Pesquisando

sábado, 6 de maio de 2017

[bibliotequices] sobre lasanhas, pastelão de frango e incoerência

Leis são o patamar máximo de "coisas que eu devo obedecer sem pestanejar, porque sempre vai ter um advogado de regras babaca pra contestar e interpretar do jeito dele ou literalmente. Ou vai ter punição.". Seguir a lei é fundamental para garantirmos nossos direitos/deveres, blablablá, manutenção da ordem, do progresso, sustentação de dogmas e doutrinas, aaaaah vocês entenderam!

Aí eu chego na hora de entender currículos de cursos. Ou como supostamente alguém que está cursando o curo chega a uma conclusão sobre o curso. Vou usar alusões à comida, porque é algo que gosto de tagarelar e fazer piadinhas sem ofender ninguém. E quem veste a carapuça é meu chegado \o/

Fonte: Just West of Hell - Heartbreak is a lasagna - interessante.

As Leis tal e tal dos anos tais te dizem que para você virar lasanha, você tem que preencher uns seguintes requisitos, ou modos de preparar. Tem a massa da lasanha, o molho de preferência (tem vários aí no meio, você escolhe, você vai ser a lasanha!), qual forma adequada pra colocar as camadas, qual temperatura do forninho, o tempo a ser assado, quantas porções a servir.

Essa é a Lei falando, tá? Tá lá escrito, em letras bem legíveis e de acesso gratuito pra qualquer pessoa ler. Se vai interpretar da forma certa/errada/o que for, aí outros quinhentos. E como a gente sabe o que acontece com as pessoas que não seguem as leis (viram políticos?!), aí fica mais difícil ainda de dialogar com as nuances.

Aí tem a premissa que toda universidade tem autonomia de montar seus currículos de cursos. 
Beleza, parece plausível, coerente, até bem assim... qual a palavrinha? Liberal, né? Pode pegar a mesma receita de lasanha e fazer um apanhado de diversas formas de se fazer lasanha. Lasanha de forno, de microondas, de forno à lenha, de laser alienígena, de máquina de fótons, por aí vai.
E você quer ser uma lasanha, eu quero ser uma lasanha, porque lasanhas já me provaram socialmente que são importantes para o contexto atual do momento e sempre serão. Lasanha é vida.
(Tem gente que vai achar a pizza mais importante ou até aquele talharim com molho a bolonhesa, mesmo sabendo que existem pessoas que são vegetarianas/veganas que querem ser talharins e são obrigadas a se encaixar nesse enquadramento, mas anyway: LASANHA!)

Aí o currículo do curso de ser lasanha diz um tanto de coisa que não bate com as Leis de como ser uma lasanha lá chancelada pelo Executivo/Legislativo e Judiciário. Tem um Conselho Federal e um Regional de ser uma lasanha acompanhando os desdobramentos dos molhos, das temperaturas, das formas (Essas são importantes, usem as redondas, dá mais espaço para mais coisa), tem associação de ser lasanha também nas parada. Mas a faculdade prefere seguir uma receita totalmente que não é sobre lasanha. É, sei lá... Kalzone. Ou pastelão.

A universidade quer que você que quer ser lasanha, se forme como um pastelão de frango. 
É, de frango. 
E de quebra, se sobrar tempo na carga horária, colocar azeitona no meio, vai ter que rebolar pra ter azeitona na receita. 
Pastelão de frango. Não lasanha.
(Crise de identidade? Não, imagina! porque ser lasanha tá ultrapassado! lasanha é coisa do passado!)


Aí você vai lá, porque acredita que ao pegar o bendito diploma do curso de como ser uma lasanha, mesmo tendo estudado um tanto de coisa nada a ver para ser um pastelão, você será completo, feliz, sorridente e vai mudar o mundo - sendo lasanha. E a receita é tão fechada no currículo do pastelão que não tem como transformar esse quitute em lasanha. Nem tem massa de lasanha nos esquema!! 

E pelamooooooor, nem gosto de frango!! 
Por que não pode ser pastelão de palmito?! 
Por que tem que ser pastelão?! 
Mas tudo bem, você continua, porque tem ainda aquela esperança que vai conseguir ser uma lasanha algum dia.

Aí você se forma com o currículo de pastelão de frango (sem azeitona, tá? Porque transformaram a azeitona em uma disciplina optativa de 2 créditos, afirmando que não encaixava com as novas formas de se adequar ao mercado de trabalho e as leis do capital acadêmico. Não dá dinheiro pra faculdade, não dá pontinhos para o livro da Ofélia, não vai ser usado no programa da Ana Maria Braga, nem vai render concurso público, oooops MasterChef...), vai pro mercado de trabalho ser uma lasanha, com toda uma expectativa, não só sua, mas de todo mundo que te reconhece como lasanha, vai ter uma prévia ideia de como você foi cozinhado e assado. Lasanha tem camadas e é colocada em certas formas a tantos graus e só muda o molho mesmo.

