportunidades de um leitor incauto pegar um livro da nossa área. "Hey, esse livro aqui foi fulano, amigo do meu vô que escreveu!", "Esse livro aqui é lá das minhas quebrada!", identificação, apropriação, empoderamento, por que não? "Ai a biblioteca vive bagunçada com esses livros jogados nas mesas, empilhados nas estantes, credo..." - diziam os adultos.

As crianças preferiam assim por trocentos motivos: tinham medo de desorganizar as estantes e levar bronca; tinham medo dos livros caírem nelas; tinham medo de rasgar livro puxando errado; preferiam os livros coloridos nas capas e assim espalhados nas mesas dava pra ver direito; caraca, eu mesme me sinto horrível com organização asseada e milimetricamente ajeitada em estantes. Isso não é biblioteca escolar, é meu pesadelo mais nítido de biblioteca medieval com correntes nas lombadas e tudo mais.

Livrarias e sebos fazem isso e vendem, por que aqui não?

Um dia deu a louca, tava cansade da mesmice nas prateleiras infantis num bege quase funéreo (a escola ficava atrás de um cemitério, btw), por que não colar tudo com uns desenhos encontrados em revistas de recorte? E heeeeeey tem pessoinhas aqui que desenham muito bem!! Pedi permissão de quem desenhava, fiz um mural de colagens e os desenhos, plim, na porta da biblioteca, nos cantos das prateleiras, perto das estantes, pendurados no teto. Por que não? "Ah esse eu desenhei, mas tou fazendo um melhor! Quer ver?" - traz tudo que quiser. Eu arranjo lugar. Por que não separar por assunto fofuxo? Prateleirinha só de dinossauros e bichos antigos. Prateleira de seres vivos. Prateleira de contos de fadas clássicos, prateleira de estórias com título nonsense tipo "Por que princesas soltam pum?" ou "O chapéu do urso", é, aquele livro mesmo que cismei por quase 5 meses inteiros com a paródia do Avengers. Conhecer o acervo ficou divertido, nas mesas só título maluco misturado com "literatura padrão". Por que não?

Para os professores, atendimento personalizado, hora do almoço ao meio-dia, cafézinho às 3h da tarde, por que não perguntar: "Precisa de alguma coisa? Um livro? Um artigo? Um mapa? Eu arranjo, não sei onde, mas arranjo." - fazer meu trabalho como deveria ser em qualquer outro lugar, o mais simples possível, por que não? Dicionário de inglês sumiu? Beleza, a gente então dá metade e pede pra galera da turma lotada sentar em dupla. Veio doação de dicionário no outro mês. Livros são para serem usados, por que não?

Consertar sandália despregada de menininha assídua nos gibis, solução temporária com clipe grosso, supercola, por que não? Balcão virar consultório de ocupação vocacional para o povo do nono ano? Por que não? Bora lá mostrar pra essa galera que tem futuro após o terceirão. Ensino Superior é um direito nosso, isso ninguém nos tira! Em dias mais parados, por que não catar os tabuleiros de jogos que tem no depósito e colocar nas mesas pra quem quiser brincar? Por que não chamar as pessoas da comunidade que fazem artesanato para usarem o espaço para fazerem seus trabalhos ali? (Essa não consegui, mas foi quase!) Por que não ajudar o professor apurado a fazer a especialização dele com pesquisa em outras bibliotecas da região pela bibliografia básica? Por que não dar aquela mãozinha pro ACT ferrado que não parou na greve e tá tentando concurso público pela enésima vez? Por que não deixar estudante tirar um cochilo na hora do recreio (preciosos 20 minutos!) porque ele REALMENTE precisa? (O chuchu estudava de manhã, trabalhava à tarde, ajudava em casa à noite)

Por que não, gente?

Por que a gente coloca tanta barreira besta em coisas tão simples do dia-a-dia onde a gente trabalha?
É por conta das regras, da formalidade, da imagem da empresa/instituição?
Por que não ousar?
Por que não transgredir?
Por que não sonhar?

Por que não arranjo um emprego logo e vou dominar o mundo via estantes e bloco de notas?
Aí sim: porque não.