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sábado, 3 de agosto de 2013

seriados - orange is the new black

[originalmente postado no site Nerdivinas no dia 01 de agosto de 2013]

O Netflix inovou a forma de entretenimento televisivo ao disponibilizar seriados de grandes produtoras da Tv a cabo de forma imediata aos seus assinantes. Com alguns reais por mês, os usuários podem usufruir de um catálogo bem variado de seriados numa tacada só - ah e você pode conectar o Netflix na sua tv de plasma ou LCD, tem recursos para isso. Essa nova forma de se ver televisão trouxe uma gama de seriados especialmente desenvolvidos apenas para um público exigente.

Orange is the New Black - um trocadilho com aquela frase sobre oque está na moda do momento e preto nunca sai de moda - é um projeto audacioso engatilhado pela criadora de Weeds - Jenji Kohan - e tem a mesma proposta de veiculação que Arrested Development e House of Cards (de Kevin Spacey) exclusivamente web e sem limitação de visualização para usuários de outros países (Hulu faz isso direto, méh). Lançado nesse último 11 de julho, com 13 episódios de 50 minutos, o seriado foi alvo de críticas excepcionalmente positivas e muitos queixos caídos ao tratar do sistema carcerário feminino nos EUA, questões sociais, raciais e de gênero, desconstrução de estereótipos, diálogos inteligentes e sem brechas para clichês e o mais importante: o elenco muito bem escolhido.

(Ah nem preciso falar que apenas indicado para maiores de 18 anos, não é? E a trilha sonora é da Regina Spektor, perfeição ao cubo!!)





O seriado é uma adaptação do livro de Piper Kerman "Orange Is the New Black: My Year in a Women's Prison" em que a autora descreve o período de 15 meses que foi sentenciada em uma unidade de segurança mínima por ter ajudado sua ex-namorada a traficar drogas para fora do país. Com essa premissa, o seriado prometia a típica história da menina rica e cheia de planos perfeitos tendo sua fantasia familiar, matrimonial e social indo por água abaixo. Ledo engano! Piper Chapman (a autora no caso, com o nome adaptado, interpretada por Taylor Schilling) é uma mulher de 30 e poucos anos, noiva de Larry Bloom (Jason Biggs de American Pie, é um escritor quase indo bem, mas habitando a zona de conforto dos pais por muito tempo), realizada com sua vidinha de subúrbio e adequações sociais. Quando recebe a sentença da Justiça Americana é que a vida perfeita desmorona. O que poderia ser considerada uma comédia/drama, é bem mais que isso.

Há aquela sensação ruim de amargor no fundo da garganta, porque bem... poderia ser eu, você, qualquer mulher, com mais de 20 anos, acostumada a viver na classe média e que não sabe muito bem o que tem além de suas janelas sociais. Chapman passa um aperto atrás do outro na prisão de Litchfield com as prisioneiras que lá residem mais tempo que ela. Nada é o que parece, não há aquela impressão de estereótipo televisivo de prisioneiras e sistema carcerário americano, há mais do que injustiça social jogada ali para o espectador ser obrigado a ver, eu diria que é uma experiência agonizante.

Orange is the New Black - série inédita do NetFlixNão no sentido ruim da coisa, a agonia é sociológica, emocional, hormonal, porque não se sabe quando as burrices de Chapman vão ter consequências horríveis para ela mesma e para as prisioneiras, ou quando as sinceras palavras de Alex Vause (a irreconhecível Laura Prepon de That's 70's Show, lembram? Pois então, é a ex-namorada traficante internacional de drogas, rockabilly de tirar o fôlego *abana abana*) vão perfurar um coração ou ela mesma, ou quão assustadoras as penas hierárquicas vão ser dessa vez, ou se são as regras de obediência velada, ou se são as revoltas tímidas, ou as demonstrações de carinho ou de coragem. É muita coisa para se digerir em 13 episódios, mas muita coisa para se querer mais.

