Pesquisando

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

bibliotecárixs das quebrada, morô?


Yo mano! Yeah ax mina! Os esquema aqui nax quebrada das biblioteca é tenso, duuuuuuude. A v1d4 L0k4 me escolheu, tou fazendo o possível pra dar iniciativa pros chegado mandar a ver nas leituras e coisa e tal.


Pá-pum, sacas?

L0k1 me abençoa, cê já conhece o refrão. Peço pro deus da Trapaça e do Lolz segurar a minha mão. Quando camarada folga comigo, a coisa chia que nem bule no fogão.

Cerrrrrto mano?! Cerrrrrto.

Só que tem alguns que acham que sou macaquinha novinha de galho verdinho, neaw? O que se deve fazer na hora? Improvisation.

Postagem básica sobre a vida de projeto de bibliotecária que às vezes precisa ter o famoso jogo de cintura (All the nation, do the rebolation!) para lidar com as diferenças sócio-históricas, culturais e de visão da sociedade que os nossos queridos estudantes têm.

A.k.a. o que fazer quando um usuário de biblioteca escolar informa de forma ativa que é membro de uma gangue.

Sempre estudei em escola pública, nunca tive folga com os outros e os outros muito menos comigo. Sempre respeitei quem conheço e me mantive longe de quem não tinha muito a acrescentar no repertório social das escolas onde estive. A briga de egos rola desde o jardim de infância, gente e isso chega a ser estafante.

Tem essa ponte quebrada entre docentes e discentes que afasta-os das realidades onde eles vivem. Parece que o muro de mármore branco é construído quando o povo vê que os estudantes estão criando voz, criando identidade, aprendendo a falar por eles mesmos. Uma pena, o diálogo poderia ser muito bem vindo com a mesma afetividade dos anos iniciais.

Apesar de estar em uma parte nobre da cidade, a escola aqui recebe alunos de quase todo Norte da Ilha, crianças e adolescentes com um histórico tão variado que vai de estudante que se acidentou porque estava fazendo aula de hipismo, até estudante que só vem pra escola pra poder comer merenda. Sim, 20 anos se passaram e continuo ouvindo essa história se repetir. 

Dentro dessa perspectiva variada de usuários aqui na biblioteca, tenho que ter o maior cuidado do mundo em como tratá-los de maneira educada, cívica e por que não divertida? Está funcionando até agora, a proximidade com os anos iniciais é instantânea, pois eles precisam de ajuda com os livros e as leituras, tenho mais contato direto com eles durante a semana, mas os anos finais, principalmente os adolescentes dos últimos anos? Esses são difíceis de se deixarem levar por uma conversa boa.

Na verdade até entendo, eles desconfiam. Eu era assim na idade deles. Adultos apenas chegavam em mim para dar ordens ou me dar esporro. Se não fosse um ou outro, era a total indiferença. Os docentes atrás do muro de mármore às vezes esquecem que estar ali na carteira todos os dias pode ser um martírio ou uma bênção, não uma obrigação. Tem muita gente que desiste né? Eu que não vou contribuir com essa estatística tratando a gurizada com indiferença e falta de tato.

Mas há certas situações que a gente se encontra e não há muita saída a não ser evitar o olhar, prender um bocado da lingua para retrucar, deixar os ouvidos serem de mercador e se permitir em ouvir algumas coisas vindas deles. Afinal de contas, eu sou a estagiária, ouvir o que eles têm para falar pode me ajudar a melhorar o serviço aqui para eles. Às vezes ouvir sem falar nada pode me informar quando alguém tá precisando de alguma coisa, mas não consegue se expressar diretamente. É tenso esse trem de atender público, mas me sinto um bocado mais aliviada quando a Musa desce lá do Olimpo e assopra no meu ouvido algo para auxiliar com isso.

Acho que quando a gente cresce, esquecemos como era difícil se manter alerta na escola. Por exemplo, volta e meia nas escolas onde estudei havia meninos na sala que eram fervorosamente membros de gangues do tipo, ou de pichadores, ou de delitos menores ou seja lá o que fosse. Da mesma forma que eles me tratavam com respeito, eu os tratava da mesma forma, não havia atrito. Mas a realidade que a gente não vê está lá (Oh classe média!), não há como negar que eles estão lá e pelamordedelz, eram meus colegas de turma! Muitos me ajudaram a estudar para provas, muitos me deixavam jogar futebol quando era "proibido" menina entrar na quadra, muitos me deixavam tr0llar com piadinhas infames sem chiarem, eram bons tempos.

Só que a gente cresce e esquece desse fato. Durante os estágios na Letras vi como esse muro de mármore é blindado com uma parede de concreto no meio e coberto com arames farpados. Docentes costumam literalmente empurrar os discentes para um lugar metafórico de "não toque, não são domesticados", aqueles que participavam de congregações ilícitas e de periculosidade básica? Eram a escória do mundo. Isso era ruim, pois na maior parte do tempo eles não rendiam, não prestavam atenção nas aulas, não se interessavam com a vida acadêmica e quando eu, a besta tr0ll aqui aparecia para dar aulas de Literatura e desistia do meu plano de ensino pra sentar no fundão e ficar conversando com eles sobre as diversas coisas que acontecem na vida de adolescente, o trem ficava russo.

