Pesquisando

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

[bibliotequices] higieniza mi amor higieniza


Vassoura = estudantes / Mickey = Universidade
[os gifs postados tem a ver com a temática da postagem: Aprendiz de Feiticeiro foi a minha primeira experiência entre manipulação e transformação a força do Equilíbrio natural do universo. Se Mickey Mouse era um ratinho legal para mim, naquele momento em que ele deu "vida" a uma vassoura foi a porrada no sonho infantil de usar magia para beneficiar o mundo. O que isso tem a ver com a Biblioteconomia? Oras! Informação é poder!]

Observando alguns momentos de crise cáusticos e movimentação nula ou quase silenciosa ninja nas imediações biblioteconomísticas, percebe-se uma coisinha muito muito violenta e sutil: quando o silêncio se instala em uma área das ciências, ela automaticamente higieniza seus semelhantes.

Higienizar é algo positivo quando você faz no seu banheiro ou na cozinha antes de cozinhar alimentos, limpeza é bom quando precisa botar ordem em algo que está atraindo coisinhas ruins tipo germes e moscas e insetos indesejáveis, mas quando se olha por um ponto de vista afastado do circo diário acadêmico: higienização na Biblioteconomia tá acontecendo.

Aliás, vem sempre ocorrendo, pois não temos tantas referências da "sujeira" por assim dizer. Nossa profissão já nasceu com glamour de status de elite, com bibliotecários da Casa Real fugida aqui pro Brasil, entulhando seus badulaques e livros roubados da Corte Portuguesa ali onde seria conhecida como Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Intocáveis em seus uniformes quase militaristas de requinte e pomposidade. Longe do populacho, apenas atendendo a família Real, os de título mais abastados, os letrados. Os poucos.

Temos os exemplos do que é limpo, claríssimo (Sim, vou usar essa palavra por um motivo bem bem alarmante dentro do curso), cientificamente desinfetado com muita técnica, legislação e burocracia. Tudo pode ser revertido a este estado tão límpido de aceitabilidade que o que se dá para perceber aqui de fora da bolha:

  • relações abusivas de dominação e submissão (emocional, hierárquica, acadêmica, sistêmica, etc);
  • apagamento de sujeitos que se tornam um mero rascunho dentro da Academia;
  • uma alteração no status quo que NÃO CONDIZ com a realidade aqui fora.

É para ser mais direte? Okay, vamos lá então.

Vassoura = estudantes / balde de água = discurso acadêmico

Comecemos com perguntas, tudo na vida sempre começa com a dúvida:

1) quantos professores negros você vê dando aulas na Biblioteconomia?
2) quantos estudantes negros estão ingressando ou se formando na Biblioteconomia?
3) quanto a voz da comunidade LGBT está sendo ouvida na Biblioteconomia?
4) há discussões sobre gênero, racismo, evasão de grupos em vulnerabilidade social na Biblioteconomia?
5) quantos de nós estamos enquadrados em algum tipo de perturbação psicológica que afeta diretamente nossos estudos, nossa visão do todo, nossa atuação?
6) estamos REALMENTE representando esses grupos ali descritos com o devido respeito e igualdade?
7) a gente se importa?



A problemática é que nem Ética ou Política discutimos direito na graduação. Nossos curriculos não possuem a abertura de diálogo, exercício da argumentação, o uso da palavra como forma de transformação social, empoderamento de grupos vulneráveis, etc etc etc. Tou repetindo tudo que é óbvio aos nossos olhos que estamos entre os corredores, dentro das salas de aula, olhando ao redor e percebendo com uma queimação no estômago: o silêncio causa isso de uma forma muito violenta e sutil.

