Pesquisando

domingo, 26 de fevereiro de 2017

[conto com angie] as pequenas cismas


Título: as pequenas cismas (por BRMorgan)
Cenário: Projeto Feéricos.
Classificação: PG-13.
Tamanho: 2.889 palavras.
Status: Completa.
Disclaimer: Esse conto faz parte de algum rascunho perdido meu do Projeto Feéricos que vocês podem ver os pedaços sendo costurados aqui nesse post [x]
Personagens: Kristevá Todd, Raine, Angie, Tobby, Emilio, Smithens e Prince

Começara a entender as pequenas cismas, novos modos de se passar vergonha e cometer gafes memoráveis por todas suas vidas. Quem costumava entregar elas era a menina que se vestia como um acidente de carro, seja lá o que isso queria dizer para "eles".

A música alta e agitada de batuques e tambores, piso grudento de cerveja quente derramada, a meia luz que disfarçava os rostos suados, boêmios e entorpecidos dos foliões Muito contato tátil, pouco auditivo. Não gostava de se sentir sem audição em lugares como aquele. Passar noites na completa escuridão fazia parte de sua rotina, mas ter a privação das nuances auriculares era como retirar metade de sua capacidade de raciocinar. A música estava mais alta, óbvio, fazendo com que aqueles ali presentes se aproximassem e fazer aquela dança esquisita do acasalamento. Como essas criaturas sobreviviam há mais de milênios, nenhum de seus ancestrais conseguira explicar direito.

A batida da música mudou, algo mais primal, introspectivo, sugestivo, a dança humana mudava, o cheiro também. Técnicas de sedução, explicaram uma vez na biblioteca, procriar, reproduzir, nascer, crescer, desenvolver, decair, encolher, morrer.

Apenas entendia a última parte, essa era sua tarefa agora, fazer os outros como eles entenderem. Cada mortal com sua sentença, sua pluma, seu coração, sua balança. Quem vinha coletar não era quem eles tanto gostavam de repudiar, uma criatura deformada, esquelética, manto escuro comprido, foice na mão, olhos sem enxergar, uma lista.
Por que haveria listas?! Séculos de aprendizado e nenhum aproveitamento das lições. Tolos. Egocêntricos. Pedaços de estrelas mortas.

A surdez temporária pela tecnologia barulhenta dos mais novos aguçava sua vontade de voltar a sua forma primitiva e voar para longe dali. Bem, bem longe. O contato mínimo de um braço em seu ombro a fez se recolher alguns passos para trás e preparar algum tipo de insulto ensaiado: fora assim que aprendera da última vez. Era a menina vestida de acidente de carro.


Essa criaturinha incessante, vivaz, que recebia energia do mesmo local em que habitada anteriormente, a Filha dos Ventos era como os da espécie dela a chamavam, mas os antigos sabiam qual era o verdadeiro nome. 
- Foi mal aew, fio... Fia... Ahn... Sem julgar, beleza? Desculpa o tropicão, acontece nas melhores famílias...  - disse ela tranquilamente, arrumando os cabelos tão escuros em um coque improvisado. A voz era diferente, mas o timbre era conhecido entre os sussurros dos mais velhos. - Cê tá bem?
- Reconhecimento de local... - respondeu apenas, voltando seus olhos mal treinados para a multidão. 
- Diversão hoje em dia, nem pensar né? 
- Como? - a confusão começou por ali, a pequena cisma antiga.
- Era só mais um Silva, que a estrela não brilha? - a pequena cantou e a frase parecia incoerente aos seus ouvidos já letárgicos. - Ele era funkeiro, mas também pai de família? - perguntou a mais nova - Véi!! Cê vive há séculos conosco e não absorve cultura local não? 
- Meus modos de interpretar os de vocês são diferentes, Filha dos Ventos. - disse com um certo orgulho ferido. Não gostava de pensar em sua fragilidade física naquele instante (E a música estava tão alta!).
- Bem, lição aprendida nessa vida: quanto mais a gente aprende, mais esperto fica. - disse Angie apontando para sua testa. - Até rimou, óia que coisa bunitinha!
- Essa é uma premissa óbvia, menina. - a mais nova deu de ombros, sua apreciação por festas era notória, apenas ela poderia convencer sua pessoa a ir até os limites da propriedade do Hotel e verificar o que tanto os foliões lá fora se divertiam tanto.
- E aí? Tá reconhecendo o quê? Bailinho da meia-noite com tumbalacatumba? - riu-se Angie colocando uma das mãos na cintura. Isso queria dizer apenas uma coisa: provocação.
- Por que tem essa mania de falar em códigos? - o dar de ombros trouxe mais irritação.
- Porque é legal ver a sua cara de tacho. E o que falei foi pura referência aos anos 80... - indignou-se a menina. A pessoa abanou os olhos como se quisesse afugentar alguma lembrança perdida, ou recuperá-la.
- Não estava por aqui nesse tempo. - respondeu de imediato e virou-se para a porta do local lotado. 
- Peninha... Altos anos, fiquei um bocado, aí cê sabe... - a menina fez um barulho como um assovio decrescente, e um gesto com a mão como se estivesse mergulhando. A criatura entendeu imediatamente, a fonte também nutria a aprendiz mais notória do Viajante do Caminho Prateado.
- O que a água nos deu... 
- Então, essa da água e talz e panz, preciso pagar mais algum pedágio pra seja lá quem você serve? 
- Não há tributo algum se não há pecado a ser removido. 
- Você fala como se fosse retirar os males do mundo. E isso também é uma referência... 
- Não nos compare aos semitas, nosso intento aqui em seu mundo vai além de... 
- Blá-blá-blá, já saquei véi... Mas que cê podia aproveitar melhor o tempo que te deram, ah isso sim! 
- Prazeres mundanos não fazem parte do meu intento. 
- Mas tomar caldo de cana com pastelzinho na feira foi de boas... - a criatura deu apenas um breve sorriso deslocado. 
- Minha domesticação entre vocês foi de apreciar pequenos momentos. Momentos quietos e domésticos. 
- Oh entendi...