Okay, russo não. Ficava tenso.
(Se ficar russo tem que ter o Putin montado num urso)

Professores não gostam dessa aproximação, não gostam da folga, não gostam do tato. Essa era a minha maneira de ver como eles rendiam - btw rendiam ótimamente se estivessem conversando sobre a proposta de trabalho e se sabiam pra quê raios aquilo servia na vida deles - e isso me causou transtorno algumas vezes. Não com os alunos, mas com os guardiões do saber fardados de jaleco, livro didático e diretrizes. Você não mexe com a escória. A escória é para passar de ano e olhe lá.

Aqui na Biblioteconomia e no estágio está sendo diferente, bem... mais ou menos... Há o muro de mármore branco, há o medo de se aproximar, há as indiretas de superioridade de ambos os lados. Tento entender elas gradualmente, mas no que me é possível reverter o quadro de hostilidade, sempre vou dar voz aos alunos (Porque eu sou estudante também, poxa!).

Já havia brincado com colegas da Formação de Bibliotecários que às vezes falar a linguagem deles ajuda 333% no trabalho de se poder mostrar um bocado do respeito, cuidado e bom senso que se precisar ter na biblioteca, na escola, na vida em geral. O assunto foi abordado quando umas das colegas relatou que um estudante disse em tom mais ou menos ameaçador que ele era de uma gangue e que não deixava barato quem tirava com a cara dele. O que pode ser assustador para muitos, já que as realidades colidem sem a gente poder dar freio para poder respirar e processar a informação.

Como de costume, me veio Diário de um detento na cabeça durante a conversa... Sim, e dali comecei a fazer versinhos tolos para as bibliotecárias de escola e sua vida sofrida, hehehehehehehe. Eu sei, é besta, parece coisa de gente irresponsável que não sabe o que quer, mas é meu modo de desestressar e processar esse mundo tão caótico do Ensino. Ainda intrigada com o drama da colega sobre os meninos de gangue, respondi que nós também fazíamos parte de uma, uma bem organizada até! Com facção, distrito, comando e os dado aguado. Usar de criatividade e improviso linguístico costuma ser meu modo de agir com os conflitos.



Então surgiu a ideia do Comando do CFB - Conselho Federal de Biblioteconomia - Facção do CRB - Conselho Federal de Biblioteconomia - 14º Distrito das quebrada de SC com as ordens vindas de Brasília. Essas organizações citadas são as que chancelam a nossa profissão no Brasil e que determinam as normas e diretrizes para o fazer bibliotecário. Todas elas são desconhecidas para esses estudantes, por que não usar o mesmo discurso com o deles para transparecer o conceito de que não importa que raios de congregação você se enfiou para levar regras na sua vida: aqui na biblioteca todo mundo é igual.

Isso provocou risadas entre as bibliotecárias, mas também provocou um olhar mais apurado para  saber a reação para aqueles que ouviriam isso. Isso instigou a minha curiosidade.

E aconteceu o fato de um grupinho dos maiores - com um histórico chato na escola de ter problemas demais e soluções de menos - vir ao balcão e trazer o discurso impositivo que eram de uma gangue, logo eu deveria os respeitar. A minha resposta foi no mesmo tom, senão com a graça de L0k1 concedida para não titubear nas palavras:

" - Veneza manos, mó Egito que tou entrando numa também! Saca as quebrada do CFB, facção do CRB, 14º Distrito de SC?"

Okay, eu devo ter titubeado em alguma coisa, porque essas siglas me confundem. Mas a reação? Priceless. O grupinho ficou me olhando como se eu fosse um alien, mas ao mesmo tempo entenderam que eu não tava nem aí com o que eles eram lá fora ou deixavam de ser. O importante é que todo mundo aqui pode pegar livro, pode expressar sua opinião como quer e hey! tem a alta possibilidade de ser tr0llada pela estagiária sem saber. Um ao assinar seu nome na ficha para empréstimo, perguntou:

" - É sério, tia?"
" - Tô zoando véi! Cês tão de boa com isso?"
" - Beleza, falou...!"

O estudante me pareceu relaxar na cadeira onde tava, riu junto com os amigos de gangue e agradeceu por pegar os livros. Dei bom dia, desejei boa aula e pedi para que chamassem mais 5 alunos para vir à biblioteca. Foi simples assim. 

A teoria foi testada e aprovada, a galerinha continua indo à biblioteca na hora do recreio para conversar e falar besteira, às vezes há 1 ou 2 que chega nas estantes e fisga um livro com curiosidade, tudo começa assim. Aquele que me fez as perguntas acima pegou Edgarzinho Allan Poe por recomendação, ele queria algo de terror muito muito assustador. Informei que se ele não tivesse pesadelos após ler alguns contos macabros do maluco Poe, que voltasse e me falasse. Até agora nada e estou otimista em pensar que ele e a gangue estejam sacando o que a biblioteca pode fazer por eles.

Sim, eu sou otimista às vezes, ou pensar em sapatos de cimento.
Mas entre desejar um futuro melhor pra essa gurizada cabeça oca que se vangloria por estar em uma congregação vilanesca e esperar o pior deles (E os tratar de forma horrível), prefiro ficar com a parte fofinha.

Não custa nada.