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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

os embalos da adolescência nos anos 90

Voltando a fazer a listinha das 20 coisas para se escrever quando estiver em um bloqueio de escrita e adivinham o que apareceu nos itens que não havia feito ainda?

Write about the highlights of your adolescence.
Escreva sobre os altos de sua adolescência.

Aumenta o som aí que o pop-trash-anos 90 vai começar a tocar!!



Se você é criada em uma cidade que é um ovo, com uma cultura extremamente tradicionalista, recheada de preconceitos, cobertura de família de roça com direito a coronelismo, pode ter certeza que vai ser uma pessoa revoltada com o sistema vigente de alguma maneira.
(Yoooooooooooo feck dah system!!)

A cidade era Betinópolis, região metropolitana de Belzonte em General Chicks, o ano era 1995 e tudo mudou quando fui morar nesse vilarejo-brejeiro durante 17 anos de minha vida. Passar o resto da infância, pré-adolescência, adolescência hardcore e começo da adultice foi como um pesadelo bem longo e refinado de coisas interessantes. Minha capacidade de tolerância com cidades pequenas foi pro brejo (Com a vaquinha e o mato sem cachorro) ao viver tanto tempo por lá.

Maaaaaaaaaaaaaaaaaas a minha adolescência foi um tanto habitada por muitas coisas boas e ruins. Só vou falar das tosqueiras aqui na postagem.

Debaixo do link: música dos anos 90, muita coisa tosca, muita frustração, hormônios dentro do armário aaaaaaaand coisas estranhas acontecendo.

Desde que conheci a literatura de H.P. Lovecraft me senti conectada com os cenários que ele escrevia, mais do que os personagens. As descrições dos lugares em que os contos se desenrolavam me fascinavam de uma maneira quase obsessiva. Ler o que dava sobre o Cthulhu Mythos foi importante na minha formação como leitora proficiente nos anos de escola pública. Dali Edgarzinho Allan Poe, Agatha Christie, Sir Conan Doyle e outros escritores de terror/suspense.

Betinópolis era o lugar perfeito para ambientar um conto de Lovecraft, sem dúvida. Não porque era creepy af ou gótica ou cheia das firulas horripilantes: era porque a Insanidade rolava direto nessa cidade. Rolava dados de 1d20 a cada semana para as coisas absurdas que eu via pelas ruas e pelos cantos...

Viver minha adolescência ali foi como ser jogada num caldeirão de referência trocadas, muita esquisitice de cidade do interior provinciana, falta de esclarecimento da população em geral, muita influência de "grandes famílias de elite" e o principal: a noção de certo que era errada. Sério. Era como estar sempre numa partida em que os líderes eram caóticos neutros. Chega uma hora que cansa. No meu caso, me entreguei a maluquice e deixei minha criatividade ser influenciada por essa Insanidade presente do vilarejo-brejeiro.

Minha vida na adolescência se resumia a ter uma formação escolar boa para ótima (com uma perspectiva quase nula de ir para o Ensino Superior devido morar em uma roça, ser mulher, classe média baixa, ter uma família desconjuntada e ser menor de idade quando me formei), ser a âncora para mãe Entesposa se segurar para não endoidar com a bagunça toda, evitar ter contatos afetivos com as pessoas, me enterrar em livros e escrevendo sem parar até o pulso doer por dias seguidos. Sim, eu escrevia com papel e caneta, não digitava. Foi uma época das trevas.

O que salvava no sistema educacional falho estadual (Onde fiquei 7 anos direto) era a merenda das tias, as conversas da fila, os colegas de turma mais aloprados e a constante inquietação dentro do meu coraçãozinho cultista de que aquele lugar não era para mim. E não era. Nunca foi. Aí começa o angst adolescente.

Com toda essa energia borbulhando e as maquinações subliminares de um local onde o trânsito divide espaço com vacas, galinhas, patos, cavalos e jumentos (humanóides ou não), veio alguns highlights ou como posso chamar? Os altos dos meus baixos.

Aprendi inglês sozinha traduzindo músicas de boybands, de bandas que gostava, e vivia com a mochila lotada de dicionários, cadernos extras e livros. Quando dava para pegar algo em inglês, eu segurava até onde dava, mas dificilmente encontrava coisas escritas no idioma. Tinha que ser tudo no ouvido e ir copiando para uma folha de papel para memorizar.

E eu achava que ia casar com o Brian. Ah tá senta lá Claudinha!

Por que? porque eu sabia que aprendendo inglês ia fazer diferença no meu currículo lá na frente, nem que fosse pra limpar chão das fábricas de peças de automóveis que faziam a economia do lugarzinho brejeiro girar ou ser atendente de supermercado.
(Hello? A perspectiva para as garotas da minha idade era essa. Metade da minha sala de aula do ensino fundamental já estava encaminhada para esses tipos de serviços, ou grávidas/com casamento no gatilho ou saíam da cidade. Nem sei quantos se formaram no terceirão e foram para faculdade.)

A biblioteca da primeira escola em que estudei era um depósito de livros, mas nada me impedia de entrar lá todos os dias para pegá-los, arrumar as estantes e ficar tagarelando com a senhorinha professora que cuidava do local. O gosto pela organização e a mediação de informação veio dali e sonho até hoje com aquele espaço mínimo de menos de 10m² com estantes de madeira nas paredes e livros didáticos espalhados nas mesas e chão.