A primeira a ser notada fora a cisma de sua forma de se manifestar naquele mundo. Ocupando um corpo trêmulo, frágil, pequeno para sua última existência, sofrendo de dores em intervalos de 4 a 6 horas e uma ganância absurda por algo que não sabia o que era ou como se conseguia. Algum acidente de percurso, essa deveria ser a explicação. Enquanto os seus gentios voltavam de forma honrosa e quase completa, desta vez a Tempestade Incessante fizera retornar dos mortos como parte daquilo que era, pequenos pedaços de si e de outros seus para completar um quebra-cabeça que definiam como "alma". Havia costuras demais, fragmentos com furos demais, lacunas. E essas sempre iam para as pequenas cismas.

A Filha dos Ventos razia as novas e também as cismas, era típico do tipo dela.
 - Escuta... Cê lembra de onde veio? - foi a primeira pergunta. Não deveria dizer, não era adequado para aquele tempo.
 - Você tem superpoderes? Pode levantar coisas pesadas ou sei lá... - era uma recorrente, a negação de ter poderes mágicos ou sobrehumanos não agradava quem perguntava. A única pessoa a soltar um suspiro de alívio foi a líder do grupo. Parecia que ela não queria mais um esquisito dentro do Hotel.
 - Se você é tão velha assim, porque não faz alguma coisa? - e essa pergunta perturbava seu ser mais do que tudo. Os humanoides, Filhos mais Novos ou Feéricos, separavam a Grande Criação em duas caixinhas medíocres de escolha. Aquele mundo (Avançado tecnologicamente ou não) não compreendia bem como não era ser o que era para ser. Apenas não era. Não era de seu intento ser. A missão era simples: renascer, crescer, coletar o máximo de informações para a biblioteca, morrer, voltar o mesmo ciclo.

Por que não compreendiam isso?

A outra cisma além das perguntas que não podia responder, era o banco de concreto do lado de fora do Hotel. Se é que aquilo que chamavam de "hotel" era realmente um lugar. Seus olhos apesar de cegos para a magia envolvida dos Prodígios, podiam ver o que aquele... ser era. Se pudesse confiar em alguém naquele Tempo seria ali, ou ele. Não sabia como se dirigir para um prédio de 4 andares que em sua essência era a consciência latente de um Prodígio antigo. Apenas poucos haviam conseguido essa proeza, no Egito havia muitos prodígios assim, selados em forma de locais, protegidos e protegendo suas comunidades, ouvira também que havia outros Prodígios mais poderosos que ultrapassaram as barreiras além dos Nós da Teia de Fé e construíam reinos neles mesmos. O potencial da imaginação humana era incomensurável, mas continuava achando que caíra no lugar errado, na época errada e com as pessoas erradas.

O Hotel lembrava que talvez os erros fossem os acertos do futuro.

O banco de concreto era onde caíra pela primeira vez, e ali era onde encontrava a lucidez do corpo trêmulo que habitava agora. Os habitantes do Hotel gostavam daquela pessoa, uns mais que os outros. A menina antiga tinha uma afeição, mesmo quando a provocação e as perguntas atingiam os limites da paciência milenar cultivada. A dona do Hotel mantinha distância, mas ouvira de outros que antes as duas eram próximas. Duas. As caixinhas delimitadoras. Como poderia explicar que era alguém antes de ser uma categoria? Como iria explicar que os seus não tinham gênero, religião, partidos ou opinião? Se estar na neutralidade dos valores morais daquela época era tão escandaloso, por que insistir em explicar que nada disso importava no grande esquema das coisas?
E quando percebessem que o grande esquema das coisas era sem lógica alguma? Sua missão falharia!