É assim que o mundo lá fora desse forninho acadêmico vai te enxergar.

E percebe que as Leis que te regem como lasanha não passam uma única vez enquanto você era ensinado para ser pastelão de frango (Sem azeitona). Pros outros você continua sendo uma lasanha - uai, o nome do curso era "Como ser uma lasanha", não "Como ser um pastelão de frango (sem azeitona)". E isso ferra com a tua atuação como lasanha. Você não tem as camadas preenchidas totalmente de molho. Tem problema no arranjo da forma, na temperatura colocada para assar, o molho? Esquece o molho, vamos falar da massa crocante no pastelão.

Isso se chama pós-graduação em lasanha e/ou pastelão de frango. Decidiram que seria algo a ver com o pastelão de frango, porque é mais chique, lá fora do país tá bombando os pastelões, mas aqui nas terras tupiniquins ser lasanha não é mais historicamente privilégio, é ser idiota. Ou uma lasanha pública. e ser lasanha pública é motivo de chacota. Tipo, lasanha: quem é o doido que quer ser lasanha? Tem kalzone, talharim, nhoque, tantas massas por aí, mais chiques, mais nobres, mas essa do pastelão é o que há. Bora pro pastelão!

Você tem todo direito de analisar apenas um recorte da camada de lasanha ou qual tipo de azeitona você acrescentou no recheio do pastelão, mas vai acabar assinando a cumplicidade de que aquilo que as Leis estão te mandando a fazer (Sim, por que é isso que servem as leis ou pensou que elas estão ali desde a Constituição de 1888 de enfeite? tem gente que morre cumprindo as leis todos os dias, tem gente que se questionar as leis donde elas vivem, ficam insanas) pra ser uma lasanha NÃO É AQUILO que você estudou/é. 

Tá, mas e aí? Joga tudo pra cima e vai chorar?

É, vai. 
Porque se a autonomia de reestrutura curricular de um curso NÃO PASSA pautada nas leis que asseguram essa escolha minha, deliberada chamada "Eu quero ser lasanha", isso pode ser considerado como desobediência civil aos códigos maiores de ser uma lasanha... Estou subvertendo todo um passado histórico de ser lasanha. Então se o que eu aprendo na faculdade NÃO É válido lá fora, pra que eu pago anuidade das instituições da lasanha que me asseguram todos os anos que sou uma lasanha? Mas a fucking lei tá dizendo aqui no... *aponta pra lei* *olha pro curriculo* *cabeça explode* - uma coisa não tá batendo com a outra.

 As Leis me dizem que eu posso ser, mas a faculdade tá me ensinando pastelão de frango. Cuma?! o que eu sou então? Não dá pra pegar a massa do pastelão e fingir que é lasanha e não dá para pegar a estrutura da lasanha e fingir que é pastelão, até porque o pastelão de frango (sem azeitona) nem se consolidou como um pastelão de frango até estar totalmente pronto. A lasanha já tá pronta, já tem receita, já tem leis para assegurar que ela seja feita na mesma metodologia que foi inventada milagrosamente centenas de anos atrás. A lasanha existe. Ser a lasanha é que tá ficando difícil.

Quanto mais pastelões de frango se formarem, menos vai ter Leis pra nos garantir que somos lasanhas - a questão do ser e existir, sabe? Existe leis que me garantem como lasanha, mas ser a lasanha parte de outros processos de cozinhamento). E se isso for enfraquecendo, daqui a pouco teremos fulanes doutorados em pastelão de camarão a milanesa ou pastelão vazio por dentro, porque a massa tava muito grossa, não vai ter pós-graduação em lasanha integral com molho de brócolis e ricota ou de peito de peru canadense. Não vai ter. E esses doutorados vão nos dar aula.

Sim, pra você que quer ser lasanha.
E o ciclo vicioso começa novamente.
A grade curricular que não permeia ou passa pela Lei que já existe, cria lasanhas que na verdade são pastelões de frango (sem azeitona), mas que nem sabem que são, porque tá normal ser assado como lasanha e ter gosto de pastelão.

E cada vez que desejo ser pastelão - por alguma razão egoísta/insana/normativista - vejo que a sociedade precisa de lasanha. Muita lasanha. E lasanha bem feita e estruturada e minimamente instruída nas altas academias perfumadas e higienizadas, nada menos que isso. Não porque a sociedade precisa ver que a lasanha que você se formou é a 8ª maravilha do mundo, é porque tem Leis explicando que para ser lasanha não é preciso aprender sobre o pastelão. E que a população não tem muito interesse em pastelão de frango, se ele não tiver a azeitona. Eles querem a lasanha, pô!

O que as Leis mandam você fazer versus o que as faculdades tem autonomia de fazer.
A incoerência começa ali.

Agora tou com fome.
E continuo querendo ser lasanha, mesmo que as receitas de 62, 65, 98 e 2010 não estão sendo sequer mencionadas durante a minha vida de escriba.