Pesquisando

terça-feira, 16 de agosto de 2016

[contos] a moeda, a balança e a foice

[escorregadios - a moeda, a balança e a foice] por: @_brmorgan.
Cenário: Múmia - a Ressurreição (Mundo das Trevas).
Classificação: 16 anos (morte, distorção de convenções morais, violência)
Resumo: O primeiro alarme foi dado, sutil, com um leve vibrar, logo as marcas na areia, a presença esmagadora, o silêncio, a sombra escurecendo cada pedaço daquele local, a foice, o manto, o corte, o peso, a pena, o coração, o julgamento, tudo em poucos segundos.

Trilha sonora para esse capítulo:



O clube estava lotado, som reverberando em todas as superfícies, giros de feixes de luz, incontroláveis no pulsar da música de baixo grave, a voz arrastada do vocalista levava a melodia, a pista, corredores e bar cheio de gente espremida, cada um em um universo individual de prazer momentâneo e simultâneo.

O som do tiro não foi ouvido, ou o baque do corpo esvaindo de vida. Os passos apressados, a corrida em fuga pelo delito maior, a respiração fraca de quem deixava a paz da eterna amiga encontrar seu semblante.

Morrer não era novidade para um escorregadio. Eles costumavam levantar dos mortos como se nada tivesse acontecido e faziam o que tinham que fazer. A poça de sangue e fluidos manchava agora o tapete caro da gerência. A arma usada caída ali perto, única testemunha da atrocidade feita. Um único tiro no meio do peito, furando um pulmão em poucos segundos inundando vias aéreas e cobrindo órgãos internos com a viscosa substância que ditava a vida e a morte de qualquer ser no universo.
Ninguém ouvira ou sabia o que acontecera e pelo jeito como a noite estava agitada lá fora daquele escritório, as chances de se encontrarem o cadáver frio ali era mínima até o dia seguinte na manutenção.

O cano da arma ainda se encontrava quente, cartucho da bala perdida em algum lugar do espaço, gelado pressentimento de que se mexesse seria esforço demais. E nas atuais condições não poderia arriscar. Deixou o morno virar frio, coagulado, podre, ter a certeza de que sua vida escapulia de sua percepção aguçada era comum. E quando não era?

Olhos sem vida que agora enxergavam o infinito das areias de Duat. Não acreditava mais nessas baboseiras egípcias de "vida após a morte" - apenas se incomodava por não poder entrar no portão da cidade bonita. Gostava de olhá-la de longe, quando ainda era pequena, escondida entre o céu e o Mar cristalino de onde morava, entre um passeio e outro na neblina. A cidade bonita estava ali, sempre a esperar, com seus habitantes silenciosos e o porteiro sombrio.

A tempestade nunca a deixava entrar. A tempestade sempre estava em seu caminho entre o corpo caído ao chão, quase transparente por não ser visível ou palpável para sua alma (alma, sério isso? Os cristãos estavam certos?) alcançar. As alternativas era juntar o que tivesse por perto, socar uma alma perdida qualquer e conseguir a restauração do corpo físico que precisava. Às vezes demorava quando era algo sério (aquela vez do 9° andar e as lâminas afiadas de um sanguessuga foram as mais demoradas. As outras, essas não lembrava mais), mas nesse caso era apenas saber a palavra certa, a entoação certa, e pronto. Novinha em folha.

Bala no pulmão, certo. Estudara fisiologia como doida na faculdade, sabia que calibre de 9mm causava ferimento fundo, mas não deixava bala atravessar. O ruído ensurdecedor da tempestade, logo ali perto dela, não atrapalhava sua concentração, fechou os olhos por um momento e tentou visualizar todo seu sistema respiratório, a bala estava entre a pele e o tecido grosso da jaqueta, o tiro fora perto para obrigar o projétil cortar carne, tecido, músculo. Ótimo, menos tempo de espera.