Comecei a escrever estórias sobre coisas aleatórias aos meus 15/16 anos. Minhas fanfictions tinham enredos bons no papel, mas péssimas dentro da minha cabeça. Tudo que eu pensava tinha que ser escrito logo ou se perdia. Tenho uma fic que tem mais de 400 páginas e vai ficar aqui na gaveta para sempre - hoje nem consigo chegar a página 4 sem reclamar. Minha escrita era melhor, definitivamente. Não por ser excelente de "Ooooooolha meldelzo como ela escreve bem!", mas porque eu tinha prazer de escrever, real prazer mesmo.
Job is done!

A MTV fez parte da minha adolescência com uma força bem grande. Eu não assistia novelas globais - as do SBT que foram pérolas para a manutenção da zoeira no trash mexicano/colombiano - e no máximo me entretia com Chaves/Chapolin ou desenhos do SBT quando passava (A época da Tv Manchete havia acabado). Era o único canal em que eu tinha idéia do que acontecia lá fora e também (Por que não?) o único meio de ouvir o idioma anglo-saxão no original para poder fazer as associações. VJs como Marina Person, Chris Couto, Cazé Pessanha e Didi Wagner eram meus favoritos.


Foi com essas informações da MTV que tive os melhores momentos com minhas amigas de escola, em especial a pessoinha citada no primeiro item dessa lista, a B.A. que dividia comigo a cadeira cativa da programação da emissora no canal 29 UHF que milagrosamente funcionava só com a antena normal. Mtv Movie Awards era nossa premiação favorita e o gosto pelo cinema também apareceu por conta disso.

Lembrando que foi a galera toda antes dos anos 2002 okay? Parei de assistir quando entrei pra PUC-MG a.k.a. escola de stormtroopers do Vaticano.

Ir para o Hell de Janeiro também era ótimo nas férias, lá eu podia ter mais contato com a família do progenitor e com meus primos favoritos. Eles sempre incentivaram a criação coletiva de cenários de RPG, ficar trocentas horas papeando sobre nerdices e teorias bizonhas e também o gosto por seriados. Minha paixão por protagonistas de personalidade forte foi avivada com Buffy, Sydney Bristow e a Agente Scully. Alguns seriados que me marcaram nessa época foram: The Pretender, The O.C., Alias, Buffy, Friends, The Nanny e Sabrina a aprendiz de feiticeira.
(Para uma lista de 50 seriados dessa época, tá aqui no link, muita nostalgia!)

Participar de eventos de anime era uma porta de entrada para saber o que raios a galerinha jovem  da capital e adjacências estava jogando - porque óbvio, eu sabia de poucas coisas sobre a cultura pop-nipônica (Betinópolis só tinha 1 banca de jornal do centro que vendia mangás, não existia Internet domiciliar na cidade e era difícil pra caramba conseguir informações) e estava mais interessada em games. Então entrar em contato com o povo otaku fez parte dos highlights da adolescência. Foi ótimo aliás, com essa valentia de querer sair de casa e frequentar eventos é que conheci uma turminha do barulho no Orkut que continua a conversar até hoje sobre Silent Hill e survivor-horror e RPGs de terror: os Rabbitos.

Aaaaaaaaand a bichice tomou conta aos 13, então... Mas como era uma cidadezinha dos quintos dos Ínferos, tive que construir um armário de concreto com metal frio pra ninguém me tocar, figuradamente e literalmente. A vida era bem difícil para ser uma menininha romântica e lésbica nesse lugar. Autopreservação falou bem mais alto do que ter uma vida social saudável. Isso me moldou pro resto da vida com certeza.
(É sério, havia casos de pessoas da minha idade - entre 13 a 17 anos - que eram terrivelmente humilhadas e machucadas na cidade por conta da predominância de pensamento católico/família tradicional, isso me assustava muito)

Bem lá no final (aos 17 anos) é que fui descobrir 2 coisas que iam mudar a minha vida por completo: irlandeses vestidos de preto e J.R.R. Tolkien. Por conta deles que minha veia artística foi pulsando mais e mais culminando na inscrição para a Letras sofredora-sofredora. Daí de nada mais me lembro.
(Claro que lembro, foram os 3 anos e meio mais esquisitos da face da terra!)

O highlight maior foi que através do Professor é que conheci as pessoas mais lindas de Arda e que continuam comigo since 2004 para o que der e vier! O véinho também me ensinou que escrever é importante, mas saber o que escreve também é mais legal ainda, fazer Letras foi uma opção automática após entender um cadinho do que o Professor representava para a Linguística Anglo-saxônica (Apesar de Linguística não ser o meu forte na faculdade).

O universo de Tolkien me foi apresentado em uma escolha de Sofia em um verão na praia com a família Morgan, no qual meu primo Arkafan tacou 2 livros na mesa e disse "Escolhe: ou esse (Sociedade do Anel) ou esse (Harry Potter e o Cálice de Fogo)." para ler. Li Cálice de Fogo para o desespero dos primos (Não havia lidos os 3 primeiros), mas aí após cerca de alguns dias fui para SdA e bem... Livro II Capitulo 6?


A vida mudou ali. <3

E minha adolescência acabou quando recebi a bendita nomeação como filha da PUC, stormtrooper do Vaticano, auxiliadora e doadora de suor, lágrimas e sangue para a construção de uma nova Estrela da Morte (Que nunca aconteceu, porque o Pa(l)pa(tine) Chico resolveu não ser mais maracujá de gaveta. O plano foi abortado e nada de estação espacial com o poder mais destrutivo da galáxia...).