O empurrão de um folião chamou de volta a realidade ao redor. A menina vestida de acidente de carro bailava empolgada ao seu lado, alguns dos Feéricos que encontrara na outra vida também, era uma celebração deles ao que se entendia. Algo particular, mas também compartilhado. Há muito tempo atrás muitos postulavam que era a noite para serem o que quisessem, vestir máscaras e fantasias para fingirem ser outros. A ironia de tudo era que agora que deveria fazer isso, falhava miseravelmente. Gafes para as vidas inteiras.
 - Anda, a gente vai perder a parada!! - exclamou Filha dos Ventos puxando seu braço e arrastando seu corpo para a grande multidão.

Devorou o lanche posto a sua frente sem mensurar as consequências. Sempre ensinaram que antes de provar a comida ofertada por estranhos deveria agradecer aos deuses que guardavam sua fortuna, mas a dança, a multidão e a música fizeram seu corpo mirrado esquecer esse rito. A cisma então mudou para algo que não deliberava muito: como os outros viam seu eu exterior.
 - Na disputa de quem come mais rápido, acho que alguém te passou Angie! - disse um Feérico que conhecia só por nome, o Ferreiro era como o conheciam, embriagado. O rapaz deformado que atendia no lugar esquisito e coberto por estruturas metálicas também estava no mesmo estado. Disseram uma vez que não podia chamar o pobre desafortunado de deformado, pois não era um termo que a época não permitia, mas em seu Tempo quando viam alguém como ele a única sina era a vergonha, segregação e morte. Os seus não eram tolerantes com as imperfeições do mundo.
E talvez esse fosse o maior erro de todos. A negação do imperfeito os tornava fáceis presas para a Tempestade Incessante e as artimanhas da grande serpente. Orgulho, o maldito orgulho que os corroía aos poucos, os tornando meras estátuas de sal que se dissolviam nas areias infinitas.

Soltou essas questões, lançou-se furiosamente sobre o pão de gosto engraçado e extremamente convidativo para seu paladar aguçado. Havia pedaços de condimentos e outros cozidos ali dentro, um conjunto nada elegante que chamavam de "X-salada", engolir o conteúdo foi prazeroso até certo momento, assim que percebeu que sua garganta trancou um grande naco do pão exageradamente saboroso. A Filha dos Ventos veio ao resgate, estapeando suas costas e oferecendo algo borbulhante cheio de açúcar. A bebida passou rasgando seu interior e fazendo a limpeza daquilo que ficara entalado em seu esôfago. O alívio foi festejado com risadas inebriadas e instruções de como se comer apropriadamente.
 - Oh menina, você nem parece mais aquela coisinha medrosa de antes... - a exclamação veio do mais velho do grupo, era o que também provia a alimentação do grupo de Caçadores de Quimeras. Não respondeu por não saber o que falar, não sabia quem era antes para verificar a mudança. Um ruído irritante fez suas mãos apertarem o pão saboroso demais e espalhar um pouco dos condimentos na blusa larga que usava (Cortesia da gentil senhora da casa de antiguidades), o tinir em seus ouvidos foram súbito e trazia à tona o pior que alguém de sua herança tinha debaixo da pele.
 - Whooooooooa segura o tchan que é só um carro, mulé! - disse Filha dos Ventos com os olhos arregalados. E assustar essa criança era uma das coisas mais raras daquele mundo. Todos os feéricos ali se afastaram alguns passos de onde estavam. A reação era a mesma para aqueles que eram antigos em alma e consciência. - Foi mal pelo mulé, cê é outra coisa né?
 - Não provoca a onça não, Angie! - advertiu o Ferreiro. Mesmo sendo um feérico anão da orgulhosa tribo dos vigilantes, ele havia gaguejado em alguma parte da fala. o rapaz com pinos de ferro na perna esquerda pulara do lugar e se escondera atrás da casinha sobre rodas que sustentava aquele lugar onde estavam. Ouvia um ganido baixinho, um sacudir de ossos, o rapazinho era especial.
Como não vira isso?!