Tentar ver o seriado sob o olhar das outras meninas parece ser mais fácil, dá para se entender o porquê delas terem acabado ali - em cada episódio há flashbacks das vidas de cada prisioneira e a edição de imagens intercalando com as falas/ações do presente são esplêndidas - você entende o que restou de uma vida de tabefes do sistema capitalista, da sociedade moralista e do patriarcado fizeram a elas. Você se simpatiza pela senhora de quase 70 anos, mercadora de meninas haitianas para fazer serviços de limpeza (Ela mesma fez parte desse mercado quando era criança) nos EUA e que esfaqueou um dos clientes por ter abusado de uma das garotas. Você entende e se penaliza com esse tipo de coisa, Miss Claudette (Michelle Hurst) pegou 35 anos e nunca pediu apelação porque sabia que não haveria nada lá fora para ela por ser imigrante, negra e cometido um homicídio contra a classe superior.

Orange is the new black - "Cada sentença é uma história"
Você tem certo orgulho ao saber Galina 'Red' Reznikov (A cozinheira chefe e superior de todas as prisioneiras) era a pessoa mais esperta que a Máfia Russa poderia encontrar para continuar os negócios, até que seu marido bobão decide que ela precisa se "enturmar" com os grandões. Não, não, dá tudo errado porque Red não era para usar sua inteligência manipulando esposas riquinhas e frívolas, era para fazer parte dos negócios mais altos. Kate Mulgrew (Mais conhecida como a Capitão Kathryn Janeway de Star Trek: Voyager) rouba a cena pela força de suas ações dentro da prisão, tudo com o intuito de proteger as garotas de algo pior. Nicky Nichols (Natasha Lyonne) é a típica little rich girl former junkie que vai para a prisão por alguma razão banal e os pais não aguentam mais os retornos para a Rehab. Tasha 'Taystee' Jefferson (Danielle Brooks) não sabe muito da vida fora da prisão desde seus 14 anos, sua melhor amiga Poussey (Samira Wiley) também segue o mesmo background, a família Diaz, Daya (Dascha Polanco) e Aleida (Elizabeth Rodriguez), filha e mãe são um drama a parte por conta de um envolvimento com um dos guardas da prisão, Tiffany "Pennsatucky" Dogget (Taryn Manning) uma fanática religiosa que inferniza literalmente Alex por proteger tanto Piper, Tricia Miller (Madeline Brewer) a caçula da "turma", ex-viciada, sem-teto e com negócios escondidos com um dos guardas mais corruptos do presídio George "Pornstache" Mendez (Pablo Schreiber que também participou de Weeds), Yoga Jones (interpretada pela dubladora da Paty Maionese de Doug, Constance Shulman), as esquisitices shakespearianas de Suzanne "Crazy Eyes" Warren (Uzo Aduba), mas nada se compara a história de Sophia Burset (magnificamente interpretada por Laverne Cox, ativista dos direitos da comunidade transexual nos EUA), ou Marcus Burset, ex-bombeiro, transexual que é a cabeleireira das meninas na prisão e tenta manter a forma formosa com sua medicação mensal de hormônios, além de tentar manter o contato com a mulher e o filho que deixou do lado de fora ao fraudar cartões de crédito. É cativante se colocar no lugar das prisioneiras, como já citado anteriormente: poderia ser você, eu, a vizinha do lado, sua irmã, sua tia, qualquer uma.

Mas ver o seriado através do olhar de Chapman, a coisa fica feia. Ser a antagonista do plot não é só intimidador como é identificar coisas em comum. Ao decorrer dos capítulos ela se mostra mais como uma menina mimada pela sociedade americana, presa no conforto dos pais ricos, escondendo uma fachada de mulher boa e perfeita para se casar e constituir uma família, mas que na verdade passou parte da vida dela procurando razões e manipulando situações para ser feliz. Dá antipatia na hora, e você não quer ser como Piper Chapman! Ou fazer o que Piper Chapman faz nas horas de desespero na prisão, mas vamos ser honestas?

Se fossemos nós naquela prisão, seríamos todas Piper Chapman.

A 2ª temporada já está sendo gravada e promete sair no começo de 2014 para a alegria do público, até lá você pode assistir novamente todos os 13 episódios de Orange is the New Black. Se já assistiu e gostou, dê uma olhadinha no artigo do BuzzFeed sobre alguns fatos interessantes do seriado (Paty Maionese, gente! Paty Maionese!)

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