Ao abrir os olhos viu o que costumava acontecer quando um dos seus - os escorregadios - aparecia perto da tempestade. Algum bicho-papão espreitava o corpo físico lá do outro lado para arrastar para dentro do turbilhão de areia, vento, destroços e almas (sério mesmo que esse papo metafísico era realidade? Ainda não conseguia entender como aquela coisa de juízo final, Apocalipse e inferno e paraíso poderiam se concretizar naquele lugar). A oportunidade estava bem perto, a criatura desengonçada, humanoide, disforme e contorcida em seu próprio sofrimento primitivo farejava a carcaça deixada lá do outro lado do véu, mais um pouquinho e teria a chance de...

- Puta que pariu, que merda que cê fez pirralho???? - ouviu a voz estridente do outro lado e conhecia a droga da voz. - Cê matou ela!!!!
- E-eu n-não sabia que...  Ela chegou cobrando a moeda do Bispo!! E a ordem é não...
- Foda-se o Bispo, cê sabe com quem cê mexeu, seu merdinha?! Quando essa porta levantar vai vir direto no teu pescoço!! No nosso pescoço!!
- Foi mal chefia, eu não sabia!!! Atirei porque ninguém chega perto das relíquias do Bispo sem levar chumbo!!
- Merdamerdamerda!! A gente tem que se desfazer dessa coisa antes que...
- Alguém pode me dizer a demora pra pegar uma simples moeda? - essa voz também conhecia e sorriu para si mesma ali atrás do véu. Daria tempo para pegar carona com a criatura, roubar a moeda, recuperar o corpo, mamão com açúcar. - Ah não... Não-não-não-não.... Vocês não fizeram isso...
- Foi culpa dele!! Esse idiota atirou!
- Eu não sabia, porra!! Ela tava com a mão nas coisas do Bispo!! - um grito histérico anunciou o fim da desculpa que o rapazinho de mãos trêmulas e alto por cocaína estava tentando dar.

A criatura disforme tentava vasculhar seu corpo pelo coração, não acharia nenhum nem que se pedisse muito, já o segundo corpo decomposto e coberto de raízes sufocantes chamou sua atenção, a distraindo do verdadeiro banquete. Essa era a hora. Retirou de dentro da boca, puxando lentamente o cordão dourado de grilhões antigos alojado em algum lugar na garganta, um souvenir que aprendera usar para casos como aquele. Quando terminou de regurgitar a ferramenta, enlaçou no pé do cadáver recém chegado, e com um puxão bem dado levantou a "alma" do pobre coitado. O garoto de menos de 20 anos levantou num susto, cuspindo areia e gritando tão alto que o ruído da tempestade não sufocou o eco. Era sempre assim quando um novato chegava. A criatura grunhiu de prazer, um novato era mais apetitoso que uma alma antiga como ela, esperou a isca se recompor e deixou que a criatura pulasse em suas costas para parasita-la como sempre faziam.

A garra aprontava adentrar no peito do jovem morto, o coração seu destino, o tesouro mais cobiçado naquela terra maldita do Além. O primeiro alarme foi dado, sutil, com um leve vibrar, logo as marcas na areia, a presença esmagadora, o silêncio, a sombra escurecendo cada pedaço daquele local, a foice, o manto, o corte, o peso, a pena, o coração, o julgamento, tudo em poucos segundos. A criatura disforme da Dja-ahk foi ceifada de sua existência, deixando para trás um pedaço daquilo que fora anteriormente, um pequeno frasco prateado de relíquia que nas mãos certas (as suas) seria de grande valia para retornar sem ter que passar pela balança.