O carro que parara debaixo do viaduto onde o Lanche do Dogão se localizava na Metrópole trouxe dois ocupantes. Um deles cheirava a uma mistura de fragrâncias de diversos perfumes, seus, dele, de outros, e algo distintamente apenas dele. Contorceu o nariz por sentir aquilo em seu faro. A intensidade da experiência fez com que deixasse o pão saboroso de lado e segurar sua respiração por um tempo. Afastou-se de perto do grupo e sentiu náuseas pela confusão de sentidos.
 - Não encontramos nada na Zona Sul. E perdemos o rastro do safado entre os Portões da Cidade Alta. - declamou o cheiroso. esse não conhecia o nome direito, mas era da nobreza. Sua aura exalava isso, e também desgraça, humilhação e redenção. Outro tilintar fez se encolher onde estava e virar-se para a construção perto do viaduto ali perto. O cheiro da terra batida, cimento, brita e produtos químicos era melhor que sentir tudo vir à tona. As lembranças eram as sufocantes.

 - Por hoje eu cansei! - exclamou a líder do grupo exausta. - Perseguir contrabandista babaca e caçar quimera ao mesmo tempo em tempos de Carnaval não rola. Emilio, por favor, uma cerveja, a mais forte que você tiver. - pediu sentando no lugar onde a pessoa estava. Voltou seu olhar para o lanche esquecido ali, a bagunça na mesa com pequenas poças de molho e depois para a figura mirrada, curvada, em um leve balançar hipnótico, olhar perdido no escuro prédio inacabado ali atrás.
 - Nem tudo foi perdido, milady. Já sabemos que ele não pode repassar a mercadoria para a Madame Fabulária. Ela irá nos avisar imediatamente se ver algo diferente nas negociações.
 - Não aprendeu nada nesse meio tempo né Pomposo? Nunca confie somente em uma fonte. - disse a Filha dos Ventos com um ar mais confiante. - Vou dar umas rodadas por aí e pegar algumas informações que prestem. Esse cara não é ninja e não virou purpurina.
 - Ainda. - completou Raine com irritação na voz. - Quando encontrá-lo irei esmigalhar cada osso da face dele até virar...
 - Okay, declaração de violência gratuita? - gesticulou Angie - Tem crianças por perto? - apontando para atrás do trailer de lanches. - Fica tranquis, Chefia... Eu faço o reconhecimento, cês planejam os esqueminhas de capturar o pokemon...
 - Quimera, Angela, respeite o ofício por favor... - pediu Emilio trazendo uma caneca de madeira cheia de um líquido escuro e de cheiro forte de malte. - Reserva do Rei da Boêmia, envelhecido em carvalho. Se isso não te animar, não sei o que irá. - Raine tomou um generoso gole.
 - Você é meu herói, Emilio... - ela declarou com um sorriso agradecido.
 - Vou querer uma dessa também! - gritou Smithens.
 - Se eu te der uma caneca disso, você destrói meia cidade! - revidou Emilio.
 - Qual é o problema da maluca do banco, hein? - pontuou Prince com uma careta. Angie arregalou os olhos de novo e foi até a pessoa acuada perto da construção. Chegou com cuidado e anunciando seus passos.
 - Hey, tá tudo bem aí? Tudo beleza? Joinha? Estou atrás de você, okay? Sem movimentos bruscos... Não quero ter minha cabeça decepada ou sei lá onde você esconde a foice... - a reação da pessoa foi de dar mais alguns passos fora do alcance de Angie. - Tá tudo bem, tou aqui pra ajudar, lembra? Quer ir comigo no rolê? Dar umas voltinhas por aí? Pego um sorvete pra ti...
 - Não era o que estávamos fazendo antes...? - perguntou a pessoa com a voz embargada de dor.
 - Ah aquilo era pra acostumar com a bagunça aqui fora. Você precisava sair um pouco, faz bem pras pernas, circulação e tal... Foi um reconhecimento do reconhecimento?
 - Tenho fadiga, não quero mais me mover.
 - Bem, vai ter que mover o traseirinho milenar daí de alguma forma, a gente vai pra casa daqui a pouco. - um olhar de puro ódio foi revelado em direção de Prince e Raine.
 - Tire-me de perto desses gananciosos... Não me contenta estar dividindo essa vida com os do Clã do Inverno Profundo.
 - Só não fala isso alto, porque dá rolo depois... Bora, te levo pra casa e aí vou bater perna. - Filha dos Ventos ofereceu a mão esquerda para a pessoa segurar, houve um momento de hesitação e entendimento.
 - Tá tudo bem aí? - perguntou Raine girando no lugar para entregar o lanche meio comido, Angie interceptou o pacote antes que chegasse a quem pertencia.
 - Eu cuido disso. Tá tudo chuchu beleza. Vou levar a donzela pro castelo e ir pro rolê. - o olhar que recebeu ao dizer "donzela" fez Angie estremecer. - Bora? Então vamos... - puxando a pessoa para longe do trailer e tagarelando sobre o como aquele prédio ali tinha sido embargado pela prefeitura local por ter acidente de trabalho demais com os trabalhadores.