Novamente repetindo as mesmas palavras, mas é porque não consigo entender como as perguntas ali em cima estão ficando cada vez mais nítidas quando se aparece uma situação muito ruim perto da gente.
(É a miopia social, eu sei, sofria disso desde a PUC, melhoro com o tempo)

As relações de poder se estabelecem de uma forma tão hierárquicas que não entendem o que é uma gestão horizontal, colaborativa, divisão de tarefas igualitárias, nem muito menos onde é o limite do Outro. A gente que percorre os corredores e está em contato com todo tipo de aluno em nossos locais de estágio/trabalho percebe o quanto a pressão acadêmica silencia/higieniza mentes inquietas e perspicazes. A limpeza é tanta que no final só resta uma pequena mancha daquilo que foi uma grande ideia de se mudar o panorama, um trabalho insípido, técnicamente formal e sem aplicabilidade lá fora. Academia por Academia: o parnasianismo biblioteconomístico

Na Ocupação do CED desde o dia 03/11/2016 está se abrindo portas para que esses diálogos aconteçam, que esse silêncio seja quebrado, que pelo menos alguém emita um alerta de quê: "Hey, existimos, pode falar com gente!". Após o caso de racismo explícito de um estudante do CTC contra  uma estudante integrante do coletivo negro do CFH foi como um alerta tapa na cara das autoridades da UFSC. A integração da Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidades na Reitoria foi algo bem legal, mas em um sentido macro, precisamos mesmo de um setor para proteger nossos direitos?

O default não era todo mundo se respeitar por estarmos inseridos em uma instituição que preza pela racionalidade das pessoas? Por lógica cartesiana: "Penso, logo existo"? Bem, há 1 século atrás nem mulher poderia entrar em salas de aula de escolas primárias... Já é um avanço. Mas mesmo assim: Por quê?

É meio idiota em pensar que desperdiço meu tempo no meio de uma aula de classificação pensando nessas coisas, afinal eu deveria estar prestando atenção no que me é explicado, não questionar. Mas entre um número de chamada e outro, penso seriamente: tou fazendo isso pra quem?

Para quem.
Para o universitário/pesquisador cis, branco, classe média, oriundo do ensino privado?
Para quem.
Para alimentar um sistema de recompensas invisíveis de egos inflados entre uma estrelinha na Scopus, uma métrica na Web of Science, uma citação lindona no periódico com qualis A1?
Para quem.
Para satisfazer o desejo quase perverso de pessoas que nos empurram a pesquisar o que elas QUEREM/ACHAM que é mais importante ao invés de ouvir nossas vozes?

Vassouras = estudantes alienados e passivos

Para quem mesmo?
Tava a deliberar aqui o último evento em que participei na organização, pelo mezanino onde nos instalamos para tirar as melhores fotos e captar todas as reações, além de termos centralizado as informações, vi uma cena que me chamou atenção: tirando fotos no banner do evento havia um grupo de pessoas negras, algumas do meu círculo de amizade/academicidade, uma professora, uma pesquisadora. Mulheres negras, 4 pessoas em uma multidão de 162 inscritos.

Quantos negros estavam presentes ali?
Quantos LGBT estavam ali?
Quantos tiveram voz no palco?
Quantos puderam expor suas vivências nos grupos de trabalho?
Será que haverá oportunidades a mais de se falar fora dali?

Porque os números me incomodam muito.
Não há colegas indígenas na Biblioteconomia UFSC.
Não há colegas quilombolas na Biblioteconomia UFSC.
Há alguns colegas que já foram moradores de rua na Biblioteconomia UFSC.
Não há coletivo negro, LGBT ou feminista na Biblioteconomia UFSC.
Há apenas uma colega transexual na Biblioteconomia UFSC.
Apenas eu me identifico como não-binárie na Biblioteconomia UFSC.
(E se tiver mais alguém, pelamooooooor me fala!!)

O poço = a sociedade
O silêncio começa aí. E higieniza a sujeira, deixando bem limpinho o que exatamente querem como modelo de curso para os próximos anos. O esterótipo de madame carrancuda, de coque nos cabelos brancos, rabugenta e infeliz da bibliotecária mudou só a roupagem, a higienização continua em uma forma mais bonitinha, cool, cheirosinha com leves toques informáticos performáticos para dizer que sim, somos a favor da Diversidade, mas por favor fica ali do lado de fora, porque isso que você pesquisa não cabe no nosso departamento.

Não queria ter percebido isso no evento em que estava diretamente envolvide.
Não queria mesmo ter essa percepção fatalista de algo óbvio (oi lembra da miopia social?), mas que silencia, esmaga e rasura meus colegas de estudos e futuros companheiros de classe e profissão.

É cruel isso, saber que seu curso faz algo sem nem notar.
Higieniza, meu amor, higieniza. A Biblioteconomia higieniza.
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