O seu duplo tenebroso, uma versão pálida e ossuda com mesma aparência surgiu por trás daquele que nem deveria dirigir o olhar. O Porteiro sempre olhava de cima para baixo, e nesse caso seus olhos pousaram no frasco, no duplo, na balança em sua mão. Eram duas opções, deixar o maldito fazer a pesagem ou pegar o frasco e barganhar. Como era péssima nesse tipo de negociação, fez o que sua mente afiada mandava, jogou o frasco na direção do duplo, atraindo a atenção do julgamento para ele (Por todos os deuses profanos, essa era a sua parte ruim? Sua triste existência enjaulada em um ritual macabro dos antigos para viver e reviver para todo o sempre? Era mesmo aquela coisa ali, sem motivação, poder, felicidade, amor? Como poderiam deixar que...).

 - A moeda, Kittie... - murmurou alguém em seu ouvido. E era tão cristalino que pensou por um segundo que estava sonhando com tudo aquilo. Um horrível pesadelo que parecia não ter fim. O porteiro levantou a foice e a balança simultâneamente, indo em direção de seu duplo, a Sombra que todos os escorregadios temiam que controlasse finalmente suas consciências. O ceifador era o Guardião de todas as almas, mas com os duplos Ele era implacável. A mão da balança pesava o coração e a pena, e a garota que fugiu de seu próprio funeral não tinha coração algum para ofertar ao Porteiro.

Os segundos entre o movimento da balança e da foice foram longos, uma ideia veio de muito muito longe, algo de alguma vida anterior a qualquer uma de suas vidas, com o cordão dourado se atreveu a fazer um delito (Já estava sendo punida por tantas coisas que esquecera mesmo o que mais poderia ser danada nesse circo de horrores do Além-túmulo): laçou um dos braços do Porteiro e esperou que ele derrubasse a balança nas areias, o puxão brusco do cordão atrasou o movimento do corte em seu duplo, e também fez com que o cretino se afastasse como o covarde que era, correndo em direção da onde estava o que realmente queria.

Se bem conhecia a si mesma, o seu maior medo era de ser pega pelos monstros de sua imaginação, aquele ser majestoso e sombrio em sua presença era um deles, povoando seus sonhos desde pequena e cercando sua cama no Hospital onde se encontrava em coma há anos. O Ceifador aguardava sua nova aquisição nas tropas, mas ela, oh não, ela não se deixaria levar. Não quando sabia o que o Destino reservara para sua pessoa.

Enquanto o seu duplo se perdia nas areias, o Ceifador notou o deslize, a traição, o delito. A balança em sua mão não caíra, a foice na outra estava mais firme. O silencioso carrasco deu dois passos em sua direção e com um leve bufar quente de seu focinho canino, ele a pegou pelo pescoço e a içou até ficar na altura de seus olhos impiedosos. Não havia como escapar do Julgamento. Não mais.

Esta seria uma boa hora para o timing perfeito da velha bruxa. Se ela realmente sabia o que estava acontecendo ali embaixo, por que não agir logo?

A não ser que ela havia desistido da moeda.
A não ser que ela havia desistido do pacto.
A não ser que aquela impressão estúpida de que finalmente encontrara alguém que pudesse se abrir era apenas... ilusão?

A mão da balança agora a esganava, espremendo seja lá o que fosse de sua essência, uma agonia horrenda de se descrever com palavras, uma dor que superava qualquer coisa que seu corpo já sentira, a balança pesaria seu coração que não estava ali. Não havia mais escapatória.

Antes de sucumbir a escuridão, ao silêncio e ao final de sua existência como uma pária entre os escorregadios, ouviu o arfar suave ganhando seus lábios, soprando ar quente para dentro de sua garganta, enchendo seus pulmões, a enganando mais outra vez que a Vida era maior que a Morte, não adiantava o que o ceifador fizesse, era sua sina voltar e voltar e voltar até o final dos tempos. o tilintar de uma moeda pesada de cobre perturbou seu crânio, sua língua seca sentiu o formato do objeto, redondo, em auto-relevo, coberto de uma fina camada de poeira e terra úmida. A moeda estava ali agora, onde jamais deveria ter saído.

Seu duplo tenebroso, acovardado, voltara a ficar atrás do Porteiro. Temendo para o resto de sua existência patética o Julgamento, a balança, a pena e o coração. Babaca: que continuasse ali. Não era de grande serventia em sua vida terrena.

Seu corpo frio e rígido deu uma guinada para frente, em um espasmo brusco, contraindo e relaxando todos os músculos de seu corpo recém acordado para a Vida. Odiava ter que sentir isso. Por que ao morrer era tão sereno, calmo e gostoso? Mas ao se acordar para a Vida era como receber uma injeção de todas as desgraças daquela caixa de Pandora? Havia algo de errado nessa sensação.

Encolhendo em si mesma, cuspiu a moeda de cobre com um salivar excessivo. O gosto metálico perdurava em seu paladar, sua cabeça explodia de dor com as novas sensações de ter todos os nervos e estímulos ao mesmo tempo. A dor do peito era imensa, a obrigando se contorcer para livrar do estiramento de músculos e dar lugar a sua respiração falha. Como odiava voltar.

Mãos quentes seguravam sua cabeça e um corpo delicado se encontrava acima do seu, palavras de poder faziam o restante do caminho de volta. Por que viver era tão difícil?

 - Pela deusa! Pensei que tinha te perdido! - reconheceu a voz novamente, a mesma que a advertira da moeda e sua missão. Um abraço apertado foi ofertado, colocando todos seus ossos no lugar onde pertenciam. O rosto que roçava seu pescoço suado pelo esforço de voltar estava febril, os lábios murmuravam preces e orações para que a proteção fosse feita. Como se precisasse desse tipo de magia em sua vida. O encontro de olhares, o sentimento mútuo de dever cumprido. A missão acabara inesperadamente, mas a parceria parecia estar perdurando. Teve seus cabelos afastados do rosto cansado, pequenas mechas atrás das orelhas, o encostar de testa com a outra, o suspiro de alívio. - Não faça mais isso, por favor... - pediu a velha bruxa (Que não aparentava ser tão velha assim), seus murmúrios agora se tornando soluços de choro incontido.

Abraçou-a de volta para não deixá-la chorar. Era demais para ela ver a velha bruxa chorando. Suas mangas de jaqueta e blusa ensopadas com seu próprio sangue, encolhidas uma na outra, esperando o momento entre o Acordar e o saber que se está sonhando. Um breve beijo em seu rosto. Era a primeira vez que a velha bruxa demonstrava afeição com alguém.

 - Eu disse que ia conseguir... - disse com a voz embargada pela falta de uso por semanas.
 - V-você conseguiu... - a moeda estava ali, depositada ao chão, úmida de saliva.
 - Tente não duvidar... - riu-se de sua falta de humildade. Mas estranhou o porquê de ser abraçada novamente com mais força.
 - Prometa que jamais faremos isso novamente!
 - Não dou garantia alguma de gente atirando pro meu lado, oras... - riu-se novamente e sentiu um nó na garganta subir sem saber o motivo. Não tinha mais o coração, mas tinha outros órgãos para fiscalizar suas emoções. A velha bruxa (Não tão velha na aparência assim) apanhou a moeda cuspida do chão, colocou em suas vestes e se direcionou para a porta de saída do escritório no clube lotado e barulhento.
 - Vamos, vamos para casa... - a mão ofertada para ela levantar foi aceita, suas pernas não falharam como achava que iriam e caminhou lentamente ao lado da talentosa feiticeira. Apenas alguém com um imenso poder e conhecedora da Vida poderia trazer uma morta-viva no cativeiro do Além de volta.

Não sabia se era sortuda ou mais amaldiçoada ainda por desobedecer novamente as Leis que regiam a cidade bonita no meio da tempestade de areia. Apenas sabia que seguir aquela velha bruxa havia sido a coisa mais acertada que fizera em todas suas vidas.


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